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Alfredo Sirkis - RJ
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Leia íntegra do discurso de Marina Silva no lançamento de sua pré-candidatura no Rio Sampa.
Um discurso cheio de significado e destin ao a entrar para a história.

Marina no Rio Sampa

Pessoal, quero agradecer a Deus por estarmos aqui.

Estou muito feliz, mas preciso dizer muitas coisas: tenho que fazer o manejo sustentável da minha voz. Ainda estou um pouco rouca, por conta de um mal entendido, ocorrido há alguns dias.

Eduardo Rombauer, do grupo de militantes novos da civilização, que usa muito a internet, diz que a minha campanha tem que ser viral. Nós concordamos, inteiramente. Mas, não precisa ser viral na garganta! E os vírus me atacaram a garganta. Então, tenho que fazer o uso sustentável da minha voz.

A nominata é grande, porém, ainda insuficiente para nominar todas as pessoas responsáveis por esta festa, que não está acontecendo apenas aqui, mas, no coração do Brasil.

Vindo de lá para cá, quero cumprimentar meu companheiro Sérgio Xavier, nosso candidato ao governo de Pernambuco.

À amiga e irmã, que nos acalenta com sua voz, Adriana Calcanhoto. Obrigada por sua presença. Foi um presente lindo o que você me deu, um lindo colar xavante para que colocar em meu pescoço.

Quero cumprimentar o meu amigo e conselheiro, um ombro poético, que nem toda mulher pode ter, Thiago de Melo. Muito obrigado por esse ombro. No Ministério do Meio Ambiente, qualquer coisa que me fizessem, o Thiago me ligava e dizia: “Nega, quero que tu saibas que estou contigo!”.

Meu companheiro Gilberto Gil, cantor, poeta. O Gil fez um discurso em forma de poesia. Se estiver gravado, vocês vão ver que é mais poesia do que discurso. Muito obrigada, Gil, por estares aqui, comigo, com o mesmo coração, a mesma raça e graça.


Quero cumprimentar meu professor, futuro governador do Estado do Rio de Janeiro, Fernando Gabeira! Digo com orgulho e vaidade que o Fernando foi meu professor, me ensinando os rudimentos da ecologia, indiretamente. O bom professor é aquele que ensina, torna alguém um ampliador de conhecimento. E o ampliador do conhecimento forma outras pessoas! Ele ensinou a Chico Mendes, e o Chico me ensinou. Obrigado, Gabeira. Você vai ser o governador do Rio de Janeiro porque o Rio de Janeiro merece!


Quero cumprimentar, também, ao presidente Nacional do Partido Verde, o companheiro Penna, agradecendo pelo acolhimento que me tem sido dado pelo PV por toda essa família Verde.


Quero cumprimentar, também, minha companheira, a vereadora Aspásia Camargo, essa mulher a quem aprendi a admirar no Ministério do Meio Ambiente, uma mulher competente e comprometida com o Brasil e com o Rio de Janeiro.


Meu amigo e companheiro Ricardo Young, nosso candidato ao Senado por São Paulo. Se Deus quiser, vai ser o primeiro senador Verde do Estado de São Paulo, para receber das minhas mãos a faixa senatorial, se é que existe uma faixa senatorial.


Quero cumprimentar ao meu amigo e grande companheiro, Fábio Feldman, responsável por um dos sonhos que eu e Chico Mendes acalentávamos lá no Acre: que as populações tradicionais tivessem parte na Constituição Federal. Fábio, se Deus quiser, você vai ser governador de São Paulo.


Meu amigo, companheiro e irmão, Alfredo Sirkis, esse comandante polonês, com um coração de criança! Obrigada, por ser meu coordenador da pré-campanha. O Alfredo é emoção pura.


Quero cumprimentar, também, meu companheiro, o coordenador-adjunto da pré-campanha, que esteve comigo, foi meu braço direito e esquerdo (no Ministério do Meio Ambiente), meu centroavante, e não sei o que mais na linguagem futebolística, o João Paulo Capobianco.


Cumprimento meus parceiros de jornada. Não dá para nominar a todos, mas não poderia deixar de falar no professor Paulo Sandroni, da Fundação Getulio Vargas. Sei que posso te chamar de Sandroni, já tenho 52 anos, mas a reverencia me faz chamá-lo de professor. Tenho orgulho de tê-lo como coordenador do Programa de Governo do Partido Verde e do povo brasileiro.


