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Alfredo Sirkis - RJ
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A tempestade perfeita
A crise é uma das piores e não tem solução a curto prazo, vai piorar antes de melhorar.

Da Redação

O Brasil vai navegando na bruma em direção do que os anglos chamam de perfect storm: uma tempestade perfeita. A “lista Janot” acabou funcionando como um anteparo para Dilma: entraram na roda o PMDB, a maioria dos nomes eram do PP, deram um jeito de colocar o Aécio na alça de mira: ainda que “arquivada” a simples aparição do nome no noticiário é “queimativa”, até porque colocaram na roda seu amigo, o senador Anastasia, convenhamos, até agora de forma pouco convincente: pode ser que haja algo mais, mas foi na base “acho que foi ele” do ex-policial maleteiro, desmentido pelo próprio doleiro. Se for só isso, dificilmente se sustentará. Mas, no imediato, gera os efeitos políticos desejados: um jogo de “barata voa”.

Assim o PT, afinal, aparece como “apenas mais um” e Dilma não pode ser investigada por motivos constitucionais. Os presidentes da Câmara e do Senado, do PMDB, que vinham botando as manguinhas de fora, agora estão na alça de mira.

Não ficou tão ruim assim para o governo consideradas as suas responsabilidades históricas com os desmandos na Petrobras e outras estatais. Acertos entre empreiteiras e entre elas e governantes vem dos tempos de Getúlio Vargas e antes disso, mas um esquemão tipo esse montado na Petrobras (e provavelmente em várias outras estatais e fundos públicos) é todo um outro patamar.

Há uma enorme engrenagem nas entranhas do estado que pode ser identificada e punida mas só desaparecerá, de vez, quando o preenchimento de altos cargos da burocracia estatal deixar de ser “politico” e passar a ser simplesmente meritocrático.

O PT não inventou o patrimonialismo e o fisiologismo brasileiro mas elevou-o a patamares superiores praticamente dobrando o número de cargos comissionados e tornando a ocupação de quase todos ministérios presa de barganha política. Isso depois de ter sido, durante tantos anos, o a “UDN de macacão”, os campeões da honestidade e da ética. Os únicos...

O Juiz Sérgio Moro foca persistentemente nos grandes esquemas nas estatais. Naturalmente há interesse do PT em proceder ações diversionistas em larga escala. Vai ser cada vez mais difícil separar o trigo do joio, haverá um monte de denúncias cruzadas, muita confusão, muita dificuldade de separar financiamento de campanha ou partido, legítimo, do ilegítimo e uma tendência à criminalizar todo tipo de situação e estigmatizar todo o mundo.

Já na lista do Janot há acusados de terem “solicitado financiamento de campanha”, o senador Lindbergh, parece ser um deles, não sei se há mais coisa contra ele mas se for só isso é problemático. Como no caso do Anastasia, vai à execração pública pelo espetáculo da “lista Janot” divulgada na hora do Jornal Nacional.

Imaginamos que algum dos citados seja inocente, já que não se trata sequer do indiciamento, é apenas autorização para um inquérito: dificilmente o dano será reparado. Quanto aos executivos presos é preciso ter em consideração que uma prisão provisória tão prolongada, claramente para forçar delações premiadas, é faca de dois gumes. Além de fazer tábula rasa do princípio constitucional da presunção de inocência inaugura um novo critério jurídico no qual possíveis crimes do colarinho branco tornam-se mais graves que crimes violentos contra a vida. Se algum desses cavalheiros tivesse matado a sua mulher, ou mandado executar o amante dela ou um rival comercial, subido a calçada de carro, bêbado, e provocado a morte de três pessoas ou crivado de balas alguém numa briga de trânsito, dificilmente estaria preso tanto tempo antes de ser julgado. E mesmo condenado provavelmente poderia recorrer em liberdade.

Pessoalmente acho a justiça brasileira demasiado leniente com a violência. Já o crime do colarinho branco, frequentemente permanece impune. É bom que não o seja mas não pode ser “ou oito ou oitenta”. Penso que está se criando um precedente perigoso.

Por outro lado, forçar a falência dessas empresas pode provocar um desemprego avassalador onde milhares de trabalhadores pagarão pelas negociatas de outrem. As empresas além de devolverem o que saiu indevidamente da Petrobras devem pagar, como já ocorreu nós EUA e na Europa, com empresas como a Siemens e numerosos bancos, fortes multas. Mas deve-se evitar sua falência provocada pois uma quebradeira dessas, sobretudo num situação econômica como a que se esboça é perigosa para o país.

Finalmente, temos a questão do impeachment. É eminentemente política. O paradoxo é que pode eventualmente ser até bom para o PT. Não terá que responder pela recessão, podrá fazer-se de vítima do “golpismo” mobilizar seu “exército” e permitir a Lula, voltar em 2018, como oposição.

Queremos uma situação de violência onde uma parte da extrema-esquerda se alie ao tráfico e a extrema-direita se torne uma grande força política? Vale a pena entregar isso ao PMDB? Conseguem imaginar Michel Temer no Palácio do Planalto e Eduardo Cunha e Renan na linha de sucessão? Além da crise econômica e social ainda queremos uma cavalar crise institucional? Por outro lado, a revolta é imensa e tudo isso pode tornar-se simplesmente inevitável pois ninguém tem controle sobre a história quando desembesta de vez.

Nossa geração, durante muito tempo, se acostumou a temer como pior cenário uma nova ditadura. No nosso mundo pós-moderno perfila-se uma outro: a “síndrome dos estados falidos” uma espécie de novo medievalismo. Há países da América Latina (sem falar de Oriente Médio ou África) que já mergulharam nisso: Honduras, Guatemala e Venezuela(essa como semi-ditadura falida...) a caminho. Aqui ainda não estamos perto disso mas devemos seriamente nos precaver.

Por isso é bom respirar fundo, contar até cem e ver como se pode lidar com essa crise pactuando institucional e politicamente um caminho sensato que a atual histeria, nas redes sociais --tanto a petista quanto a anti petista-- prenuncia como missão de dar nó em pingo d’agua.


 
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