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Alfredo Sirkis - RJ
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Prefácio de O Efeito Marina
Relembrando uma campanha extraordinária e refletindo sobre a vida e a política

Alfedo Sirkis

A ideia de reunir esses escritos variados sobre e durante a campanha de Marina Silva à Presidência em um livro a ser publicado de bate-pronto me ocorreu logo após o primeiro turno das eleições de outubro de 2010. Das muitas campanhas das quais participei ou vivi intensamente, foi certamente a mais extraordinária. Não apenas pelo resultado: 20 milhões de votos, quase 20% do eleitorado, cem vezes mais do que a última campanha presidencial realizada pelo Partido Verde, a minha, em 1998. Foi uma das experiências mais ricas que já presenciei em 43 anos de vida política e, sem dúvida, das mais emocionantes. (...) Gilberto Gil, que é possivelmente o amigo com quem mais compartilho dessas minhas perplexidades, definiu a coisa muito claramente na nossa pré-convenção, em junho de 2010, no Rio Sampa, em Nova Iguaçu, quando clamou: voto em Marina porque meu coração mandou! (...)

Marina, (...) representou uma mudança de jogo ou, se preferirem, de paradigma, para usar a palavra da moda. Pela primeira vez em quatro décadas do fazer político, experimentei o trilhar sistemático de um caminho do coração, tanto na sua relação com uma vasta e diversificada equipe que trabalhou na campanha quanto na sua relação com milhões de eleitores. Num país de céticos, que despreza a política e os políticos – o que não impede a popularidade dos que aportam aos eleitores progressos materiais palpáveis, como no caso de Lula –, Marina, sem oferecer ou ter aportado ainda qualquer fração desse ganho material palpável, conseguiu criar com milhões de pessoas – mulheres, homens, jovens, idosos, pobres, classe média, ricos, de instrução mínima ou superior – uma relação de grande afeto. Antes de entrar em qualquer diferenciação de natureza política, programática, midiática ou alguma outra do nosso universo racional, o fenômeno Marina, como Gil sacou, de primeira, foi um acontecimento do coração.

Embora tenha cruzado com ela algumas vezes em variados eventos ambientalistas, conheci, de fato, a senadora Marina Silva, em dezembro de 2007, em Bali, na Conferência do Clima da qual participei na dupla condição de membro da (vasta) delegação brasileira e enviado especial do JB. Depois nos encontramos algumas vezes no Ministério do Meio Ambiente. Um laço de coração já nos unia fortemente: a devoção por Chico Mendes, que fora seu mentor e meu amigo e companheiro dos primórdios de nossas campanhas em defesa da Amazônia, nos anos 1980. Minha relação com Chico também passava pelo coração. Conheci-o em minha viagem a Xapuri, em 1987. Ficamos amigos e passei a organizar uma rede de apoio à sua luta no Rio. Em novembro de 1988, realizamos o Salve a Amazônia. No mês seguinte, às vésperas do natal, Chico Mendes foi assassinado. No vídeo que fizemos do evento, há um diálogo nosso dentro do meu carro, um velho Opala verde-oliva, que depois ficou como a crônica da morte anunciada. Discutíamos sua precária condição de segurança, os guarda-costas estranhos que um major da PM do Acre escalara para protegê-lo, a notícia inquietante de que o fazendeiro Darli Alves, que o ameaçava de morte, movia-se com desembaraço nas vizinhanças de Xapuri, “esperando a hora”...

Confesso que recebi com certo ceticismo a informação que ouvi pela primeira vez de meu amigo Sérgio Xavier de que “havia chance” de Marina Silva vir para o Partido Verde. Ela deixara no ano anterior o Ministério do Meio Ambiente (“Posso perder a cabeça, mas não o juízo”) e havia uma campanha na internet iniciada por um jovem de Brasília, o Eduardo Rombauer, lançando-a para presidente da república. O professor José Eli da Veiga e o próprio Sérgio vinham replicando isso em suas redes pela internet. (...)

