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Alfredo Sirkis - RJ
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Marcellão, alma carioca
O otimista inveterado que devolveu ao Rio seu alto astral depois da falência de 1988. Um parceiro de décadas, um amigo.

Alfredo Sirkis


Com Marcelo atendendo um protesto no Bairro Peixoto, em 1989

 Nesses tempos em que reconhecimento e gratidão parecem dois sentimentos algo desvalorizados quero gritar a plenos pulmões os meus por Marcello Alencar. Foi o prefeito que nos devolveu a autoestima e o otimismo que havíamos perdido naquela agonizante falência do município do Rio de Janeiro com sua interminável greve de servidores, em 1988. Marcello teve a sorte de se beneficiar dos recursos adicionais aportados aos municípios pela então nova Constituição mas foram fundamentais para tirar o Rio daquele buraco sua coragem, sagacidade política e contagiante simpatia. Conheci-o em 1968 quando era advogado dos líderes do movimento estudantil. Reencontrei-o, depois da anistia, nos anos 80. Durante sua segunda prefeitura, 1988-92, embora eu fizesse parte da oposição na Câmara Municipal, trabalhamos juntos nas questões ambientais e desenvolvemos uma forte amizade, daquelas que caíram em desusos nas atuais lides políticas dominadas pelo pragmatismo frio, ególatra e negocista. Marcello possuía um fino senso de humor, malicioso mas nunca maldoso e frequentemente fazia piadas divertidas às expensas de si próprio. Possuía uma memória pródiga de causos do Rio e da política.

Quando aprovei a Lei que criava a Área de Proteção Ambiental (APA) da Prainha, impedindo a construção de três prédios na ultima praia totalmente preservada do Rio, Marcello sofreu toda sorte de pressões, inclusive de pessoas muito próximas, para veta-la. Resistiu e promulgou-a, entusiasticamente. Noutro embate a maioria dos vereadores decidiu aprovar um substitutivo trocando meu projeto da APA Marapendi por um de “polo turístico” de prédios de 30 andares na restinga da lagoa. Marcello se antecipou e aceitou transformar o texto do meu projeto original em decreto que assinou às margens da lagoa de Marapendi. Não hesitou um minuto em atender minha reivindicação para incluir as ciclovias no projeto Rio Orla. Assim a cidade ganhou suas primeiras em Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra e Recreio, apesar do cacête diário que ambos apanhavamos do Millor Fernandes, desafeto da ideia, no JB. Das suas grandes realizações, no entanto, aquelas que Marcello mais prezava, foram as na zona oeste, até então totalmente esquecida, abandonada por sucessivas administrações.

Ele preparou a cidade para a Rio 92, um grande momento em que recuperamos de vez nosso orgulho carioca. O Rio de Janeiro mostrou-se receptivo, cosmopolita, apto a acolher com brio grandes eventos internacionais com dezenas de chefes de estado de todo o planeta. Ninguém duvidou do bônus que aquilo trouxe para a cidade. Deu-se até um a trégua na preocupante crise de segurança que vinha se avolumando. Predominava o carinho pela nossa cidade e não passou pela cabeça de nenhuma categoria aproveitar, oportunisticamente, o evento internacional para chantagear com pautas corporativistas e esculhambar a Cidade, ao vivo e a cores para o resto do planeta, comportamentos recorrentes nesses bizarros tempos pós-modernos de “estética” black block.

Como governador Marcello já não foi tão feliz. Teve inúmeras dificuldades e uma gestão que não repetiu o sucesso daquela sua prefeitura. No que pese algumas divergências continuamos amigos. Há alguns anos ele passou várias semanas na UTI e, apesar dos prognósticos adversos, sobreviveu e se recuperou parcialmente. Tratou a provação com humor : ”pois é, fui dar uma olhada lá do outro lado. Lugar escuro, frio, coisa e tal. Não gostei, resolvi voltar”. Mesmo numa cadeira de rodas ele mantinha o ânimo, a irônico e aquela intensa curiosidade pela cidade e pelos causos e folclores da política. Agora nosso querido Marcellão vai assistir a Copa e as Olimpíadas desde de algum ponto mais elevado nas arquibancadas celestes, entre o Corcovado e o Pão de Açucar sob o aplauso de nós cariocas, agradecidos.


 
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