topo
 
 
 
Alfredo Sirkis - RJ
Tamanho da Letra:  -A  +A

Textos em memória de Leonel Brizola, Marcos Faerman, Herbert Daniel, Carlos Lamarca e Chico Mendes
Neste espaço lembro de amigos e companheiros que já se foram e cujo convívio me marcou. Meu olhar sobre essas pessoas que sairam da vida para entrar na história e cuja lembrança me acompanha.

Alfredo Sirkis

BRIZOLA, O IRREDUTÍVEL

Brizola, o duelista de titãs, em tempos em que não há mais titãs. A biografia política de Brizola foi vítima de um timing histórico adverso. Fabricado para ser presidente, com a têmpera dos grande líderes populistas latino-americanos, jamais o foi embora, por muito tempo, se acreditasse predestinado. Para quase todo mundo também o pareceu, em algum momento, mas, a presidência da república não o culminar de uma carreira política, mas, precisamente, destino. E o dele, afinal não foi esse. Ironias da história: quem diria, à partida que Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique ou Lula seriam presidentes, não Brizola?

Com Brizola, no Encontro de Lisboa, em 1978.

Durante alguns anos estivemos muito próximos. Conheci-o, em Portugal, no final dos anos 70 e fomos amigos. Brizola na época tentava reorganizar o PTB como um partido social-democrata ligado à Internacional Socialista e se aproximou muito de um grupo de jovens ex-guerrilheiros, exilados em Lisboa, do qual eu fazia parte. De volta ao Brasil, nos primórdios do PDT, nos afastamos. O Brizola de Lisboa era acessível e parecia disposto a se reciclar como líder social-democrata moderno. De volta ao Brasil reatou àquela relação líder – massas, foi cercado de bajuladores e assumiu um estilo muito difícil de combinar com o nosso da geração 68. Mas fui um dos raros ex-colaboradores com os quais ele nunca brigou e mantivemos uma relação cordial e carinhosa, a meia distância.

Como muitas figuras históricas, Brizola era uma coleção de paradoxos. Pouco dado a leituras --as más línguas garantiam que só havia lido a biografia de Julio de Castilhos-- tinha uma cultura histórica oral impressionante e tinha um conhecimento invejável da nossa história. Apesar de falar apenas o espanhol conseguiu comunicar-se às mil maravilhas e seduzir instantanea e permanente homens como Willy Brandt, François Mitterand, Olaf Palme e, o amigo de sempre, Mario Soares. Não gostava do legislativo, tinha preferência por cargos executivos, mas, uma vez lá, sofria de forte inapetência em relação a gestão do dia a dia. No primeiro governo com a presença de auxiliares como César Maia, Jaime Lerner, Darcy Ribeiro conseguiu sair-se tão bem quanto o governo de um estado artificial como o Rio de Janeiro, permitiria. No segundo, essa inapetência tornou-se um fardo, bem como seu proverbial apetite para brigas de cachorro grande: TV Globo, todos os presidentes, praticamente todas as principais lideranças políticas do país.

Na política praticamente só cultivava três tipos de relação: os subordinados, necessariamente fieis, os adversários e os aliados táticos. As duas últimas categorias alternava-se rapidamente. Brizola não era homem de alianças duradouras. Não havia aliado que não pudesse, num piscar de olhos, cair na alça de mira de suas diatribes demolidoras. Poucos adversários, no entanto, não poderiam eventualmente passar por uma (momentânea) reabilitação. Pouco sensível a sutilezas e detalhes, Brizola tinha, no entanto, uma visão precisa do big picture. Seus diagnósticos eram ferozmente precisos embora suas soluções muitas vezes impossíveis ou portadores de problemas maiores. Tinha, no entanto a capacidade que apenas uns poucos tem de antecipar o curso da história.

