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Alfredo Sirkis - RJ
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Relembrando minha campanha presidencial de 1998
Artigo da Folha serve de gancho para rememorar minha quixotesca campanha presidencial de 98.

Alfredo Sirkis

Encarando a midia

A Folha de São Paulo ontem fez uma matéria interessante comparando a campanha de Marina às campanhas presidenciais precedentes do PV, a do Gabeira, de 89, e a minha de 98. O foco do jornal era o suposto abandono atual de algumas bandeiras tradicionais do PV, sobretudo aquelas de natureza comportamental. A Vera Magalhães referiu-se à nossa “guinada careta”. Ao fazê-lo, ela interpretou mal uma frase minha na apresentação do programa de Marina à imprensa em SP, na terça-feira passada. Havia dito que "nem nos nossos sonhos mais delirantes” imaginávamos que ia eleger-me presidente contra FHC e Lula, em 98, o que constitui uma obviedade e a reportagem de Bernardo Melo Franco reproduz corretamente.

Ela associou a frase aos [(http://www2.sirkis.com.br/noticia.kmf?noticia=4629003&canal=274&total=79&indice=70)(pontos programáticos)] que defendi. Não é bem assim. Continuamos defendendo eco taxas sobre combustíveis fósseis e cigarros, mas não como tributação adicional mas, em substituição a outros tributos. Convém notar que a carga tributária atual é maior do que a dos anos 90. Acenar com qualquer elevação nova de impostos ou com tributos novos no Brasil de hoje seria uma insanidade. Por outro lado, nossa tributação é burra, complicada e direcionada para a insustentabilidade. Precisamos simplificá-la, torná-la mais transparente --como nos EUA, nos recibos, o que pagamos de imposto precisa ser explicitado-- e, sobretudo, direcioná-la para a sustentabilidade. É uma discussão demasiada complexa para esmiuçar nessa fase da campanha eleitoral. O importante é assinalar que 1) não vamos aumentar a carga tributária 2)queremos dar simplicidade, coerência e transparência à tributação 3) queremos direcioná-la para estimular produtos e serviços sustentáveis e uma economia verde.

Em relação à descriminalização da canabis, ela já existe na prática. Nos anos 90, ainda tínhamos a Lei 63 68/70 herdada da era ditatorial. Hoje, a discussão é mesmo a legalização de drogas, para por fim ao morticínio que envolve seu comércio ilegal. Mas, a situação não amadureceu ainda internacional e nacionalmente, para que isso seja transformado em tema de campanha e, em relação a esse ponto temos uma divergência com Marina, que está em sintonia com a opinião pública, que é em mais de 80% contrária a essa tese. Se queremos de fato que a campanha de Marina seja um "sonho factível", como coloquei, não é um tema para a ordem do dia, embora seja uma discussão que não abro mão de travar. Aliás, minha cota de sonhos delirantes foi zerada nos anos 70...

Em relação à política de defesa, também vale uma explicação. A de 89, está, de fato, claramente ultrapassada mas, a de 98 continua vigente. Tenho várias reflexões sobre o tema. Penso que foi uma lacuna nas diretrizes não explicitar nossa política em relação a Defesa Nacional e nosso rico diálogo atual com os militares, e penso que, também, ficamos a dever em matéria de segurança mas, há tempo para corrigir isso.


Essa matéria da Folha me fez rememorar aquela minha quixotesca campanha presidencial de 1998, pelo viés alegre. No posfácio à edição de bolso do meu best seller Os Carbonários (Premio Jabuti de 1981), que saiu ano passado, lembrei daquela aventura, que cabe bem no verso de Fernando Pessoa: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Porque, cá entre nós, aquela campanha presidencial foi uma lou-cu-ra... Vamos conferir?


(Em 1998) fui candidato à presidência da república pelo Partido Verde com a intenção de difundir pelo Brasil nossas idéias ecológicas. Foi uma campanha aventureira no estilo carbonário mas, pacífica como comandam os tempos. Seu teor de perigo foi incomparavelmente menor que minhas aventuras dos “anos de chumbo” narradas aqui, e em Roleta Chilena, ainda que não totalmente isenta de riscos que não apenas os do ridículo. Daquela campanha guardo três fortes recordações, duas de risco mas, a posteriori divertidas. Uma francamente hilária.