Minha amiga Neca Setúbal, como carinhosamente aprendi a chamar esta amiga com o Guilherme, a Maria Cecília. Ela se dispôs a ser a coordenadora da parte de educação do Programa do PV. Foi uma coisa muito bonita porque descobri o trabalho que ela já faz a mais 30 anos, e que eu faço no socioambientalismo.


E por que esses trabalhos se encontram neste momento? Porque são trajetórias que se cruzam. Eu e Neca estamos fadadas, condenadas por nossas condições: a pobre menina pobre, filha dos excluídos entre os excluídos, seringueiros da Amazônia; e a Neca, uma pobre menina rica. Mas, ela é muito mais do que isso! Ela é uma rica educadora que se fez pela educação, como estou aqui porque entrei pela fresta da educação.


Olha o que acontece quando a gente aproveita as oportunidades! Do seringal à USP conseguimos desenvolver as nossas potencialidades!


Quero, também, cumprimentar a minha companheira, Regina Gonçalves, coordenadora do Programa de Mulheres do Partido Verde. O meu companheiro Marcos Barros. E, na pessoa do Marcos, cumprimento a todos que entraram no PV junto comigo. Quero cumprimentar meu companheiro Marco Antônio Mroz, presidente da nossa Fundação Verde Hebert Daniel, e muitos outros companheiros que não tenho como nominar, como Mauricio; Rogério, que turvou esses lindos olhos verdes ao ouvir a fala de Gil.


Bem, companheiros, sintam-se todos nominados. Mas não poderia deixar de nominar duas pessoas, que estão aqui representando, muito especialmente, a minha família: minhas duas filhas, Moara e Mayara. Podem se levantar, gostaria de ver vocês de pé, simbolizando as futuras gerações deste país! Obrigada, minhas queridas, por cuidarem de mim, para que, juntas, possamos cuidar do Brasil!


Quero voltar ao meu amigo, companheiro e irmão, Guilherme Leal. Durante esse tempo todo, conversamos sobre a vice, mas há muito tempo temos trabalho e conversado sobre o Brasil.


Começamos a prestar a atenção um ao outro, no final na década de 90. Ele como empresário, com suas responsabilidades empresariais, sociais e ambientais. E está trazendo sua experiência, sua bagagem para esse projeto. Eu, como militante da luta socioambiental popular.


Como essas duas trajetórias se cruzam, se encontram, ainda que caminhando em direções diferentes, durante algum tempo, apenas do ponto de vista dos lugares em que estávamos? Cruzaram-se na vontade, nos propósitos.


Por isso, tenho muito orgulho, Guilherme, de ter você como vice-presidente na nossa chapa, no nosso projeto, neste movimento, simbolizando essa aliança, que chamo de núcleos vivos da sociedade. Você representa esses núcleos vivos, do empresariado àqueles que fazem a militância socioambiental. Dos que fazem a militância socioambiental àqueles que se dispõem a antecipar o futuro, mesmo quando o presente ainda diz não.


Muito obrigada por estarmos juntos nesse novo desafio!


O Guilherme faz política há muito tempo, mas, agora, está se dispondo a fazer política institucional.


Meus companheiros, tenho que conversar com vocês. Hoje, é um dia especial, o dia do lançamento da pré-candidatura, um ato em que a grande novidade, a grande conquista foi termos o vice dos nossos sonhos.


Mas, agora que temos a dupla, que estamos completos, com as duas pernas, a feminina e a masculina, a do social e a do ambiental, que se materializam num bom exemplo de ação empresarial, é preciso falar de propostas.


Por que nós estamos fazendo esse ato de lançamento dessa pré-candidatura? Por que me dispus a esse desafio? Primeiro, por um jeito novo de governar. Depois, pela busca da sustentabilidade, palavra díficil.


Mas, professor Paulo Sandroni, da mesma forma, durante muito tempo, as pessoas falavam apenas em desenvolvimento. Depois, os economistas começaram a falar que o desenvolvimento tinha que ser sustentado. E a gente não entendia direito. Mas os não tão iniciados, depois, foram compreendendo que se não fosse sustentado não seria duradouro.


