topo
 
 
Alfredo Sirkis - RJ
Tamanho da Letra:  -A  +A

Jane Jacobs(1916-2006), uma heroína de nosso tempo.
Jane Jacobs mudou minha vida com o livro The Death and Life of Great American cities. Ela me ensinou a olhar a cidade como ecossistema, a dar importância às calçadas, a cultivar a diversidade de usos.

Alfredo Sirkis

Jane, ativa aos 90 anos.

Jane Jacobs, falecida na terça-feira, passada, dia 25 de abril, aos 90 anos, em Toronto, pode ser considerada uma heroína do nosso tempo. Ninguém entendeu tão profundamente e explicou, com tanta simplicidade e elegância, a alma das cidades. Autodidata, Jane jamais formou-se, academicamente, em arquitetura, nem urbanismo, nem mesmo, na sua profissão, de fato, o jornalismo. Era do tempo em que os repórteres se forjavam na vida, na observação e narrativa do cotidiano. Nasceu, em 1916, em Scranton, na Pennsilvania e mudou-se para Nova York, onde viveu os anos da grande depressão, do New Deal e da II Guerra. Como repórter local especializou-se nas questões do dia a dia dos bairros sendo influenciada pelo pensamento de William Wyte que, na época, remava contra a corrente das concepções urbanísticas vigentes. Na época, eram hegemônicas as visões modernistas que propugnavam um planejamento urbano tecnocrático, com segregação de usos, baixas densidades. Cidades na escala do automóvel, negando a calçada, o comércio lojista de rua os espaços públicos. Tanto no mundo capitalista quanto no comunista, Le Corbusier era um ícone.

No final da década de 50, Jane escreveu sua grande obra [(http://www2.sirkis.com.br/noticia.kmf?noticia=3915763&canal=258&total=12&indice=0)(The Death and Life of Great American Cities)], publicada em 1961, que permanece de atualidade candente, hoje, quase meio–século mais tarde. Nela Jane estabelece um conjunto de princípios, altamente iconoclastas: louva pluralidade de usos, a vibrante vida das calçadas, os bairros densos, a participação comunitária, numa época onde os centros de cidade se esvaziavam, o downtown era dado como morto e a classe média se mudava para os subúrbios distantes pelas vias expressas desenhadas e implantadas, a ferro e fogo, por Robert Moses, o tzar do rodoviarismo novaiorquino.

No seu livro The Economy of Cities ela contesta, de forma consistente, a idéia de que a agricultura precedera os primeiros aglomerados urbanos. Mostra que, pelo contrário, as primeiras aldeias, entrepostos de comércio de produtos extrativistas, antecederam e impulsionaram a atividade agrícola.

Jacobs liderou a mobilização contra a última das vias expressas projetadas por Moses. A Lower Manhatan, que deveria destruir o bairro do Soho (South of Huston). Vitoriosa, a resistência ensejou a sensacional revitalização do bairro que, logo, tornou-se fashion. O baixo preço dos antigos galpões industriais, abandonados pela expectativa de construção da via expressa, atraiu os artistas que por sua vez atrairam os bares da moda e um uso residencial sofisticado, na forma de lofts.

No final dos 60, Jacobs mudou-se para Toronto, com a família, em protesto pela guerra do Vietnam e lá viveu até agora.

Em dezembro passado, estive em Toronto e tentei, arduamente, contacta-la através de meus amigos Jeb Brugmann e Sue Zelinski. Sabia que seria uma última oportunidade. Não consegui. Me disseram que estava doente, mas, mesmo assim, preparando dois novos livros.

Posso dizer, sem exagero algum, que Jane Jacobs mudou minha vida. Após ler The Death and Life of Great American Cities, meu olhar e meu pensamento sobre cidades mudou completamente, foi o equivalente a uma revelação. Fecho esse registro com uma de suas frases antológicas:

“Cidades cheias de vida têm essa maravilhosa habilidade, inata, de compreender, de comunicar, de concatenar e inventar o que será necessário para combater suas dificuldades...Cidades ativas, diversificadas, intensas contêm não só as sementes de sua própria regeneração, como energia suficiente para irradiar soluções para problemas e necessidades além de seus próprios limites.”

[(http://www2.sirkis.com.br/noticia.kmf?canal=258)(SAIBA MAIS SOBRE JANE JACOBS)]

PS - Por decreto do prefeito César Maia, o prédio que abriga o Instituto Pereira Passos (IPP) passou a chamar-se Jane Jacobs, da mesma forma com que seu auditório. Uma justa homenagem.


 
Total: 197   | 1 a 10 |   «   »
29/03/2018 - 15:52
Novos caminhos para a descarbonização
Alfredo Sirkis - RJ
14/09/2016 - 21:20
Ratificando Paris
Alfredo Sirkis - RJ
14/09/2016 - 21:09
Ratificando Paris
Alfredo Sirkis - RJ
14/09/2016 - 21:09
Ratificando Paris
Alfredo Sirkis - RJ
27/07/2016 - 17:49
O Clima e seus cenários assustadores
Alfredo Sirkis - RJ
05/11/2015 - 18:11
Rio Clima 2015: uma prévia da COP 21
Alfredo Sirkis - RJ
27/07/2015 - 09:31
O sol que tarda
Alfredo Sirkis - RJ
22/04/2015 - 13:14
Maioridade penal, debate viciado
Alfredo Sirkis - RJ
21/03/2015 - 00:12
"Tempestade prefeita" à vista?
Alfredo Sirkis - RJ
20/03/2015 - 13:25
Marcão decidiu partir
Alfredo Sirkis - RJ
 
 
Table has no partition for value 1550332439