A primeira ocorreu em Guarapuava, interior do Paraná. Fui instando a visitar esta prosaica cidadezinha de forte imigração germânica, porque supostamente havia ali um candidato verde a deputado federal com excelentes chances de se eleger que potencializar-se-iam caso prestigiado fosse por mim, o nosso candidato presidencial. Chegando à terra de taciturna e desconfiada colonização germânica fui apresentado ao nosso homem em Guarapuava. “Sirkishhh! Merr’mão! Qualé???” bradou em inequívoco carioquês o candidato nascido e criado na Zonal Sul do Rio, assim que me avistou na outra calçada. Instantaneamente concluí com meus botões pela sua total inviabilidade eleitoral naquele deutche lander.

A campanha de 1998 no youtube:[(http://www.youtube.com/watch?v=Rm7xM2Sskdg) (VEJA AQUI)]


No aviãozinho
De bike no TSE











Na volta a Curitiba, num aviãozinho a coisa perdeu completamente a graça: mergulhamos em cheio numa tempestade. O bimotor quicava enlouquecido por entre nuvens cinzentas e raios faiscantes. A turbulência parecia não ter fim. Me consolava pensando que o piloto tinha cara de ser um sujeito experiente mas logo reparei na grossa gota de suor descendo de sua têmpora em direção ao pescoço não obstante o frio de rachar no aviãozinho. Rezei o shemá e mentalizei o mantra om nama shivaya. Muitos solavancos, coriscos e gotas de suor frio do piloto mais tarde abriu-se, de chofre, uma clareira abaixo de nós.

A trancos e barrancos conseguiu localizar o aeroporto de Curitiba e pousar. Na banca de jornal do mesmo comprei o Estadão para me distrair no táxi até o hotel. Me deparei com uma entrevista de página inteira de nossa candidata a vice falando mal de mim e renunciando...

O outro episódio francamente Armatta Brancaleone daquela campanha aconteceu em Recife. Os verdes locais me convocaram para uma barqueata ecológica da foz do rio Capibaribe ao final da praia da Boa Viagem. Seria um evento em conjunto com a campanha do candidato a governador que eles apoiavam, Jarbas Vasconcelos. Chegando lá tive a primeira decepção: dentre dezenas de faixas, “Jarbas” não havia nenhumazinha minha. Sequer uma “praguinha” ou um santinho “Sirkis” ou “PV” . O material não ficou pronto me explicava desolada a chefa dos verdes locais. Junto com minha mulher Ana Borelli subi em um dos barquinhos e iniciamos nossa subida pela foz do Capibaribe para o mar da Boa Viagem. Para fazer frente ao meu enjôo fácil tomei a medicação recomendada e estava quase feliz olhando as gaivotas e o que pareciam ser uns golfinhos quando o motor do barco enguiçou. Ficamos bestamente à deriva, os outros todos com suas faixas “Jarbas” se afastando, afastando.

Os palpites e pareceres técnicos abalizados se sucediam mas o motor de popa teimava no seu silêncio total. O tempo ia passando e o barquinho ia se afastando da praia. Eram quase 11 horas e eu tinha um compromisso a uma em Olinda. Um deputado amigo, da época do exílio, prometera uma contribuição para a nossa campanha de uma pobreza franciscana. Ainda não estávamos longe da praia e tomei a decisão: vou voltar a nado! Sem delongas mergulhei. Ana e uma verde local foram atrás de mim no botezinho de borracha. No trecho final dos trezentos e tantos metros ela também mergulhou. Nadamos uns quinze minutos.

Chegamos a praia e reparei que vários freqüentadores nos olhavam fixamente --estão me reconhecendo, nossa campanha está repercutindo, me animei. Depois percebi umas placas de sinalização proibindo o banho de mar por estar a Boa Viagem infestada de tubarões, que recentemente, haviam atacado um surfista. Imaginei uma manchete de jornal: Candidato a presidente devorado por tubarão! Voltei ao hotel, tomei banho e cheguei em Olinda a tempo de almoçar com o deputado que foi muito atencioso mas não aportou um tostão para uma campanha que acabou custando, toda ela, a módica quantia de R$ 36 mil...

O logo da campanha.
Foto oficial













O terceiro episódio, menos carbonário mas ainda mais hilário foi em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Cheguei pela manhã muito cedo e não encontrei no saguão do aeroporto sequer a meia dúzia de gatos pingados que de hábito me recepcionava nessas ocasiões. Um telefonema revelou que os verdes locais haviam confundido o horário e era melhor eu tomar um táxi até a sede do partido. Foi o que fiz. Durante a viagem reparei no taxista me estudando fixamente no retrovisor. Estava me reconhecendo! Nossos 15 segundos de TV estavam fazendo efeito!