E estamos requalificando que não é sustentavel apenas baseado na sustentação econômica, mas sustentável baseado na sustentação econômica, social, ambiental, cultural, política e ética.


É por isso que estamos aqui!


Essa palavra parece trazer um certo estranhamento, mas podem aguardar que, em poucos anos, fará parte do cotidiano, do repertório das pessoas, tanto quanto passou a fazer o sustentado. O sustentado que, agora, precisa ser resignificado para sustentável. Estou aqui, também, para falar do que é essa sustentabilidade e como se materializa.


Um outro desafio, sem o qual não tem sentido o desenvolvimento: o desafio de igualdade de oportunidades para todas as pessoas. Todas as pessoas têm as mesmas capacidades, meus amigos, meus companheiros, irmãos. O que nos falta são oportunidades.


O ser humano, como insiste meu amigo (Gilberto) Gil, é um sujeito desejante, que deseja felicidade, tranquilidade, acolhimento. E, com as potencialidades desenvolvidas, fazer suas escolhas: ser artista, advogado, economista, desocupado, se for seu desejo. Mas, tem que ter a oportunidade no tempo certo, no período certo, com justiça social.


Sei o que significa isso. Como analfabeta até os 16 anos, a única fresta pela qual passei foi a da educação, por meio do Mobral. Essa história vocês já conhecem... Mas, indo para uma universidade pública, com bons professores _que quero homenagear na pessoa do meu querido professor Waldir Calixto, que me ensinou boa parte do pouco que sei em História, do pensamento econômico, enfim, história geral_, por essa fresta da Universidade Federal do Acre, estou aqui, nesta condição, ex-vereadora, ex-deputada, senadora e ex-ministra.


Isso foi a educação! Oportunidade para as potencialidades!


Do mesmo jeito do jovem que entrou na USP, filho de classe média, Guilherme Leal, que, com a boa educação da USP, uma universidade pública que desenvolve seus talentos, hoje, é um próspero empresário. Próspero economicamente, mas, também, do ponto de vista dos princípios e da ética. E é disto que estamos falando nesta tarde.


Que desafio temos pela frente? Temos o desafio de desenvolver políticas que sejam cidadãs, baseada em princípios e valores.


Às vezes, parece meio chato, meio udenista se dispor a falar em princípios e valores. Não vamos deixar banalizar, satanizar aquilo que para nós deveria ser sagrado, os valores éticos de uma gestão pública comprometida com a transparência, com a competência, com o uso correto dos recursos públicos, para que as oportunidades sejam multiplicadas em benefício da sociedade, em benefício das pessoas.


Queremos uma política baseada em princípios que nos levem a uma ação de intolerância com a corrupção. Queremos uma política que nos leve a uma forma, talvez, o melhor instrumento de combate à corrupção: o controle da sociedade.


Ainda, estamos aqui porque temos que falar da formação, daqueles a que me referi, para a sociedade que começa a se constituir ainda de forma difusa, ainda sem todos os seus contornos, mas, que, com certeza, não é mais a sociedade da modernidade. É a sociedade da pós-modernidade.


E como a gente prepara os jovens para esses novos desafios que se descortinam diante de nós? A gente prepara com a capacitação que queremos para o século 21, com a atenção que vá da primeira infância à universidade, com um esforço que nos faça consolidar uma educação criativa, uma educação capaz de formar o nosso jovem, ensinando matemática, física, língua portuguesa. Para que ele tenha uma boa base, mas, ao mesmo tempo, aprenda a aprender.


Essa sociedade vai exigir pessoas que sabem manejar o conhecimento e não petrificam o conhecimento. Essa é a formação que queremos para os nossos jovens, para nossas crianças.


Quero dizer que queremos também a qualidade de vida para as pessoas em todos os lugares. Queremos moradia digna para as pessoas que vivem na cidade. Queremos lazer para as pessoas que vivem na cidade.


Fiquei muito feliz quando ouvi o Gabeira dizer: “Só tem sentido se for para que, em Nova Iguaçu, a gente possa resolver o problema do saneamento básico”. O saneamento básico que ainda não chegou para esta região, Aspásia. Que possamos acabar com uma situação que não é aceitável: 48% não possuem esgoto sanitário ligado à rede de coleta. Há somente 1% de esgoto tratado.


É para isso que você é candidato ao governo do Rio de Janeiro, Gabeira.


