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Alfredo Sirkis - RJ
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Pesquisas e ansiedades
Ao analisarmos as pesquisas que tanta ansiedade provocam entre políticos e jornalistas é útil entender o que representam nesta fase e rememorar aquelas de um período análogo nas últimas eleições.

Alfredo Sirkis

Marina fala sobre as pesquisas [(http://www.youtube.com/watch?v=zY1tJhUmzD0)(VEJA AQUI)]

A imprensa faz um grande alarde da pesquisa IBOPE CNI que dá Dilma 5 pontos a frente de Serra e Marina “estacionada” com 9%. Se no ninho tucano ela provocou claramente algum nervosismo, sobretudo por contrariar as expectativas ao se dar na seqüência de vários programas de TV com Serra, entre nós foi recebida com serenidade olímpica e seus reflexos nas perguntas dos repórteres com boa dose de ironia.

Como disse Marina, ontem, em BH, na Convenção estadual de Minas Gerais que lançou o deputado José Fernando Aparecido para governador, em outubro de 2009 ela estava “estacionada” em 3%, depois estacionou em 7% e agora está “estacionada” em 9%. Isso no parking do IBOPE, porque no do Datafolha está com 12%. Temos acesso a pesquisas que lhe atribuem 13%. Recentemente vi uma, na cidade do Rio de Janeiro, que lhe dá 23%. Há pesquisas que dão Dilma e Serra empatados no mesmo percentual e, na semana, passada, depois das convenções, havia uma que dava o candidato tucano à frente, embora esta semana a candidata de Lula tenha novamente encostado, o que ao final confirma pelo menos a não eficácia das mais recentes exposições televisivas do candidato tucano.

Mas na realidade nada disso tem tanta importância assim. Estamos numa fase primitiva, paleolítica, da campanha presidencial de 2010. Parece absurdo dizer isso no interior do universozinho ultrapolitizado que respira esta campanha desde que Lula a antecipou, em janeiro de 2009. Mas esse segmento da sociedade brasileira do qual fazermos parte nós --eu, vocês leitores, os políticos e os jornalistas que cobrem política nos seus jornais, revista e sites-- representa uma ínfima parcela da população brasileira. Vivemos intensamente um processo que para a imensa maioria –possivelmente uns 95%-- é, neste momento, algo ainda muito distante.

Uma campanha eleitoral só “pega”, sou seja: entra numa fase de construção efetiva da intenção de voto, bem mais adiante e a cada eleição isso parece ocorrer um pouco mais tarde. Isso se dá quando a grande maioria desinteressada da sociedade começa a discutir eleições, candidatos, propostas e os formadores naturais de opinião passam a espontaneamente agir no bar, no ônibus, na mesa de jantar, influenciando o voto da imensa maioria dos cidadãos despolitizados, ou pelo menos, desengajados. O ápice desse processo se às vésperas e no próprio dia da eleição quando as parcelas mais alheias acabam formando sua decisão de voto.

Na fase em que nos encontramos as pesquisas refletem fundamentalmente o grau de conhecimento e de exposição na mídia. A rigor só se pode se definir como um pouco mais consistente a resposta à chamada intenção de voto espontânea e mesmo ela –como muitos trackings já confirmaram em eleições passadas, não representa garantia efetiva de voto.

Revisitando as pesquisas de 2008

Para ilustrar essa tese, compartilhada pela maioria dos analistas sérios, nada como recorrer a pesquisas de eleições passadas. Tenho em mãos uma pesquisa do Datafolha para a prefeitura do Rio de Janeiro do dia 3 de julho de 2008. Liderava-a Marcelo Crivella, com 26%, em segundo lugar vinha Jandira Feghali, com 17%. Em terceiro Solange Amaral, com 10%, em quarto Eduardo Paes, com 9 % e em quinto Gabeira, com 7%. Na pesquisa espontânea o quadro era diferente mas também distinto do que seria o resultado eleitoral em outubro. Tínhamos Crivella com 9%, Jandira com 4% e Gabeira, Paes e Solange com 2%. Os números do IBOPE eram parecidos.

Vejamos agora outra pesquisa, de 23 e 24 de agosto de 2008, com os programas eleitorais de TV já no ar, a uma semana e meia, cinco semanas antes das eleições. O instituto dessa é o GPP, que pessoalmente considero mais preciso em suas pesquisas na cidade do Rio de Janeiro. Nessa pesquisa de final de agosto do GPP tínhamos: Crivella, 20,7%, Paes 16,4%, Jandira, 14,4% e Gabeira 7,8%. Havia 10% de indecisos e 23,3 % de nulos.

O que aconteceu depois? No início de setembro Paes passou Crivella, assumindo a liderança mas Gabeira só alcançou o segundo lugar no dia da eleição. Vejamos o nosso tracking feito pelo GPP: Em 6 de setembro: Paes, 22,7%; Crivella 18,7%, Jandira 12,8% e Gabeira 12,2%. Foi, portanto, na terceira semana depois do início do programa de TV que Gabeira iniciou sua forte escalada. Dobraria as intenções de voto entre 24 de agosto e 6 de setembro. No dia 26 de setembro, a uma semana das eleições, no tracking sobre o mesmo universo de amostragem já indicaria: Paes 20%, Crivella 18%, Gabeira 15,4% e Jandira 14%. Uma semana mais tarde, nas eleições, Gabeira ultrapassaria Crivella na reta final e iria ao segundo turno.

Cada eleição é uma eleição e, naturalmente, são diferentes uma eleição nacional para a presidência da república e uma eleição para a prefeitura de uma grande cidade. Também pode se dizer que Gabeira contou com um tempo de TV bem maior do que Marina contará. Mas em relação ao significado das pesquisas no período que estamos agora não seria descabido pretender que o eleitorado está ainda mais distante do ponto de maturação do voto do que estava o --na média, muito mais politizado-- eleitorado carioca pesquisado em 3 de julho de 2008.

A pergunta que não quer calar:

A grande pergunta não respondida dessa eleição diz respeito à solidez e à capacidade de permanência do dedado presidencial, para utilizar um gíria política que os mexicanos ser referiam o processo quase dinástico pelo qual os presidentes do PRI ungiam eleitoralmente seus sucessores. O dedazo de Lula, de fato gerará, ao fim ao cabo, um dilmazo? Ou o olhar do(a) eleitor (a) se fixará mais detidamente na pessoa e na proposta de cada um dos três candidatos quando de fato o processo eleitoral começar a ser extensa e intensamente vivido?

Ninguém consegue responder ao certo a essa pergunta, agora e as pesquisas muito menos. Restam então as hipóteses de trabalho de cada um dos três candidatos. A de Dilma é que, de fato, o dedazo se faça dilmazo. A de Serra é que no mano a mano do segundo turno os eleitores optem pelo mais experiente e que tem mais cara de presidente. A de Marina é que um poderoso movimento de mulheres pobres, jovens e classe média politizada se explicite no momento em que a campanha realmente esquentar e que ocorra um movimento semelhante ao de Gabeira na campanha que analisamos acima, com uma atropelada de reta final sobre um dos dois favoritos atuais que eventualmente entre em parafuso. Embora, no momento, a primeira e segunda hipóteses racionalmente pareçam mais prováveis, descartar a terceira seria analiticamente tão temerário quanto ter imaginado, em julho de 2008, que o segundo turno no Rio seria entre Crivella e Jandira, porque essa era a indicação da pesquisa do dia 3 de julho de 2008.


 
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