Nunca vou me esquecer uma viagem que fizemos, a Sesimbra, na costa portuguesa. Brizola buscava um hotel para ficar com a família e levei-o no meu Peujot verde para procura-lo. Passamos o dia juntos, demos um mergulho na praia. Falávamos da guerra fria e, repentinamente, Brizola disse duas coisas, com total convicção, que, naquele momento, me pareceram –e lhe disse, de forma educada-- completamente absurdas e delirantes. Corria o ano de 1978 quando ele prognosticou, com inabalável certeza, o desmoronamento da URSS e a reunificação da Alemanha, que só ocorreram mais de uma década mais tarde. Naquela época, pos-Vietnam, estávamos no auge do poderio militar soviético, com os movimentos de libertação avançando, na África, e a revolução sandinista em, marcha, a estagflação, nos Estados Unidos e a hegemonia econômica do Japão tida como certa. Não passava pela cabeça de nenhum analista internacional a possibilidade de uma reunificação da Alemanha ou do colapso da URSS. Antes de qualquer outro líder político Brizola diagnosticou a sinuca de bico que seria para o Brasil a globalização e a hegemonia dita neo-liberal. Referia-se às “nossas perdas internacionais”. Identificou a problemática, mas não tinha a solucionática. Ninguém tem, ainda. Corretamente definiu a educação como “x” do nosso problema social, construiu muitos CIEPS, mas, a educação estadual, secundária, hoje, continua sem render os frutos então esperados.

O papel mais digno que a história poder-lhe-ia reservar teria sido a Presidência da República em regime parlamentarista --logo ele, tão fortemente presidencialista. Certamente, incarnaria o papel de chefe de Estado e pai da Pátria, no cenário internacional, com uma maestria inigualável. Mas perigava infernizar a vida dos pobres primeiro-ministros...A fase final de sua carreira política não foi muito feliz pois, a força de romper com todos seus seguidores, a medida em que iam criando vôo próprio, para o bem ou para o mal, terminou um tanto solitário. Mas jamais abatido, jamais derrotado, sempre firme como o penhasco, o velho Briza. Irredutível.

* Conheci Leonel Brizola, em Portugal, em 1998. Durante o último período de exílio e os primeiros tempos pós anistia fomos politicamente próximos, quase amigos. Depois, em 1980, nos afastamos, por razões políticas mas sempre mantivemos uma relação de carinho e respeito. Apoiei-o na eleição para governador em 1990. Vi-o pela última vez, em Brasília, na véspera da posse de Lula. Artigo publicado no Jornal do Brasil.

(2004)



MARCOS FAERMAN, OBSESSÃO REPORTER.

Marcos Faerman

Foi-se nosso Marcão! Perdemos um príncipe da reportagem e uma das figuras humanas mais dignas e decentes que conheci. O repórter era simplesmente destes que já não se fabricam mais. Apaixonado por cada singular matéria, de avassaladora curiosidade, sede de descobrir, de conhecer, de entender, de ir ao fundo do aspecto humano de qualquer pauta. O esquartejador de Porto Alegre, Elvira Pagão, uma vedete famosa da era do rádio, um episódio perdido na história da guerra do Paraguai, a vida na Casa de Detenção, um jogo de futebol de várzea nos primórdios do futebol, uma luta de Bruce Lee ou Muhamed Ali, um drama sentimental nelsonrodriguiano, o último filme de Felini, o conflito do oriente-médio, Marcão ia fundo, bebia toda informação disponível, entrevistava com genuíno e intenso interesse. Gostava de gente. Decobria ângulos inéditos, criativos, oblíquos e, com a rapidez do corisco transformava tudo isso num texto claro, rico e escorreito, gostoso de ler. O texto do repórter Marcão era da melhor literatura.

Gaucho, judeu, gremista, paulista de adoção, tinha um coração do tamanho de um bonde. Convivemos mais nos anos 80. Eu acabara de voltar do exílio e ele era um dos meus primeiros e mais intensos links do pós-regresso. Morava numa casa no Sumaré que passou a ser minha guarida em Sampa City. Era tempos boêmios, de esbórnia. Marcão pegava pesado naquela busca frenética de experiências, vivências, prazer e angústias. Ali rolava de tudo, mas ao fim, as quadro da madrugada, partidas ou acomodadas as demais visitas, eu descia, sozinho ou en galante compagnie , como dizem os franceses, para o quarto de hóspedes, que ele me mantinha reservado e quase nos sonhos , ou no amor, desandava a ouvir, lá do andar de cima, o crepitar daquela sua máquina escrever (era uma Remington ou me falha a memória?) : Marcos Faerman as voltas com a matéria do dia seguinte para o Jornal da Tarde. Ele tinha aquele poder de concentração instantâneo que atribuem a Nelson Rodriguês: sentava a bunda na cadeira, atacava furiosamente as teclas e só parava horas depois com o texto prontinho e, pasmem, no ponto sem necessidade de muita mexida ou revisão. Esse virtuosismo notívago sempre encheu de admiração escritores menos concentrados, obsessivos em corrigir, reescrever, espasmódicos e decididamente matinais como eu, (embora este texto em sua homenagem o escreva, como ele, de madrugada, num Sábado de Carnaval).

