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Alfredo Sirkis - RJ
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Polemica com alguns verdes europeus
A pedidos traduzi a polemica que mantive com alguns verdes europeus signatários do "apelo pro-Dilma".

Alfredo Sirkis

Falando para os verdes franceses em 2009
Falando para os verdes franceses em 2009

Alguns verdes europeus, numa articulação aparentemente iniciada por Alain Lipietz, dirigente da ala de origem comunista dos verdes, e um brasileiro que trabalha com eles Hamilton dos Santos, elaboraram, no segundo turno, um "apelo pró-Dilma" que acabou sendo, inadvertidamente, assinado por algumas pessoas sérias como Daniel Cohn-Bendit.

Foi um documento petista, maniqueísta e próprio de quem não conhece a situação brasileira e a considera pelas lentes do primarismo ideológico. Não houve a menor consulta nem troca com os verdes brasileiros que poderia ter resultado até numa legítima tomada de posição pró-Dilma deles sem no entanto entrar no festival de besteiras no qual o documento incorre.

Critique duramente o documento em francês e depois polemizei na mesma língua com alguns de seus signatários ou inspiradores e finalmente tive uma dura troca de emails, em português com o tal Hamilton.

Abaixo a tradução e reprodução da maioria dos emails trocados para informação restrita dos dirigentes e militantes do PV.


O “apelo”:

Um grupo de ativistas e dirigentes dos Verdes franceses divulgou o seguinte manifesto em apoio à candidatura de Dilma Rousseff (PT) à presidência da República:



No quadro das atuais circunstâncias do Brasil, a ancoragem na esquerda é a única possibilidade real de fazer avançar a causa ecológica

« É impossível acreditar que a esperança suscitada pelos dois mandatos presidenciais de Lula acabe terminando no segundo turno com a eleição do candidato da direita »




A candidatura de Marina Silva trouxe para o eleitorado de Dilma, a pupila de Lula, a grande surpresa do primeiro turno. É preciso saudar a novidade que representa a candidatura de Marina Silva que já lutava, desde o período de sete anos em que foi ministra do governo Lula, para fazer entrar verdadeiramente as questões ecológicas na pauta de preocupações do governo brasileiro de esquerda. Com sua presença no escrutínio, a diversidade de lutas sociais, de todas as minorias (sexuais, religiosas) encontrou uma voz.

O placar de 19% do total de votos para uma candidata independente, sem apoio de partidos poderosos, representa a segunda grande surpresa. Ele prova que o Brasil se transforma muito mais profundamente do que apenas no plano do crescimento econômico. Para a democracia e a cultura, este já é um passo considerável.



Na América Latina, da Colômbia ao Chile, e agora também no Brasil, para além dos diferentes contextos, as questões ecológicas entram definitivamente na pauta das eleições presidenciais, o que não é mais o caso na Europa. O Brasil é a sétima potência mundial. Nenhum europeu em sã consciência pode se desinteressar pelo que está em jogo para os destinos ecológicos e sociais do planeta.

Esta é a razão pela qual desejamos, através deste manifesto, expressar nossa inquietação. A batalha do segundo turno se anuncia bastante cerrada e, algo impensável até ontem, uma vitória da direita não está mais excluída.

Na configuração de hoje, o Partido Verde está longe de ter a dimensão popular de Marina Silva. Algumas personalidades como Gilberto Gil, ele mesmo afiliado a este partido, conclamam a que se vote em Dilma sem ambigüidade. E nós compartilhamos desta posição. Prestemos bastante atenção ao seguinte: José Serra não é um social democrata de centro. Por trás dele, a direita brasileira vem mobilizando tudo o que há de pior em nossas sociedades: preconceitos sexistas, machistas e homofóbicos, junto com interesses econômicos os mais escusos e míopes.

A direita sai do porão.

Contra as mulheres, as facções mais reacionárias das igrejas cristãs – incluindo aquela da mulher do candidato da direita que declarou publicamente que Dilma quer assassinar criancinhas – acusam a candidata de ser favorável ao aborto, mesmo que esta questão não faça parte de seu programa de governo, tampouco do programa do Partido dos Trabalhadores.

Contra os homossexuais: o vice de Serra sustenta um discurso abertamente sexista e homofóbico.

Contra os pobres: acusados de votar na esquerda por ignorância.