Quando a gente fala em sustentabilidade urbana, as pessoas dizem: “E o que é a sustentabilidade na zona urbana, nas periferias das cidades?”. A sustentabilidade é não ter 60% das ruas sem pavimentação adequada, sem ciclovias, sem meios para as pessoas terem melhor mobilidade. É não ter ocupações que fazem com que, quando chovem, haja deslizamentos e as pessoas venham a morrer. Isso é sustentabilidade no concreto.


Mas, a qualidade de vida ainda diz respeito a uma questão importante: a segurança pública. Segurança pública para que as pessoas vejam nos policiais, nos agentes públicos pagos pelo Estado para proteger a vida, não uma contradição à vida, mas um valor em defesa da vida da população, em defesa da vida do próprio policial, em defesa da vida daquele que, por ser um contraventor, muitas vezes na marginalidade por várias razões, tem que ser interditado corretamente pelo Estado. Isso não significa que não tenha sua vida protegida.


Para isso, vamos precisar fazer uma reforma da segurança pública. Não é questão de ficarmos amontoando mais estruturas, estruturas sobre estruturas, quando a base, o fundamento não suporta essas estruturas. Uma reforma da segurança pública para que as pessoas possam viver com tranquilidade. É disto que se trata a sustentabilidade do ponto de vista da defesa da vida.


Como as pessoas vão para o trabalho? O Gabeira dizia, há pouco, que a maior parte usa o seu tempo de dormir e descansar tentando se locomover, se deslocar para o trabalho.


Como a gente pensa a cidade? Como a gente pensa o urbano para que as pessoas possam morar mais perto do trabalho? Ou o trabalho ser mais perto de onde as pessoas moram? Que o transporte público seja de qualidade, e a gente aprenda que há um grande valor posicional, como diz o professor Eduardo Giannetti, não sair com o carro todo dia, enchendo, entupindo as ruas, e, ao mesmo tempo, fumegando o planeta. É muito charmoso ir para o trabalho na sua bike, num bom ônibus, num bom transporte coletivo.


Isso é possibilitar qualidade de vida e sustentabilidade às cidades.


E queria colocar uma outra questão, a questão das políticas sociais. Há um preconceito muito grande, às vezes, em falar em políticas sociais. Tenho conversado com o economista Ricardo Paes de Barros, a quem tenho a honra de ter, com o professor Sandroni, a Neca e tantos outros, no Programa de Governo, que eu e Guilherme estamos junto com eles discutindo. E quero cumprimentar a todos da pessoa do Tasso (Azevedo).


Temos falado que os programas sociais vêm passando por uma evolução. Intuitivamente, falei que o velho sacolão, a cesta básica que o Luiz Gonzaga homenageava, dizendo: “Uma esmola a um homem que é são, lhe mata de vergonha ou destrói o cidadão!”. O sacolão e a cesta básica são muito parecidos com isso, com algo que mata de vergonha ou vicia o cidadão.


O presidente Lula chega e propõe o que chamo de programa social de segunda geração, diferente do sacolão, da cesta básica que colocava, dentro de uma cesta um pouco de óleo, leite, fubá, açúcar, sal e um feijão, que não cozinhava nunca.


E isso era levado para as pessoas em todas as regiões do país, sem olhar para a culinária daquela região. Era tudo homogeneizado, como se fossemos batata e saco de estopa. Não! Temos gostos diferentes, paladares diferentes!


A cesta básica era uma mistura de caridade do Estado com politicagem eleitoral da pior qualidade.


O presidente Lula chega, e, graças a sua capacidade política, percebe que não tinha como seguir esse caminho. E lança mão de contribuições acumuladas no Ipea, de pessoas como Ricardo Paes de Barros, Ana Maria Peliano e tantos outros, propõe o Programa de Transferência Direta de Renda.


O que é esse Programa de Transferência Direta de Renda? O programa não é assistencialismo, como querem dizer. É um programa que tem contrapartida, sim. Só se recebe o Bolsa Família desde que a criança esteja na escola, a mãe faça o exame da mama, o Papanicolau e outras contrapartidas simples, mas muito importantes.


Quando uma pessoa evita o câncer da mama, não só está protegendo a sua saúde, que é um direito, como está evitando milhões e milhões drenados do SUS. Quando uma mãe faz o exame do colo do útero é a mesma coisa. Quando a criança vai para a escola, estamos fazendo um investimento para que essa criança tenha uma inclusão positiva. É uma contrapartida para aquelas pessoas que se reverte em beneficio dela mesma e da sociedade.


