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Alfredo Sirkis - RJ
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Negacionismo climático: o desmoronamento.
Meu artigo sobre o "negacionismo climático" publicado em O Globo e as últimas noticias sobre o desmoronamento galopante dessa tese nos EUA, seu grande bastião

Alfredo Sirkis

Contestando o negacionismo

O “negacionismo”, uma contestação via sofismas de fato claramente estabelecido, sempre cativa uma certa audiência. Caso extremo foi o do holocausto nazista. Nos anos 60 e 70, tivemos os médicos financiados pela indústria do tabaco alegando não haver “relação científica sólida” entre o cigarro e o câncer. Mais recentemente quem negasse o vírus HIV como causador de AIDS. Temos agora negacionistas climáticos para os quais o aquecimento global não existe ou existe mas é provocado por ciclos naturais inevitáveis, sem aporte significativo dos gases de efeito estufa(GEE) ou, ainda, existe, decorre dos GEE, mas simplesmente não há mais nada a fazer a respeito. Nos EUA há uma clara relação deles com a indústria do petróleo e do carvão. Têm grande audiência dentre os republicanos e no Tea Party como portadores de “boas notícias”. Combinam bem com uma tendência do jornalismo contemporâneo de renunciar à apuração rigorosa dos fatos por parte do repórter ou comentarista, bem informado, em proveito de uma “boa polêmica” com tratamento “equilibrado” entre ciência e charlatanismo.

Fica escamoteado que há uma ciência sólida e perfeitamente estabelecida, desde o século XIX, com Joseph Fourier, John Tyndall, o prêmio Nobel de 1896, Svante Arrhenius, e desenvolvida por Charles Keeling, nos anos 50, sobre a relação do CO2 com o aquecimento do planeta. Não há cientista de primeira linha ou publicação científica séria que dê guarida ao negacionismo climático. Isso não significa que nas pesquisas envolvendo mais de dez mil cientistas do IPCC e centenas de instituições científicas e acadêmicas prestigiosas, não existam dúvidas e incertezas. Mas elas não dizem respeito à existência do aquecimento global como resultado de uma ação humana que concentra em menos de dois séculos mudanças que o ciclo natural produziria em centenas de milhares ou milhões de anos. Envolvem sobretudo os chamados feedbacks, os efeitos exponenciais do aquecimento. Quais as consequências exatas das enormes emissões de metano liberadas pelo derretimento do permafrost ártico? Quanto a acidificação dos oceanos reduzirá a sua capacidade de absorção de carbono? Quais as consequências das emissões “naturais” de carbono de secas em florestas tropicais --como na Amazônia, em 2005 e 2010-- já decorrentes do aquecimento?

Se predominar o imobilismo que tem no negacionismo um grande aliado, as grandes vítimas das mudanças climáticas serão nossos netos, dentro de algumas décadas. As consequências de um aumento médio de 4.5 a 6 graus atingirão drasticamente a agricultura e a produção de alimentos em várias regiões. Noutras provocarão secas, escassez de água, desertificação ou inundação de cidades litorâneas e enchentes muito mais intensas. Engendrarão migrações descontroladas, crises e conflitos internacionais, provavelmente guerras. O negacionismo do holocausto nazista agride o passado, já o climático ameaça o futuro. (artigo publicado em O Globo, em 17/7)

Rachaduras entre os negacionistas

Depois da publicação do artigo acima reproduzido, vários fatos novos vieram abalar ainda mais as teses “negacionistas” nos EUA. A recente e inédita onda de calor nos EUA foi o pano de fundo. [(http://www.nytimes.com/2012/08/07/science/earth/extreme-heat-is-covering-more-of-the-earth-a-study-says.html?_r=1)(Um estudo de James Hansen da NASA)] demostra cabalmente a relação das ondas de calor deste ano, no EUA, na Rússia, em 2010 e em toda a Europa, em 2003, com o aquecimento global provocado pelo “efeito estufa”.