A esta panóplia, bem conhecida em toda parte, vem se juntar uma criminilização particularmente ignóbil por parte da direita das lutas de resistência contra a ditadura. Dilma tem sido alvo de campanhas anônimas na internet que acusam de terrorismo e de bandidagem por ter participado na luta contra o regime militar, ela que foi por este motivo presa e barbaramente torturada.




A mobilização da direita está completamente ligada aos interesses do agro-negócio, um vínculo sobre o qual o governo Lula tem sido ambíguo em alguns momentos. No entanto, uma vitória da direita representaria o triunfo do complexo agro-industrial e dos céticos em matéria de aquecimento global. Seria uma guinada à direita em direção à revisão do estatuto da floresta que começou a limitar a devastação na Amazônia e no Mato Grosso, e no asseguramento dos direitos indígenas sobre suas reservas, que no ano passado obtiveram uma importante vitória (Raposa Serra do Sol) referendada pela Corte Suprema do país, que reconheceu esses direitos. Vinte e duas reservas indígenas podem seguir este caminho de enfrentamento com o agro negócio da soja e do arroz transgênico.

Não permitamos que o voto libertário em Marina Silva paradoxalmente se transforme em uma catástrofe para as mulheres, para os direitos humanos e para os direitos da natureza!



No plano internacional, os aspectos mais inovadores da política Sul-Sul de Lula (certamente pelo fato de seu apoio a Ahamdinejad), seriam condenados ao ostracismo com um realinhamento com os Estados Unidos. Além de representar uma alternativa à fixação estéril em uma política de confronto entre Estados Unidos e China, esta política Sul-Sul se opõe às estratégias dos países do Norte de multiplicar as medidas de defesa dos direitos da propriedade intelectual em detrimento do acesso aos saberes, à internet (especialmente no âmbito da ACTA ).



Marina Silva recusou-se a manifestar apoio ao voto em Dilma. Pode-se compreender que seja um pouco difícil para ela se alinhar imediatamente com Dilma, com quem ela entrou em conflito enquanto no governo, e neste momento ela luta para evitar o alinhamento do partido verde com a direita, apesar da campanha virulenta contra ela por parte do PT.

Com efeito, os ecologistas estão travando, não só na Europa, como em vários países do mundo, um sério debate com os socialistas sobre a questão nuclear, sobre a OMC e o produtivismo agrícola e industrial, bem como o problema do aquecimento climático.

No Brasil, agrega-se a todas essas questões uma dimensão – amplificada por sua urgência crucial – da luta contra as desigualdades. Pode-se compreender, portanto, a reserva de alguns ambientalistas em se alinharem com a candidata da esquerda.

Mas nossa experiência como força política e de oposição e governo na Europa nos permite afirmar a nossos companheiros brasileiros que, nas atuais circunstâncias do Brasil, a ancoragem na esquerda é a única possibilidade real de fazer avançar a causa ecológica: já vimos no que se tornou a « Grenelle » – Ministério do Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável, Energia e Transportes – na França com a direita.

Quanto às mulheres, às minorias étnicas, religiosas, sexuais, elas sabem aonde têm que se bater. A xenofobia, o racismo, a mobilização reacionária da religião são os perigosos instrumentos que a direita populista utiliza alegremente na Europa.

É impossível acreditar que a esperança suscitada pelos dois mandatos presidenciais de Lula acabe terminando no segundo turno com a eleição do candidato da direita.



Dany Cohn Bendit (Alemanha) co-président du groupe parlementaire des
députés Verts au Parlement Européen
Monica Frassoni (Itália) co-présidente du Parti des Verts Européens
Philippe Lamberts (Bélgica) co-président du Parti des Verts Européens
Dominique Voynet (França) Senadora, Prefeita da Cidade de Montreuil , ex-
Ministra do Meio Ambiente (gov. Jospin)
Yves Cochet – ( França) Deputado Nacional, ex-MInistro do Meio Ambiente
(Gov. Jospin)
Noël Mamère (França) – Deputado Nacional e Prefeito de Bègles (Bordeaux)
José Bové (França) – Deputado europeu
Alain Lipietz (França) – dirigente dos Verdes, ex-deputado europeu
Jérôme Gleizes (França) – Dirigente da comissão internacional dos Verdes
Yann Moulier Boutang (França) Co-diretor da Revista Multitudes (Paris)

Paris 18 de outubro de 2010
--


Meu primeiro email “a quente” reagindo, endereçado à lista de discussão dos verdes europeus, originalmente escrito em francês:

Fiquei chocado com a estupidez desse texto elaborado sem a menor consulta aos verdes brasileiros. Tivemos um resultado respeitável –19% para presidente e 15 deputados federais—no primeiro turno. Depois de um intenso processo de consulta não somente no partido mas também no movimento Marina Silva a Convenção dos verdes decidiu por 88 votos a 4 não emitir uma diretriz de voto para nenhum dos dois candidatos remanescentes no segundo turno.