E mais do que isso. Ao ter uma renda na mão da família, a pessoa compra o que necessita no mercado local. Já vi muitas comunidades agrícolas sendo aquecidas com o Bolsa Família. Quem não comprava feijão passou a comprar. Quem não comprava arroz, milho, rapadura passou a comprar.


Não foi à toa que, graças a essa renda, no Nordeste brasileiro, tivemos uma grande fonte ajudando a debelar a crise. Estou dizendo isso por justiça.


Guilherme e eu conversávamos outro dia, falando sobre nosso desafio. O nosso desafio, meus amigos, companheiros, é fazer uma campanha justa, uma campanha que não ache que, para ganhar voto, vale tudo, que vale lançar a melhor frase de efeito, sem se preocupar em estar sendo justa ou não, verdadeira ou não com a Dilma ou com o Serra ou com o Plínio. Não vamos fazer esse tipo de campanha!


Não precisamos fazer esse tipo de campanha. Isso não educa para uma sociedade sustentável do ponto de vista da ética, do ponto de vista dos valores. É muito fácil falar de valores, defender a democracia, mas, quando se é confrontado, na primeira oportunidade, tenta-se dar uma rasteira na democracia. É totalmente incoerente, como vimos fazerem com o Ciro Gomes. Interditaram a campanha do Ciro.


Quero dizer que estou fazendo esse reconhecimento pensando no que seriam esses programas sociais de segunda geração. E vou aproveitar para dizer: só é possível incluirmos 25 milhões de pessoas, que estavam abaixo da linha da pobreza, em razão do circulo virtuoso que temos nos últimos 16 anos, com o Plano Real.


Por que (Sérgio) Xavier? Com estabilidade econômica, com a diminuição da inflação, com o controle da inflação, com o superávit primário que nos ajudou a atravessar a crise, com um câmbio flutuante, que nos permitiu manejar essa situação de uma forma completamente diferente de outros países, como a Argentina, nós conseguimos uma base para fazer os investimentos que estamos fazendo hoje. Ainda são insuficientes, mas são investimentos feitos graças ao Plano Real.


Dei o crédito ao presidente Lula. Agora, vou dar ao presidente Fernando Henrique. O presidente Fernando Henrique não era um gerentão, era um homem de visão, como o Lula. E foi capaz, não sendo economista, de fazer o Plano Real.


Toda vez que digo isso, as pessoas dizem: “Mas, Marina, até entendo que você fale do Lula. Afinal, foram companheiros durante tantos anos. Vocês têm a mesma trajetória de partido, de luta social. Você foi sua ministra. Mas, o presidente Fernando Henrique? Por que você fala do Fernando Henrique, do Itamar Franco? Você pode perder voto por que nem o PSDB dá o crédito do Plano Real ao Fernando Henrique”.


Eu digo que não falo para ganhar voto. Falo para fazer justiça. Se para ganhar votos temos que deixar de ser justos, então, não quero ficar na fronteira do “ganhar voto”. Eu quero fazer nesta campanha, se Deus quiser, que estamos começando na pré-campanha aqui, que esses valores estejam presente.


E estou fazendo um apelo a todos nós: que esses valores estejam presentes como está fazendo o Mockus. O Mockus, na Colômbia, assumiu o compromisso de que vai respeitar seus adversários. Nós temos que respeitar os nossos oponentes, os nossos concorrentes. Vamos, cada um de nós, firmar este compromisso.


Quero dizer ainda que sei que tudo isso é um desafio muito grande. Para fazer isso tudo, é preciso que aconteça uma mudança muito significativa na política. Talvez tenhamos que reinventar uma nova maneira de caminhar, como diz o Thiago (de Melo), um novo tipo de liderança.


E vou tentar concluir, falando um pouco disso. Para que tudo isso aconteça não basta uma nova forma de fazer as coisas na política, o que por si só já seria muita coisa...