Comecei de fato a levar a mais a sério essa possibilidade quando o deputado Zequinha Sarney – um político realista e experiente – me confidenciou que tinha conversado com ela rapidamente e sentira que ali havia de fato uma possibilidade. Parei de repetir que achava aquilo “o sonho de uma noite de verão” e decidi explorar o improvável. Tivemos uma primeira reunião num apartamento em Brasília e uma conversa franca, na qual de um modo que para alguns pareceu “sincericida”, disse-lhe tudo que achava do PV, fiz uma radiografia realista, sem enfeites, de como estávamos, do que achávamos e do que poderia dar essa liga. Havia uma notável coincidência em relação ao que pensávamos do Brasil, da política, do que cabia fazer dali para frente.

Nesse ponto, exatamente, começa a narrativa fragmentada deste livro, que consiste basicamente de meus textos e anotações entre julho de 2009 e outubro de 2010. A maior parte deles foi postada nos meus blogs nesse período. Há algumas entrevistas, anotações inéditas que fiz. Enxertei entre colchetes, num corpo menor, algumas observações atuais da visão pós-campanha, para que ficassem bem caracterizadas como tal. Não é um diário de campanha, pois não cobre todos os dias, é mais um caderno de notas. Penso que em algum momento escreverei um livro mais completo sobre essas jornadas tão marcantes, quando o tempo me permitir decantá-las apropriadamente e com distanciamento. Meu propósito aqui é fazer um relato “a quente”, de bate-pronto. Não será por certo uma história completa dessa campanha que faça justiça a todos protagonistas e descreva todos os episódios, e, nem sequer, todos os mais importantes. Em linguagem de câmara, eu diria que é apenas meu “ponto de vista”, um caleidoscópio de momentos que vivi e anotei. É o registrado em uma das muitas câmaras.

Costumo dizer que se faz história duas vezes. No turbilhão efêmero e fugaz dos acontecimentos que vivemos e/ou protagonizamos. E, depois, quando eles se transformam em história escrita, passando pelos filtros da subjetividade, mesmo a dos pesquisadores mais rigorosos e isentos. Ao colar os textos dos meus blogs e anotações, tais quais, procuro não me distanciar em demasia da primeira sem ter ainda a profundidade de campo da segunda. Nessa campanha, participei dos principais momentos decisivos e influenciei mais o discurso e a estratégia do que a organização ou a agenda e o dia a dia, pelo menos aquela posterior ao final de junho. Assisti a maior parte das grandes cenas, reuniões decisivas, debates, atos públicos e decisões que possivelmente serão lembrados na história.

Guardo com carinho todo particular algumas delas, como aquela primeira reunião, em Brasília; o ato de filiação de Marina, em São Paulo, no Rosa Rosarum; a elaboração dos dois primeiros programas no tempo anual de TV dos verdes, dirigidos por Marcelo Maia, e que coincidiram com um período em que Marina saiu da casa dos 3% e chegou na dos 10%; aquela memorável pré-convenção, no Rio Sampa, em Nova Iguaçu, na presença de Gilberto Gil, Adriana Calcanhoto, Thiago de Mello, Paulinho da Mocidade, com uma eletricidade fantástica no ar, que prenunciava nossa explosão nas periferias. A véspera da eleição em jipão aberto, com Marina pelas ruas de Madureira vendo o povo nas calçadas aderindo em massa e cantando a marchinha de Adriana: “Gente, gente, gente, Marina presidente!” A reunião, às vésperas de nossa convenção, que decidiu a posição de “independência” no segundo turno. O traço comum de todos esses lances foi a emoção, o pulsar do coração.

Desde o início, no que pese minha tendência ao gramsciano pessimismo da mente referido acima, nunca tive a menor dúvida que a campanha presidencial de Marina Silva iria ter um resultado muito expressivo, tanto em termos de despertar de importantes segmentos da sociedade brasileira quanto da performance eleitoral propriamente dita. No dia de sua filiação, concluí meu discurso dizendo: “Iremos muito mais longe do que eles imaginam, muito mais longe que nós mesmos imaginamos”. De fato, fomos.