Nossos amigos europeus tem o direito, acém como os verdes brasileiros, de exprimir uma posição pessoal sobre nosso segundo turno. Seria preciso, no entanto, um mínimo de concertação conosco e de informação sobre modalidades e argumentos a serem colocados para não escrever bobagens ou, pior, mentiras. O texto de vocês faz de forma implícita insinuações críticas a Marina de um particular mau gosto.

O texto está cheio de incorreções e bobagens que atestam de um conhecimento muito superficial da política brasileira. O tom é superior, arrogante e sectário e parece ter sido redigido sob influência do PT e sem a menor visão crítica dos graves problemas no governo Lula em sua política em relação a questão ambiental, da probidade na gestão pública, seus erros e gafes em relação ao respeito às liberdades democrática e direitos humanos pelo mundo afora, em particular nos casos de Cuba e do Irã , um desprezo escandaloso pelos prisioneiros políticos em greve de fome e pelo movimento “verde” pela democracia.

Isso não impede vários de nós de eventualmente votar Dilma no segundo turno. Mas é possível também ser verde no Brasil e votar Serra, também, sem se expor à satanização sectária que emana do texto de vocês que não tem relação com a biografia desse adversário político respeitável. Sem querer entrar aqui em detalhes é preciso dizer que no Brasil a direita está presente em ambas as alianças da mesma forma que lobbies anti-ecológicos.

Não aceitamos uma arrogante descriminação do voto em uma ou outra direção baseada em informações falsas, num raciocínio sectário e simplificador de uma realidade complexa. Marina Silva claramente advertiu no primeiro e agora no segundo turno contra esse tipo de maniqueísmo mais do feitio da esquerda de raiz leninista do que dos verdes. Nos recusamos a votar em um(a) porque o (a) outro (a) é horrível.Não é o caso. Ambos candidatos são desenvolvimentistas e produtivistas empedernidos. Ambos fizeram um esforço de aproximação em relação à nossa Agenda no segundo turno, ambos ficaram claramente aquém do mínimo necessário em relação ao nuclear, o desmatamento e outros pontos. Ambos são pessoas com uma trajetória política e uma biografia respeitável que não se deve deformar com um discurso sectário e associações simplistas.

É preciso muita cautela na ingerência no quadro político de um país que se conhece mal. ‘E preciso também um mínimo de consulta com os verdes brasileiros para evitar bobagens como esse manifesto.

Perdoem-me a franqueza.

Saudações verdes.

Alfredo Sirkis



Depois recebi um email que o Sr Hamilton mandou para a lista meio assumindo a paternidade do texto, todo ofendidinho. Respondi ponto a ponto de sua argumentação ao longo da qual disse coisas inacreditáveis como poderão verificar:

Caros verdes europeus:

Recebi esse email de um brasileiro, o senhor Hamilton dos Santos, que se diz “militante verde” e parece ter redigido ou participado da redação do texto que critiquei.

Não sou capaz de identificá-lo com o um “militante verde” dos verdes brasileiros, isso tem cheiro de impostura e parece-me escandaloso que esse indivíduo possa tomar parte na elaboração de um texto com tamanho nível de responsabilidade assinado por importantes personalidades dentre os verdes europeus.

Torna-se necessário saber se continuam a ter sentido nossas relações formais com quem não nos respeita e mantêm esse tipo de ligação com “amigos” ou supostos “militantes verdes” sem vínculo formal e claramente a serviço do PT inclusive em sua atitude de desprezo e desinformação em relação ao PV que identifico no email abaixo que lhes reenvio com meus comentários.