Mais espetacular, no entanto, foi a mudança de posição de antigos
“negacionistas”. A mais recente foi a do físico Richard Muller. No ano passado ele recebera um financiamento para um estudo “tira-teima” de dados de aquecimento do IPCC por parte dos irmãos David e Charles Koch, estridentes "céticos" na questão climática. Muller analisou variações de temperatura dos últimos 250 anos e, ao final, concluiu que o aquecimento do planeta era causado “quase inteiramente” pela emissão de gases de efeito estufa(GEE) ocasionados por atividades humanas. Reconheceu publicamente que suas posições anteriores eram equivocadas.

Essa semana, o Wall Street Journal, o grande bastião do conservadorismo intelectual norte-americano, [(http://www2.sirkis.com.br/noticia.kmf?noticia=17772538&canal=262&total=3333&indice=0)(num artigo de seu comentarista John Krupp)] rendeu-se à evidencia mencionando inclusive a evolução, desfavorável aos “negacionistas” das pesquisas de opinião pública nos EUA. Segundo ele, atualmente, 70% dos norte-americanos e 53% dos que dizem ser republicanos (!) já aceitam a evidência de mudanças climáticas provocadas pela emissão de GEE. Ele cita até mesmo declarações do GEO da Exxon, um dos maiores financiadores dos think tanks “negacionistas” Rex Tillerson que já admite a realidade do aquecimento global embora sustente que ela deva ser enfrentada com adaptação e geoengenharia.

Recentemente alguns altos expoentes republicanos como os governadores Cris Chistie, de New Jersey e John Kasich, de Ohio se afastaram da postura “negacionista”. Falta ainda o candidato presidencial Mitt Romney, que no passado admitia o aquecimento global como resultante a ação humana, depois aderiu às teses “negacionistas” para agradar ao eleitores do Tea Party e a trogloditas como o radialista Rush Limbaugh. Irá mudar de novo de posição consolidando sua fama de filp-floper que é como os americanos denominam aqueles que aqui chamamos de “biruta de aeroporto”?

Koch agora levanta a nova discussão que os ex-“negacionistas” suscitam depois do seu choque de realidade. A de que as ações de mitigação podem ser ainda mais danosas que o aquecimento global em si. O relatório Nicolas Stern já demoliu cabalmente essa falácia mostrando que o custo econômico da inação ultrapassa muito o da ação. No seu artigo também Koch dá uma certa guarida à tese do Climate Pragmatism que sustenta que a tecnologia é a saída e que a regulamentação interna e internacional determinando reduções de emissões são contraproducentes.

Os conservadores terão uma certa dificuldade de abraçar essa tese por causa de seu forte componente neo-keynesiano que propugna um forte investimento público, de dimensões análogas à pesquisa científica para a corrida espacial e armamentista da era da Guerra Fria, desta feita em tecnologias de energias limpas. Dificilmente os republicanos, obcecados em “cortar do déficit” e reduzir investimentos públicos, comprarão integralmente a visão do Climate Pragmatism. Seus defensores e Koch, no seu artigo, citam a recente redução das emissões globais de GEE dos EUA pela abundante e barata oferta de shale gas como substituto do carvão. De fato esse é um acontecimento auspicioso. O único problema é evitar o aumento das exportações norte-americanas de carvão par outros países a um preço mais baixo induzido pela concorrência com o shale gas...Ainda não há números neste sentido mas sabe-se que aumentaram. O risco é o de apenas mudar de lugar as emissões como ocorreu com as siderúrgicas e fábricas de cimento da Europa e do Japão, transferidas para países fora do Protocolo de Kioto como a China e o Brasil.

De qualquer jeito para o desespero dos “negacionistas” brasileiros, que começam a se articular agora quando os seus percussores do norte debandam, há ruído na orquestra das avestruzes climáticas. Nas palavras imortais de Galeileu Galilei, epur si muove.


 
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