Imagina uma nova forma de fazer com transparência, com combate à corrupção, com eficiência, com um Estado que não seja provedor, mas mobilizador. O Estado mobilizador é aquele que é capaz de pegar os recursos públicos e, a partir do bom uso desses recursos, com eficiência, mobilizar o melhor do melhor, conseguindo boas parcerias com o empresariado, com as ONGs, com os diferentes segmentos da sociedade. E faz a transformação. Combate a corrupção, consegue bons resultados, é um bom prestador de serviços. O Estado que faz diferente, o político que faz diferente faz muito. Mas, eu vou além. É ser diferente na política. É disso que estou falando...


Neste inicio de século, estamos vivendo uma crise sem precedentes _a crise econômica. É só ver o que está acontecendo na Espanha, em Portugal e na Grécia. Bilhões tiveram de ser mobilizados novamente para socorrer esses países. Estamos vivendo uma crise econômica sem precedentes.


Estamos vivendo uma crise social, que se expressa na realidade do Brasil, ainda com graves problemas sociais que precisamos transitar. Precisamos transitar para o futuro com os programas sociais, inclusive, os de terceira geração. Programas que ofereçam uma cesta de oportunidades para que as pessoas possam ter seu trabalho, educação, profissionalização, treinamento profissional. A isso chamamos de inclusão produtiva.


Vamos ter que pensar a saída da crise social como um compromisso ético. Já temos boa parte das respostas técnicas para o problema da falta de educação, de alimentos e moradia. O que nos falta é o compromisso ético de colocar toda nossa técnica a serviço da decisão que teremos que tomar, para transformar o Brasil e transformar esse mundo, fazendo esse mundo melhor.


Estamos vivendo uma crise ambiental. Para resumir, se não estancarmos as fontes de emissão de CO2, que podem fazer com que a Terra continue aquecendo, se ultrapassarmos dois graus, podemos inviabilizar toda a vida na Terra. Não temos sequer como elaborar isso na nossa cabeça. É tão dramático. É tão difícil.


Para isso, torna-se imperativo uma nova forma de ser na política. E esse novo ser na política requer que a gente pare para pensar que a crise é complexa. A crise tem uma faceta multidimensional. E as respostas, também, são variadas.


Para resolver, vamos precisar de um novo tipo de liderança social, empresarial, política. Eu consigo ver boa parte desta nova forma de liderança no mundo empresarial de vanguarda. O Ricardo (Young) e o Guilherme estão aqui. E temos tantos outros pelo Brasil afora.


E estamos, simbolicamente, neste lugar, para dizer que estamos só começando o ensaio geral de uma nova militância, de uma nova liderança social.


Agora, a liderança política ainda está a desejar. São poucos os que percebem a necessidade da mudança. E devo dizer que essa nova forma de ser na política vai exigir de nós, sobretudo, mais do que discurso, mais do que teoria, Gabeira. Vai exigir de nós liderar pelo exemplo.


E liderar pelo exemplo é saber que nós temos parte da resposta, mas não toda. Se quisermos enfrentar os desafios do século 21, vamos ter que, generosamente, integrar todas as conquistas, tudo que conquistamos, inclusive, graças ao uso predatório dos recursos naturais para transitar para uma nova forma de produzir nossa vida, nossa condição de viver no planeta Terra. Essa nova liderança chamo de liderança multicêntrica, para problemas multicêntricos, que não seja capaz de fazer tudo e ainda fazer o resto.


É essa visão que faz com que, em pleno século 21, em plena crise sistêmica, econômica, social e ambiental, a gente possa ver as pessoas querendo discutir o que não interessa, discutir quem teve o melhor e o maior passado, quem tem o maior e o melhor currículo.


Isso é muito importante. Mas, o Brasil e as necessidades do planeta são maiores do que os nossos passados e os nossos currículos, individuais.


É por essa nova visão que estamos aqui, somando, chamando as pessoas para um movimento, para uma conversa, uma rodada de conversa sobre o Brasil. Uma conversa que não resvale para o que interessa, que não discuta quem divide ou entrega o Brasil.


O Brasil é essa unidade, todos nós! O Brasil é essa coragem que somos todos nós! E não vai ser entregue a ninguém, a não ser a nós mesmos, aos nossos sonhos, a nossa vontade e esperança de que seja muito melhor.


Então, não vamos resvalar para essa história de entreguistas e divisionistas. Isso não interessa. Termina a eleição, e a gente não sabe o que foi debatido. Uma eleição como essa é para que a gente saia com um novo acordo social. Um acordo social que seja capaz de integrar as conquistas e apontar para as grandes mudanças na nova economia.