Essa coletânea de anotações “a quente” certamente não contempla todas as pessoas que tiveram um destacado papel na campanha nem todas as ações e meios que contribuíram para seu sucesso. Também não sei se todas as críticas que fiz nos blogs foram justas. Aconteceram no calor da contenda, e peço tanto a adversários quanto a amigos eventualmente atingidos que não levem a mal. Não quis, a posteriori, cortar ou reescrever o que foi redigido em clima de campanha. Procuro ser sempre o mais elegante possível no embate político, mas numa campanha presidencial não há como deixar de ser enfático e por vezes mordaz nas críticas referentes às ações públicas e às responsabilidades de governo ou políticas. Nesse sentido, o presidente que nos deixa e a presidente eleita recebem variadas estocadas, que penso que jamais extrapolaram a contenda eleitoral civilizada.(...)

Tenho lido análises (...) que atribuem o crescimento de Marina, na reta final, e o próprio segundo turno, a uma implacável campanha da direita religiosa contra Dilma a volta do tema do aborto. (...) Mas quem acha que o voto das mulheres pobres cristãs se voltou para Marina por causa de uma campanha antiaborto de twiteiros ou youtubeiros de Serra – que na verdade só se explicitaria no segundo turno, levando Dilma a abjurar suas posições históricas sobre o tema – não faz a menor ideia do que é, de fato, a relação dessas pessoas com Marina: pura e simplesmente uma relação de amor. Não votaram Marina porque desgostaram de Dilma. Votaram em Marina porque se identificaram profundamente com ela e a amaram. Tão simples quanto isso e muito fácil de conferir: era só ter andado com ela por áreas pobres nos últimos dois meses de campanha, quando os institutos a consideravam “estagnada” nos famosos 9%, e nós víamos nas ruas e nos bairros pobres aquela onda se levantando.

Uma onda que se levantou também – e, do mesmo modo, em grande parte movida pelo coração – na classe média e na juventude, com uma influência inquestionável do site www.minhamarina.com, do Twitter, das redes sociais, em um trabalho incansável desenvolvido pelo Caio Túlio, pelo Juliano Spyer e equipes. Elas jamais, em momento algum, recorreram às campanhas sujas que infelizmente marcaram a ação na internet, tanto petista quanto tucana. Foi uma campanha que à imagem e semelhança da candidata sempre manteve a coerência entre meios e fins. Uma das frases marcantes de Marina foi aquela do “ganhar perdendo e perder ganhando” – ela soube, de fato, perder ganhando.

Uma das cenas mais emotivas de toda a campanha se deu na nossa última reunião antes da convenção para o segundo turno. Presentes estavam Marina, Guilherme Leal, Basileu Margarido, José Luiz Penna, Maurício Bruzadim, João Paulo Capobianco, Carlos Vicente, Marco Mroz e eu. Estava-se construindo o consenso em torno da posição de “independência” no segundo turno. Houve uma pressão de última hora, de grande carga emocional, por parte de Leonardo Boff para levá-la a apoiar Dilma, com argumentos maniqueístas e um recado, de última hora, de Lula, comprometendo-se a, nesse caso, assimilar a totalidade dos pontos da nossa Agenda Verde. Guilherme fez uma intervenção muito lúcida e inspirada, reafirmando a posição que vínhamos construindo com olhos no futuro. Manifestei meu apoio e outros fizeram o mesmo. Havia consenso.

Marina deu a palavra final, mas curiosamente saiu do terreno político para um relato pessoal, a fim de explicar algo que estava em princípio fora da pauta daquela reunião. O do porquê teria ido mal naquele primeiro debate da Bandeirantes. (Na verdade, não foi mal, mas isso não vem ao caso). Ela nos contou, em lágrimas, que ao chegar no palco da Band e olhar para Dilma e Serra, viu neles não os adversários com os quais deveria se digladiar, mas dois seres humanos. Dilma, com a qual, apesar das versões em contrário, tivera uma relação próxima e bons momentos. Dilma, que fazia aquele esforço sobrehumano para vencer suas limitações de comunicação e empatia, e que lutou com tanto heroísmo e determinação contra a doença grave que tivera. Que ia pouco a pouco vencendo os obstáculos e sobrevivendo às críticas, os ataques dos muitos que a ela se opunham tão exacerbadamente. Que olhou também para Serra, “com aquelas olheiras profundas”, e viu nele o homem que há tantos anos lutava e trabalhava para melhorar as coisas, para melhorar o Brasil, e que tinha conseguido realizar tantas coisas meritórias em sua trajetória de resistente, político e gestor público.

