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Alfredo Sirkis - RJ
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Lagoa, peixes mortos, mais uma vez
A solução para a mortandade de peixes na Lagoa é a construção do enrocamento que possibilitará o livre fluxo da água do mar para dentro dela, oxigenando-a. Mas o governo do Etado boicota essa obra...

Alfredo Sirkis

Vou logo assumindo a parte que me cabe da responsabilidade. Abracei duas vezes a Lagoa, em 1986 e 2000, mas entre 1994 e 2002, defendi a solução da aeração laminar que, ainda penso, poderia funcionar, mas que não reuniu massa crítica necessária técnica e politicamente, portanto, durante esse período, equivocadamente deixei de apoiar aquela solução que hoje penso ser a mais correta: o enrocamento. Os técnicos da Prefeitura, da UFRJ e, sobretudo, do Instituto LNEC, depois de mais de uma década de estudos, defendiam consistentemente essa solução. Em 2002, promovemos, no Instituto Pereira Passos, um seminário utilizando um método de gestão de conflitos em situações complexas e análise comparativa de alternativas desenvolvido na London School of Economics, com um programa informatizado de auxílio a tomadas de decisão e tomando como base apenas aqueles dados técnicos consensuais e incontestáveis. A solução proposta pelo LNEC (refiro-me a sua terceira e última proposta) pontuou muito mais que as demais e deixava campo aberto para várias ações complementares. No aspecto fundamental: impedir a mortandade de peixes e o horrível desgaste que ela traz para o Rio, consagrou-se, de longe, como a mais recomendada. Passei a então a defende-la.

A tragédia da Lagoa é o chamado jogo de soma zero. Há 20 anos, sempre que surge a oportunidade para implementar uma solução, ela é bombardeada e inviabilizada pelos adeptos das demais ou pelos imobilistas. Foi assim também em 2002. A Prefeitura tinha pronta a licitação para o enrocamento, disponíveis os recursos, pronto o EIA-RIMA, acertado o aspecto paisagístico com o INEPAC e o apoio, inclusive, de boa parte dos técnicos da esfera estadual. Desencadeou-se a clássica cacofonia dos palpiteiros e dos xiitas, do pessimamente assessorado MP, com sua pretensão de ser governo sem voto, e , sobretudo, a oposição cerrada da SERLA com aquele seu contrato ad eternis de dragagem do Jardim de Alá... A CECA (Comissão Estadual de Controle Ambiental) do governo do Estado negou à Prefeitura licença para a obra por embargo de gaveta. Assim ficamos...

O enrocamento, a aeração laminar ou o bombeamento de água salgada são soluções que poderiam todas funcionar pois a questão crucial é oxigenar mais a laguna o que as três propiciam por métodos distintos. Ponderadas as equações de custo-benefício a primeira é a mais apropriada, mas qualquer uma das outras seria meno male. Pior mesmo é a repetida falta de ação pelo velho jogo de soma zero. Alguns eco-xiitas burramente pretendem que mais água do mar “alteraria as características naturais da Lagoa”. Porém, originalmente, ela tinha um componente de água salgada muito maior que hoje.

Criou-se o mito midiático de que a mortandade de peixes é diretamente provocada pelo despejo de esgotos. As denúncias de vazamento na lagoa estão corretas mas quando usadas para explicar a mortandade resultam diversionistas. O esgoto vem em maior volume do canal da General Gazón (rios Macacos e Cabeças), cuja vazão não é capturada pela galeria de cintura, aquela falsa panacéia. Há outros vazamentos na rede da CEDAE, que a dita cuja absorve, em tempo seco, mas que transbordam para a lagoa em dias de chuva. Há um trabalho a ser feito em relação a tudo isso, que não pode, no entanto, ser confundido com a solução para a morte dos peixes. Há registros históricos dessas ocorrências muito antes da urbanização da área, quando a areia obstruía o canal da laguna, por ação do próprio mar, coincidindo com determinadas condições climáticas e de ventos adversas. A mortandade fazia parte do processo natural, mas, hoje, com a Lagoa no coração da metrópole, devemos evita-la em defesa da qualidade de vida dos moradores, do turismo e da boa imagem e auto-estima da nossa Cidade.

Mobilizar pescadores para pesca-los antes que morram é válido, emergencialmente, mas também não constitui solução. A operação das comportas é outro desperdício inútil e a aquela dragagem “de Sísifo” do canal, um bom negócio para a empresa contratada, mas, insuficiente nos piores momentos, como se notou mais uma vez a dias. Com o enrocamento ela será totalmente dispensável: a mais intensa troca com o mar manterá o canal desobstruído. O que já se gastou, ao longo de todos esses anos em, dragagem já teria amortizado, com sobras o valor da obra, que, em 2002, estava orçada em 13 milhões. Se o governo do Estado, o qual, além de impedir o enrocamento, defenestrou a Prefeitura do controle da Lagoa -- uma das muitas razões que tenho para defender a volta do Estado da Guanabara-- agora, finalmente, deseja executar a obra, ótimo! Basta a CECA liberar o processo. Pelo amor de Deus...
(2005)


 
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