E o que é economia baixo carbono, Marina? É a gente poder gerar emprego na agricultura sem destruir a floresta. É a gente poder prover o país com infraestrutura adequada para os transportes, para comunicação, para a geração de energia, protegendo a biodiversidade, protegendo as comunidades locais. É a gente ter uma indústria próspera, que receba o devido incentivo não para que se consuma mais e se produza mais do mesmo jeito que se produziu até hoje, mas buscando, como está fazendo Obama, novas respostas, novos resultados.


Essa nova liderança vai ter que estar comprometida com esse debate. E é para isso que estamos aqui.


Não quero embate com a Dilma Roussef, não quero embate com o Serra. Gostei muito daquele ensaio que fizemos lá, em Minas Gerais. Graças a Deus, foi uma conversa. Ali, pudemos nos perceber como gente pensando diferente.


É disso que o Brasil precisa. É isso que nós precisamos construir. É algo que ainda não está pronto, mas acontecendo no mundo inteiro. A gente olha para o


Obama e sente que tem indícios disso. A gente olha para o Mockus e sente que tem indícios disso. E a gente olha para a sociedade brasileira, olha para o Gabeira, e vê que é quase possível materializar isso no Rio de Janeiro.


Olha que coisa bonita está acontecendo no mundo. Temos que estar atentos ao que disse Victor Hugo: “Não há nada mais potente do que uma ideia cujo tempo chegou”.


Uma ideia cujo tempo chegou não é a ideia que a gente tem. É a ideia que tem a gente. E, quando a ideia tem a gente, a gente vira uma potência para transformá-la em realidade.


Meus companheiros, minhas companheiras, esse novo líder tem que ter muita clareza de que pode, mas não pode tudo. Sabe, mas não sabe tudo. Faz, mas não faz tudo.


O que um líder não pode fazer? Não pode sonhar pelas pessoas, decidir o destino das pessoas.


Quando tiraram o Ciro, tinha alguém sonhando pelo Ciro. Tinha alguém decidindo pelo povo, que poderia estar votando no Ciro. Isso nenhum líder pode fazer. Ninguém pode fazer pelas pessoas o que só elas podem fazer por si mesmas: sonhar e decidir o futuro que querem para si, o país que querem, o lugar aonde querem chegar, de que forma querem construir o país.


O líder não pode, não sabe, não tem como saber sozinho, por ele mesmo, o que é melhor para um povo. Não pode saber o que é melhor para o todo. Só o todo sabe, mesmo inconscientemente, o que é melhor para ele.


Quando as pessoas decidiram votar no presidente Lula, podiam continuar dizendo, mentirosamente, que ele iria destruir as famílias, que iria queimar as Bíblias, que iria levar o Brasil à bancarrota, se ganhasse.


Mas as pessoas sentiram, naquele momento, que era melhor a mudança. Só o povo sabe o que deve fazer. Ninguém pode fazer pelo todo.


Por último, ninguém pode abrir mão de algo que é essencial, fundamental: o poder e o fazer. Só nós podemos fazer as transformações, juntos, as transformações que o Brasil precisa.


Um líder não pode dar para um povo um destino. Se você quer um povo forte, se você quer um povo sábio, um povo soberano, ajude-o a construir um caminho. Quando a gente dá um destino está se colocando no lugar muito difícil, subtraindo o fazer conjunto, subtraindo o “fazer com” pelo “fazer para”.


A liderança do século 21 vai ter que aprender. Peço a Deus poder aprender a me colocar como mediadora e não como condutora.


Temos que aprender e nos dispor a coautoria, em vez da exclusividade do feito. Temos que nos dispor e nos colocar mais como mobilizadores do que como provedores de respostas prontas. Essa é a liderança do século 21.


Espero que, no mundo inteiro, a liderança do século 21 esteja se construindo.


Meus companheiros, meus irmãos, junto com o companheiro Guilherme Leal, junto com o Partido Verde, que se dispõe de forma inovadora a fazer um movimento, um movimento pelo Brasil para que o Brasil cuide de si mesmo, dê a sua contribuição pelo planeta, estamos nos dispondo a aprender.