Texto dele:


Saúdo os signatários do apelo. Defenderam com coragem a ancoragem à esquerda dos ecologistas. A resposta do Sirkis dos verdes do Rio (…) é uma mistura do ni/ni e uma reprodução ao pé da letra da campanha feita pela imprensa brasileira contra Lula, O PT e Dilma a favor do candidato da direita Serra. Digo o candidato da direita sem nenhum desprezo mas simplesmente por que é assim que qualificamos os defensores do liberalismo total. (…)

É preciso escutar o candidato da direita sobre as questões sociais, por exemplo, ele prevê no seu programa eleitoral retomar as privatizações dos serviços públicos iniciados por Collor mais o equilíbrio fiscal com o esvaziamento dos gastos sociais. (à imagem do que ele fez em SP) O Financial Times não se engana ao saudar sua candidatura.

Sirkis: O ex-presidente Collor de Mello apóia desde o primeiro turno a candidata do PT.

Não li o Financial Times mas o Economist não apenas saudou a candidatura de Dilma como deu matéria de capa para sua vitória no primeiro turno…


A questão não se resume ao caráter produtivista dos dois candidatos, como os signatários do manifesto a leitura que faço da situação brasileira (…) é que não é uma simples escolha entre um candidato mais verde que o outro. Se a direita chegar ao poder no Brasil será uma virada geopolítica, social e de postura ambiental.

Sirkis: Pare de delirar! A “direita” está presente em ambas as alianças! Na de Dilma também encontramos Collor, Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Jorge Picciani e dezenas de outros personagens que além de serem de direita estão ligados a toda espécie de episódios de corrupção e em alguns casos gangsterismo.

A campanha eleitoral é de uma violência sem precedentes. ‘E verdade que a candidatura de uma mulher de esquerda, presa pela ditadura, torturada, humilhada mas que soube refazer seu percurso político é difícil de engolir pelos aliados de Serra herdeiros do partido da ditadura hoje chamados DEMO antes ARENA. Certo, Dilma não provou até agora que é uma verde, mas é uma democrata e penso que escutará melhor as questões ambientais depois do sucesso de Marina. ‘E preciso dizer que no primeiro turno Serra levou vantagem nas regiões dominadas das pelo agrobuissness.

Sirkis: ambos tem uma história de esquerda e de resistência à ditadura. O tom das campanhas de ambos blocos é estúpido e malvado no primeiro turno e ainda mais no segundo. Uma das virtudes de Marina é ter ficado for a desse jogo baixo. Sempre.

Os amigos de Serra na web tiraram as luvas: Lula aparece em montagens de vídeo como novo Hitler, com a esquerda no poder o Brasil viraria uma ditadura. Nas campanhas de 2002 e 2006 a direita também usou esse argumento. Ora, na classificação internancional sobre a liberdade de imprensa recentemente publicada apos 8 anos de Lula o Brasil está melhor que a França.

Sirkis: Campanhas sujas na internet são feitas por ambos os blocos e a campanha de Dilma atacou com insistência Marina no primeiro turno. Juntei uma coleção dessas peças na internet. O PT faz contra o PSDB e vice versa. São todos horríveis.

Sim, há pressões do governo contra a liberdade de imprensa que ainda não atingiram um nível grave. Do lado do Serra também. Houve a inaceitável demissão de uma jornalista do Estado de São Paulo.


A democracia no Brasil está em processo de construção que passa pelo acesso à educação, à saúde, por uma redistribuição de renda e pelo equilíbrio ambiental e sustentabilidade.

Certo, houve no primeiro turno a boa surpresa do voto dado a Marina mas Sirkis quando se felicita da eleição de 15 deputados federais verdes precisaria ser mais preciso. ‘E bom mas se os verdes tivessem tido nas eleições parlamentares o que Marina teve seriam mais de 30. Assim, Gabeira, candidato ao governo do Rio com apoio de Serra teve um resultado medíocre.

Sirkis: eis um cara bem informado…uma boa fonte para os verdes europeus.

Sinto lhe informar que Fernando Gabeira teve 20.68% com 1 632 671 votos para o governo do Rio.
Podemos considerar como o Sr Hamilton 20% um resultado “medíocre” (parece tão contente em dize-lo!) Quantos partidos verdes europeus ultrapassaram essa marca???



Lembro que o voto para o legislativo é proporcional integral e para os postos executivos em dois turnos.

Marina se beneficiou, segundo analistas brasileiros, dos resultados de uma campanha contra a legalização do aborto. Ela é membro de uma das maiores igrejas evangélicas do Brasil. Mas teve a coragem e a inteligência de não aceitar trocar os votos que lhe foram dados por alguns cargos ministeriais para os verdes como propunha Serra e certos dirigentes verdes brasileiros.

