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Alfredo Sirkis - RJ
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Clima: os riscos exponenciais
Trecho do Livro Ecologia Urbana e Poder Local

Alfredo Sirkis

Existe atualmente uma enorme quantidade de dados e estudos científicos sendo constantemente produzidos, no âmbito do IPCC (O Painel Intergovernamental para as Mundanças Climáticas da ONU) e também de outras instituições, e as suas constatações são sistematicamente revistas por novas pesquisas, ainda mais alarmantes que as anteriores, que tendem a confirmar os piores cenários. Atualmente, o IPCC constata que as emissões mundiais de gases de efeito estufa (GEE) ultrapassaram o cenário mais pessimista de 2000. O problema das geleiras do Ártico, dos Andes e do Himalaia, em particular, aparece hoje como muitíssimo mais grave que na época em que a primeira edição deste livro foi publicada, em 1999. Elas estão derretendo numa velocidade bem superior à prevista em estudos mais antigos.

O que preocupa em relação ao Polo Norte são previsões que dão conta da possibilidade de seu derretimento total durante o verão, já em 2025. Pior ainda, estima-se que esse derretimento irá liberar na atmosfera quantidades enormes de metano depositadas há milênios sob o gelo. O metano contribui 21 vezes mais para o efeito estufa que o CO2.

Em relação às geleiras do Himalaia, preocupa sobremaneira seu impacto sobre o abastecimento de água numa região com três bilhões de pessoas. A escassez de água fatalmente provoca migrações, conflitos e, eventualmente, guerras. Na região de mananciais abastecidos pelas geleiras do Himalaia, há três países hoje dotados de armas nucleares: China, Índia e Paquistão – e esse último é política e institucionalmente instável.

O relatório do Banco Mundial sobre mudanças climáticas de 2009 avalia que até dois bilhões de pessoas possam ser afetadas pela escassez de água resultante, e 400 milhões pela fome. A perda das geleiras dos Andes prejudicaria diretamente o abastecimento de água de 77 milhões de pessoas. A elevação dos mares decorre mais do seu próprio aquecimento que do derretimento do Ártico quanto maior a temperatura da água, mais ela se expande. Isso ameaça fazer desaparecer ilhas e áreas litorâneas.

O mais inquietante são análises científicas que indicam que poderemos ter nos oceanos um fenômeno análogo ao da liberação do metano armazenado no Ártico. São depósitos muito maiores ainda do gás que se encontram no fundo dos oceanos, em bolsões chamados clatherates, que ficam sob uma camada de sedimento. O aquecimento da temperatura no fundo do mar poderá liberar esse metano na atmosfera. Não existem ainda projeções precisas de prazos e quantidades, mas não é descabido temer que esse fenômeno, junto com o do metano do Ártico – cuja liberação parece inevitável –, possa eventualmente nos colocar diante de um quadro de realimentação do aquecimento global.

Além do aumento do nível dos oceanos, a sua acidificação afeta a vida marinha de variadas formas inclusive com a redução brusca dos fitoplânctons. O aspecto mais grave envolvendo essa acidificação é se saber até que ponto ela poderá comprometer a capacidade de absorção de CO2 pelos oceanos. Grosso modo, quase 45% do CO2 emitido por ano é absorvido pelos oceanos e pelas florestas, em partes aproxima- damente iguais. Em 2004, por exemplo, foram emitidos mundialmente 33 Gt (gigatoneladas: bilhões de toneladas) de CO2 – das quais 7,3 Gt foram absorvidas pelos oceanos, e outro tanto pelas florestas; ao passo que 18,3 Gt somaram-se ao acumulado na atmosfera. Há uma convicção entre os cientistas de que a acidificação dos oceanos irá reduzir progressivamente sua capacidade de absorção de CO2. Assim como na questão da liberação de metano pelo derretimento do Ártico e do fundo dos oceanos, não existem ainda projeções seguras de quanto e quando exatamente, mas o risco é claro: são mecanismos do tipo círculo vicioso, com risco de autoalimentação exponencial.

Há estudiosos como Fred Pearce, colaborador da revista New Scientist, que contestam a abordagem cumulativa e gradualista que serve de pano de fundo para os cenários do IPCC – mesmo os mais pessimistas –, definidos como “cenários do Tipo 1”. Pearce sugere a necessidade de se trabalhar também com “cenários de Tipo 2”, que levam em conta mudanças bruscas e radicais uma vez ultrapassado um tipping point, um ponto de mutação, uma espécie de gatilho natural que dispara mudanças que já não são mais quantitativas e previsíveis, mas bruscas e exponenciais. A partir do estudo de mudanças climáticas ocorridas em outras eras, ele teme que ao ultrapassar certo ponto – que ninguém hoje é capaz de determinar –, o acúmulo de GEE possa fazer eclodir uma dinâmica desse tipo.


 
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