Pensei puxar assunto. A desditosa decisão da Copa do Mundo de 1998, com aqueles dois terríveis gols de Ezzedine Zidane ainda doía fundo. Mas foi ele quem tomou a iniciativa: o senhor não vai ficar aborrecido se eu lhe disser uma coisa? Claro que não --respondi, preparado para defender alguma das teses polêmicas dos verdes que ele certamente estaria prestes a contestar-- nós do PV somos totalmente abertos às criticas e ao dialogo, meu amigo.

O senhor não podia ter feito aquela coisa com aquela moça, retrucou com severidade. Uma onda de adrenalina me sacudiu de imediato. Não havia lido ainda os jornais daquela manhã. A paranóia foi a mil, imaginei diversas situações constrangedoras envolvendo ex-namoradas, a imprensa marrom, colunistas maliciosos, a metralhadora giratória de Folha de São Paulo. Que coisa? Que moça??? É sim, o senhor não podia ter feito aquilo com aquela moça. O Brasil perdeu a copa do mundo por causa do senhor!

Fiquei completamente sem palavras até me dar conta que nosso bom taxista de Ribeirão Preto me confundia com o repórter Pedro Bial da TV Globo que, alegadamente, teria tido um caso com Suzana Werner então namorada de Ronaldinho Fenômeno --que ele me desmentiu, anos depois, quando o encontrei na praia-- o que, por sua vez, teria sido a causa do estranho transtorno que nosso então craque maior sofrera naquela infausta manhã e que teria resultado em sua performance pífia no gramado durante a histórica decisão que nos levara, tal qual em 1950, francos favoritos, a um humilhante vice-campeonato.

O senhor está me confundido como outra pessoa! Não sou o Pedro Bial da TV Globo! Sou o Alfredo Sirkis o candidato à presidência da república pelo Partido Verde!

Ah??? Aquele que disse que vai jogar a bomba atônica na careca do Enéas? Bem, pelo menos estavamos agora na mesma faixa de onda. Eu de fato fizera dias antes um spot de TV atacando a proposta do candidato do PRONA, o histriônico doutor Enéas, do Brasil dotar-se de armamento nuclear. Ataquei: “ A bomba atômica é o Viagra dos energúmenos” e expliquei os perigos de uma corrida armamentista com a Argentina, da qual “devemos ser rivais somente no futebol”.

Passei o resto da viagem explicando-lhe nossas propostas e ao chegar na sede do PV e pagar-lhe a corrida com uma módica gorjeta fui informado que conquistara pelo menos um voto em Ribeirão Preto. Já que o FHC já ia se reeleger de qualquer maneira, o Lula era um despreparado, o Ciro Gomes um destemperado e o Enéas queria jogar dinheiro fora com esse negócio de bomba atômica, --e uma vez esclarecida minha inocência quanto à Suzana Werner-- ele ia mais era votar no verde porque, pelo menos, não haveria chance alguma de vir a ser arrepender mais tarde.

Na chapada dos Guimarães











A suposta semelhança com o Pedro Bial continuou a me perseguir de vez em quando, sobretudo com motoristas de táxi. No Rio, muitos anos mais tarde, ouvi: admiro tanto seu trabalho! Dessa vez a sensação não foi de adrenalina e paranóia mas daquele quentinho gostoso no fundo do peito. A que será que ele está se referindo? Às ciclovias? Ao mutirão de reflorestamento? À revitalização da área portuária? Ao novo Centro de Convenções? Então terça-feira é o grande dia, não é? Que diabos vai acontecer na terça-feira me perguntei tentando acessar mentalmente minha agenda. Aí entendi. Terça-feira era o dia do “paredão” do Big Brother Brasil, o reality show da TV Globo ancorado pelo meu aparente alter ego (também de origem polaca numa versão mais boa pinta, reconheço).

Não acompanho reality shows, em geral, e nunca assisti mais de um minuto seguido de Big Brother Brasil. Mas para não deixar a peteca cair saciei sua curiosidade: aqui, só pra você, cá entre nós, uma informação de cocheira: quem vai ser eliminada vai ser a fulaninha de tal. Era a única da casa cujo nome me lembrava de tanto ouvir os comentários. Fulaninha??? Acabou não sendo. Se ele usou a informação para impressionar a mulher ou os colegas taxistas deve estar xingando o Pedro Bial até hoje...


 
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