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Alfredo Sirkis - RJ
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A revolta da catraca
Artigo de Sirkis na Folha de São Paulo sobre a crise da mobilidade urbana nas cidades brasileiras

Alfredo Sirkis*

Aparentemente seria um contra senso questionar o movimento “passe livre” nos ônibus por falta de radicalismo. Afinal há rebeldia para todos os gostos e causas: saúde, educação, políticos corruptos, gastos da Copa. O aumento de 20 centavos foi a gota d’agua de uma contestação geral ao status quo. Seu início me lembrou um episódio no Rio, nos anos 50, durante o governo JK, contra o aumento de preço dos bondes. Tinha cinco anos e muito medo dos bondes pegando fogo. Depois acabaram com os bondes aumentos na catraca já suscitaram dezenas de quebra-quebras vezes mas a mobilidade urbana só fez piorar.

Uma mobilização dessas reflete um fenômeno de sociedade, não evidente na véspera e de leitura difícil, no ato. Produz uma grande exaltação, um orgasmo cívico, depois tende a decair deixando de herança uma geração militante que tenta dar alguma consequência política, organizativa ou até eleitoral à coisa, em geral com resultados aquém do esperado, naquele grande momento. A violência associada ao processo, a do vandalismo e da truculência policial, é uma espécie de efeito colateral, a não ser que fuja ao controle completamente o que, em geral, não ocorrer com mobilizações majoritariamente de classe média.

É consequente colocar-se como reivindicação central a gratuidade? O transporte público nunca é “gratuito”, sempre será pago, pelo usuário ou pelo contribuinte ou em doses diferenciadas por ambos. É injusto que os jovens ricos ou de classe média deixem de pagar a passagem quando podem. Parte dos trabalhadores recebe subsídio das empresas na forma de vale-transporte. É correto reivindicar a ampliação desses subsídios pelo poder público vinculando-os à programas de transferência de renda. As tarifas de ônibus no Brasil estão claramente acima da média internacional. O jornal El País recentemente comparou: um trabalhador, em Madrid, gasta seis minutos de trabalho para pagar sua passagem e em São Paulo, gasta catorze.

Falta transparência às planilhas de cálculo das empresas de ônibus que compreensivelmente precisam ter tarifas (ou receber subsídios) que mantenham economicamente viável o negócio já que as experiências de estatização não deram certo. Mas seus lucros não podem ser abusivos. Sua atividade corruptora é notória. É preciso acabar com as famosas “caixinhas” nas casas legislativas e esferas governamentais, a mais corriqueira das corrupções na política brasileira, um grande obstáculo a uma regulação que imponha qualidade.

Para a maioria da população usuária ainda pior que um aumento de vinte centavos é a má qualidade dos serviços. Não só a dos ônibus, em si mas também aquela que sobre eles incide resultante de um modelo que privilegia o transporte individual. O sistema de ônibus, ainda que dotado de BRTs e BRSs, tem seu funcionamento comprometido pelo vertiginoso crescimento da frota automobilística subsidiado --sem contrapartida alguma de menores emissões-- pelo governo federal. Engarrafamentos dantescos são a marca de qualquer cidade brasileira. São Paulo então...

Se as verbas dos subsídios à indústria automobilística, das obras rodoviaristas ou de projetos tipo trem-bala, fossem investidas no transporte de massas (metrô e trem) ou nos ônibus de alta capacidade (BRT), no subutilizadíssimo transporte hidroviário, nas ciclovias com disponibilização massiva de bicicletas --essas sim potencialmente gratuitas pois financiadas pela publicidade-- teríamos uma melhoria substancial na mobilidade urbana nas nossas cidades. Investimentos em ganhos operacionais, em sistemas de bilhete único combinando vários modais e uma informação em tempo real ao usuário também ajudariam.

Será indispensável --e inevitável em algum momento futuro-- a radicalidade de se colocar limites claros ao transporte individual motorizado com a introdução de taxas de congestionamento na forma de pedágios urbanos eletrônicos. O acesso em transporte individual a áreas e horários congestionados precisa ser taxado levando em conta o padrão do veículo e a intensidade de suas emissões. Uma contestação de fato radical ao nosso falido sistema de mobilidade urbana socialmente injusto e ambientalmente insustentável passa por uma taxa de carbono –em substituição a outros tributos-- e, sobretudo, por proclamar em alto e bom som que o rei-automóvel está nu.


 
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