Sirkis: eis duas calúnias que aprece revelar suas verdadeiras intenções: é simplesmente uma canalhice pretender que Marina “se beneficiou dos resultados de uma campanha contra a legalização do aborto”.

Nunca houve negociação sobre “cargos ministeriais” nossa negociação com ambos candidatos, todo o tempo foi programática em torno da Agenda Verde. Fui pessoalmente responsável pela negociação com seus representantes e posso garanti-lo como participante direto dos fatos.

Nenhum dirigente verde propôs o que o senhor Hamilton pretende. Ele reproduz uma noticia falsa divulgada pelo Folha de São Paulo e diretamente desmentida por Marina.


Não desejo ver o Brasil retroceder como a França de hoje com um poder que se dedica a combater todo um país no plano social e ambiental. E saiba, senhor Sirkis, que contrariamente ao que o senhor insinua não sou militante do PT, sou militante Verde e voto Dilma.

Hamilton dos Santos

Sirkis: como fundador do PV e integrante de sua direção nacional desde então não o conheço. Você não tem responsabilidade alguma no seio dos verdes menos ainda para fazer contados internacionais. Quis são sua intenções?

Conheço os métodos do PT, sua capacidade de infiltração e de desinformação.(…)

Seu papel nesse episódio é claramente de um provocador.

Isso nada tem a ver com um voto Dilma no segundo turno que é perfeitamente admissível. Pode se fazer isso sem mentiras nem tentativas de prejudicar os verdes brasileiros.

O problema são as desinformações irresponsáveis que você repassa e mentiras que escreve inclusive nesse email.

Considero estranho que os verdes europeus se deixem influenciar a este nível por alguém que não tem nenhum vinculo formal ou mesmo político com os verdes brasileiros.

Não é bom augúrio para nossas relações.


Ele respondeu, já em português:

Bom dia Sr. Sirkis,

Eu primeiramente quero lhe esclarecer que sou membro inscrito dos Verdes franceses depois de muito tempo. Entanto que militante ecologista, jamais assisti uma tal violência verbal tão grande, sobretudo quando se contribui para restabelecer a verdade. Eu não me identifico como estando ao serviço de ninguém, mais da minha consciência. A sua resposta me faz lembrar a violência e a cegueira de um certo candidato nos seus propósitos difamatórios de todos os dias, transmitido e retransmitido pelas mídia favorável a ele. Espero poder receber umas palavras de desculpa pelo seu comportamento, fruto talvez de um momento passageiro de raiva. O debate político, eu entendo assim, se disputa com argumentos e não com ameaças e violência.

Cordialmente,

Hamilton dos Santos



E teve a minha tréplica:

Então tenha a humildade de se informar convenientemente dos fatos e não contribua para deforma-los conforme fez.

Insinuar por exemplo que o resultado de Marina Silva decorre de uma reação contra o aborto é de uma tamanha irresponsabilidade que não posso descreve-la de outra forma do que fiz. Pretender que 20% dos votos no Rio contra a máquina de Sergio Cabral é um "resultado medíocre" é de fato curioso mas também revelador da animosidade que nos devota.

Aqui tivemos um processo histórico extraordinário que você não se deu ao trabalho de acompanhar minimamente. Foram 20 milhões de votos apesar de tudo e de todos e você fica aí torcendo o narizinho, procurando defeito, tentando nos enquadrar nesse seu quadro ideológico anacrônico, simplista e intelectualmente comodista que atende aos interesses fisiológicos de alguns verdes daí bem relacionados com o nosso governo.

Durante o primeiro turno com Marina não tivemos uma sombra do esforço de "solidariedade" de nenhum de vocês que agora se mobilizam denodadamente à serviço da Dilma. Se você de fato não está trabalhando para o PT, me perdoe, mas, sinceramente, parece.

Saiba que você prestou um mau serviço até a uma posição de apoio à Dilma no segundo turno. Em vez daquele documento primário, cheio de idiotices e inverdades, se tivessem minimamente acompanhado o nosso processo de discussão programática com os dois candidatos ao segundo turno, poderiam até argumentar, corretamente, que nas negociações em torno da Agenda Verde o PT foi mais longe.