Neste inicio do século 21, devo dizer que estou muito animada, aos 52 anos. Da mesma forma que me sentia animada nos tempos de Chico Mendes. Da mesma forma que me sentia animada e mobilizada na quadra do Colégio Meta. Como mulher de fé que sou _a mesma fé que, hoje, meus companheiros usam, alguns, para deturpar, quem sou, querendo me fazer passar por uma pessoa fundamentalista, intolerante, coisa que meu testemunho de vida jamais atestou_ ficava na porta do Colégio, rezando para que chegassem pessoas. Rezando para que, quando o Lula chegasse, pudesse se animar com um número maior de pessoas.


O Ibrahim Farah dizia: “vamos fazer uma reunião com empresários?”. Eu pensava: “que empresários aqui no Acre? Ninguém quer saber da gente”. E estava lá o Ibrahim Farah.


Eu ficava com vergonha, queria tanto que tivesse muita gente naquela reunião e o Lula não saísse dali triste, mas animado com o projeto que a gente queria construir.

Hoje, me vejo diante de uma situação. Muitas vezes olho para minhas filhas. Elas e os que me conhecem sabem que, quando as pessoas dizem que a senadora está fazendo o jogo do Serra, o jogo da Dilma, não estou fazendo jogo de ninguém. Estamos fazendo o jogo que o Brasil e o mundo precisam fazer.

É o mesmo jogo que vocês dois, Gabeira e Sirkis, fizeram quando criaram o PV. E nós do PT dizíamos naquela época: “Eles estão fazendo o jogo da separação”. O pessoal da esquerda dizia que o Lula estava fazendo o jogo do Golbery. Mas, o Lula estava fazendo o jogo da democracia, o jogo de um partido popular com uma outra característica. Infelizmente, esse partido perdeu a sua capacidade de se conectar com as utopias do século 21.

Não estou fazendo o jogo de ninguém. Estou fazendo o jogo no presente que o futuro precisa, que a juventude precisa. Se não tivéssemos entrado no jogo, não teríamos contribuído para as metas em Copenhague. Se não tivéssemos entrado no jogo, não teria gente pousando diante de um parque eólico para se dizer ambientalista.

Graças a Deus, tivemos quem tenha visão antecipatória, Aspásia, para construir, no passado, Guilherme, as alternativas que podem ser transformadas em políticas públicas.

Estamos fazendo o jogo do Brasil. Assim, como vai fazer a nossa Seleção, se Deus quiser, quando trouxer o caneco para casa.

Vamos fazer o jogo de levar a sustentabilidade social, a sustentabilidade ambiental, a sustentabilidade cultural, política e ética para o Planalto Central.

Esse é o jogo que o Brasil precisa fazer. Esse jogo só pode ser feito de uma forma, só de uma forma. Não importa se for o Pelé, o Ronaldinho... O Ganso não foi convidado, mas ele é jovem, Mayara. Ela é santista, fica revoltada.

Este jogo pode ser feito com vários jogadores. Agora, tem uma coisa que não pode deixar de estar nesse jogo. E tem uma coisa que não pode estar nesse jogo. Esse jogo só pode ser feito de forma limpa, transparente. E não pode ser feito na base da rasteira.

Quero terminar, talvez, falando mais do que devia, mas, agradecendo a Deus, mais uma vez, por ter vocês nesta mesa, por ser capaz de reconhecer que temos conquistas boas, nesses 16 anos. Conquistas do Fernando Henrique, do Serra. E mais atrás, conquistas do Juscelino, que idealizou esse país. Mais atrás, mesmo com a crítica à ditadura, as conquistas de Getúlio, que trouxe as políticas trabalhistas para o Brasil.

Vamos pegar o que há de melhor! Agora, temos um novo desafio. O Brasil precisa se dispor a esse novo desafio.

Tenho mais idade do que quilos. Tenho 52 anos e 51 quilos. Mas, estou mais do que nunca cheia de força, coragem, fé e energia para andar o Brasil adentro e afora. Vamos unir o Brasil ponta a ponta.

Seja mais um pelo Brasil, e seremos milhões!

Seja mais um pelo planeta, e seremos bilhões!

Seja mais um pelo futuro, e teremos futuro garantido para a humanidade e para as outras formas de existência.

Um beijo no coração do Brasil e de todos vocês.


 
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01/04/2010 - 18:41
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Alfredo Sirkis - RJ