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Alfredo Sirkis - RJ
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Marcão decidiu partir
Comentando o suicídio de um amigo e companheiro de exilio

Alfredo Sirkis


Marcão numa praia em Portual, em 1978

 Marco Maranhão, o Marcão, era um desses amigos que eu via raramente mas guardava no coração. No exílio éramos todos gregários mas na vida posterior, no Rio, nos dispersamos. Marcão era um companheiro especial. No meu livro Roleta Chilena conto um episódio, em Santiago, setembro de 1973, logo depois do golpe, quando me acolheu em sua casa que era mais segura do que aquela onde estava. Eu representava um risco adicional naqueles dias de "toque de queda", tiroteios nas ruas e denúncias contra os estrangeiros, mas sua hospitalidade foi perfeita.

Nas fotos que postei anteriormente e repito, uma, estávamos numa das praias perto de Lisboa, no final dos 70, já na contagem regressiva para a anistia que permitiu nosso regresso. Marcão era uma doce pessoa, sempre afável, amigável, incapaz de uma atitude agressiva, um sarcasmo. Me lembro dele como uma pessoa na superfície de bem com a vida. Sua esposa, Maria Lúcia Navarro, uma preciosa colaboradora nos meus tempos na Secretaria de Urbanismo, me relatou, hoje, que nos últimos tempos vinha sofrendo muito. Depois do ato entende-se que sofria de uma forte depressão cuja angústia tornou-se mais forte que qualquer outra coisa.

Seu suicídio foi metódico. Deixou o emprego de muitos anos, colocou a indenização da conta da esposa, deu conselhos e teve gestos de reconhecimento que soavam meio despropositados, disse ao filho e à empregada que ia viajar para Moçambique --onda já fora feliz-- e saiu de sua casa no Leblon com uma maleta e um único documento, o passaporte. Hospedou-se, na noite de terça-feira no Hotel Marina, escolheu um andar não muito alto mas o suficiente e às 4 da manhã de quarta-feira, horário escolhido de sorte a não provocar muito estorvo, atirou-se pela janela enquanto Maria Lúcia o procurava com ajuda da delegacia do Leblon.


Nos últimos dias estava tremendamente ansioso esperando receber a indenização e deposita-la na conta dela. Depois disso pareceu mais calmo e ao sair e se despedir da empregada --Maria Lúcia não estava-- parecia quase feliz, pelo menos estava aliviado, pronto para viagem, sem lenço e sem outros documentos que o passaporte para o desfecho que decidiu.


 
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