Seria o suficiente como cabe a uma tomada de posição em relação a um outro país cujas nuances não se domina. Não precisaria ficar repetindo esse discurso infantilizante totalmente alheio do Brasil real, sectário e paranóico dos petistas. Nem eles acreditam nisso, rapaz, apenas usam como campanha. Os tucanos não são melhores. A diferença é que vão perder, são uma força em declínio. É com o PT que vamos ter que lidar nos próximos anos.

Sua contribuição nesse processo foi das mais lamentáveis.Deveria se envergonhar dela. E não se faça de vítima, rapaz! Não entendi o da "ameaça" e da "violência". Não tenho a menor intenção ir até ai para bater em você, se é isso que teme...

Apenas vou continuar dizendo que prestou um péssimo serviço à relação entre os verdes franceses, aos quais é filiado, e ao PV brasileiro.

Sinceramente,

Sirkis

PS: Alias, para sua informação, o governo Lula acaba de decidir implantar a BR 319. Tem alguma idéia do significado disso para a Amazônia???



Depois recebi um email do seu mentor Alain Lipietz comentando meu primeiro email:

Nenhuma estupidez Sirkis não estamos de acordo com tua política de aliança com o Serra(…) Quanto aos verdes brasileiros estão longe de estar todos de acordo contigo. (Chico…) [parece se referir ao Chico Buarque que supõe ser verde!!!] Veremos par aonde irão os votos de Marina. Saibam que o movimento verde internacional não compartilha necessariamente de suas idéias de alianças com a direita brasileira.
Cordialmente.

Respondi:

Alain:

Para encerrar essa discussão que está virando surrealista e desagradável. Sua arrogância me impressiona, Você é tão dogmático que ficar repetindo como um papagaio falsas informações. Ainda que possa ter “atravessado o Atlântico” o fato que minha posição é diferente da assumida pelo Fernando ainda que sejamos bons amigos. Ele apoia o Serra eu não.

Na tua atitude de má fé você parece que não compreendeu qual o problema. Se tivesse havido um mínimo de consulta eu poderia até te dar um argumento mais consistente para apoiar a Dilma. Por exemplo: que o PT aceitou mais pontos da nossa Agenda que o PSDB. O problema, que você parece não entender, foi esse texto ridículo num paradigma petista/stalinista com doses massivas de desinformação e má vontade inclusive em relação a Marina. Parece até que houve uma frustração com o nosso resultado.

Você tergiversa em relação ao Danny que certamente não leu com atenção esse documento que não corresponde a sua maneira de raciocinar. Ele foi pessoalmente convidado por mim para dar uma conferência não vinculada a campanha em Porto Alegre e, depois, participar de duas conferencia de imprensa com Marina e Gabeira em Porto Alegre e Rio. ‘E diferente de uma tomada de posição formal e coletiva de apoio dos verdes como essa que fazem para a candidata do PT ao segundo turno. Como coletivo político os veres europeus estiveram ausentes quando se tratava de apoiar a candidata do PV mas se mobilizaram rápido para apoiar a do PT no segundo turno, em informação, sem conhecer nada do nosso debate interno. O lobby do PT trabalhou direito, isso abre oportunidades, dá prestigio, sei como é…
Os 88 votos foram um reflexo direto de um sentimento claro dos eleitores segundo o qual Marina e os verdes não deveriam escolher entre um ou outro candidato ao segundo turno. Em todas as pesquisas e consultas foi de longe a posição majoritária dos eleitores.

Há algo esquisito nessa história. Conheço de longa data a atitude arrogante e a incorrigível compulsão de certos intelectuais da esquerda francesa de saber tudo e de dar lições na América Latina e noutras partes sobre qual a “linha política” e como devemos “fazer a revolução” cujo exemplo mais famoso foi a trágica aventura do Regis Debray na Bolívia e suas teses do foquismo.

Hoje os assuntos são diferentes e fica mais fácil se colocar ao serviço de determinados governos supostamente de esquerda.

Se bem que você conhece o Brasil ouso pensar que não o suficiente para ter uma visão precisa da conjuntura e das sutilezas táticas e estratégicas de uma campanha eleitoral. Um pouco de humildade lhe faria bem.

Quando a discussão começa a gravitar em torno de Waeschter e da pena de morte dos verdes mexicanos para justificar esse “direito à ingerência” é tempo de terminar.



Depois disso chegou um pedido formal de desculpas do representante do Partido Verde Europeu (ex-federação européia dos verdes) lamentando a falta de consulta.


 
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