“Senti por eles um grande amor. Não me senti à vontade para atacá-los, criticá-los, como esperam de nós num debate de TV numa campanha presidencial”, ela concluiu, em lágrimas. Lágrimas contagiosas. Poucos naquela platéia masculina não derramaram a sua. A emoção ficou no ar bastante tempo. Fiquei pensando naquela hora que Marina era a única política cristã, entre tantos que eu conhecera, que de fato conseguia ser cristã no fazer política. Parece fora de propósito mas aquela história tinha um significado para aquele segundo turno. Em geral, o voto de segundo turno daqueles cujo candidato ficou pelo primeiro é “contra”. Os serristas frenéticos tentavam nos convencer que tínhamos que apoiá-los “contra o PT e Dilma que ameaçavam a democracia”. Os petistas, como no e-mail de Boff, de que tínhamos que votar em Dilma “contra a direita”, “contra Serra”, que representava “os ricos contra os pobres”. Mas Marina amou ambos e se recusou a votar contra um ou outra, já que nenhum deles nos deu argumentos suficientes para votar a favor.

Já ouço as ironias com que esta história periga ser recebida. Ela parece piegas, fica completamente de fora do registro da política clássica, com sua cadência marcial e a noção que é preciso golpear impiedosamente e demolir o adversário. Foi o que tentou fazer naquele mesmo debate da Band, com algum sucesso de crítica, o Plínio de Arruda Sampaio, com aquela paciência e ironia que Lenin atribuía aos velhos bolcheviques.

Há lugar para o tipo de política subjacente a esse sentimento de Marina, que gosta de se definir como “mantenedora de utopias”? Não será o que os franceses chamam de “l’angelisme” (angelismo), naquela citação de Weber, o bom que, em política, pode eventualmente produzir o mal? Não será “mais político” o caminho de Collor, quando derrotou Lula, e agora o do Lula, quando derrotou Serra, pela segunda vez? O que não dá trégua, o que se permite ironizar o rolo de adesivos que este levou na cabeça, em Campo Grande, no Rio, confundindo-o com a inofensiva bolinha de papel jogada minutos antes, permitindo-se, assim, injustamente, acusá-lo de farsante, tal qual o Rojas, goleiro do Chile, que se automutilara naquela eliminatória. “É da política”, dirão.

Pois essa política é justamente aquela que está afastando mais e mais as pessoas, sobretudos os jovens, do processo de participação democrático. É ela que envenena ou desvia a pulsão idealista de lutar para melhorar as coisas, e a transforma em uma guerra para abater adversários e ter mais poder. Que logo se transforma em poder pelo poder (e pelo dinheiro). O que levou 20 milhões de pessoas a optarem por um personagem tão improvável na Presidência da República quanto Marina Silva não foi apenas sua mensagem, vinculada ao futuro do planeta, à ecologia, à sustentabilidade, à revolução na educação. Foi também um difusa, imprecisa, mas límpida, sensação de que o fazer política deveria ser diferente. E que, afinal, não é apenas a capacidade de consumir mais, comprar melhor a crédito, possuir mais bens, ostentar status, o que conta na vida. Que em algum lugar nisso tudo cabem outros valores, outros sentimentos, outros propósitos. Que em algum lugar cabe o caminho do coração. A força disso é gigantesca, e seu futuro não deve ser subestimado. Sua fragilidade também é patente, no entanto. Seu futuro, totalmente em aberto. Uma coisa é certa: vale a pena continuar prestando a atenção em Marina Silva.


 
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