Marcão gostava de ajudar nos projetos literários dos outros, estava sempre disponível para encarar um original, um manuscrito. Tinha uma total disponibilidade para aconselhar, para torcer pelo sucesso dos outros, ajudá-los a melhorar o texto, fazer acontecer. Foi padrinho e tutor de uma geração que se formou em torno do seu inesquecível tablóide dos anos da imprensa nanica, o Versus. Sua maior diferença com uma certa cultura de redação que se firmou ao longo dos anos era o espírito de colaboração, o gosto pelo bom trabalho dos outros. Marcão era despojado deste tão disseminado veneno da inveja. Era, porém, um angustiado, um agoniado, um insatisfeito, uma ansioso da vida. Grandão, curvado, de cabelos grisalhos caracolados, cara carnuda de judeu centro-europeu, um grande urso carinhoso, teddy bear cheio de ternura enjaulada.

Tínhamos muita identidade política: na crítica ao socialismo real e ao stalinismo –na época era um debate de monta-- , na busca da paz entre Israel e os palestinos, na ecologia, na interrogação de como, diabos, fazer a coisa certa no Brasil, como entender esse gigante multifacetado e contraditório que, segundo ele, explodia de criatividade. Marcão, até o fim, gostou do Brizola, por fidelidade gauchesca, mas era, certamente, mais um verde do que qualquer outra coisa. Me lembrei agora que ele também foi meu padrinho de casamento, em 81. Uma manhã, num cartório em Vila Madalena, cena cômica. Ela visivelmente grávida, eu crítico da situação e, depois, vítima de um incontrolável acesso de riso diante do juiz. Marcão chegando atrasado, atrapalhado, com lágrimas nos olhos, tinha acabado de ter uma de suas brigas homéricas com a mulher de então, Marinez. Eram torrentes de paixão entremeadas dessas explosões de filme italiano. Ficamos consolando- o. Marcão se recompôs. Disse-lhe que quem chorava no casamento era a mãe da noiva, não o padrinho do noivo. Ele riu e foi um padrinho impecável.

As reportagens de Marcos Faerman não aconteciam apenas no papel. Aos amigos brindava versões mais completas de cada assunto, com tudo aquilo que aprendera na pesquisa, era um emérito contador de histórias, uma imensa cultura jornalística, causos e mais causos de um repórter oral tão saboroso e afiado quanto no texto. Gostava mesmo de uma boa conversa. Ficávamos horas, horas a fio papeando. Uma coisa que com o tempo passou a dar-se cada vez menos à minha volta. Marcos Faerman era desses amigos que nos protegem da solidão e nos reconciliam com o gênero humano. A humanidade ali estava reconfortantemente representada pelo que produziu de mais digno. Fazia pensar: enquanto existir gente como o Marcão existe a esperança de que Deus, final, pode não ter errado a mão, tanto assim.

Nos anos 90 nos vimos bem menos. Ao saber de sua morte, na última Sexta-feira de Carnaval antes do ano 2000, não consigo me lembrar da última vez que o vi. Foi a dois, quatro, seis anos? Pelo telefone conversávamos mais. A última vez foi em setembro, durante a campanha presidencial. Não conseguimos nos encontrar, ele tinha dois artigos prá escrever e eu a agenda alucinante daquela empresa brancaleônica. Ficou prá minha próxima ida a São Paulo. Ficou para não mais ficar, muito embora presente, para sempre. Axé Marcão, saravá shalom.


Conheci Marcão, em 1980, em São Paulo. Ficamos amigos instantaneamente. Me ajudou muito com meus primeiros livros, escreveu o prefácio de Roleta Chilena. Durante muito tempo, sempre que ia à SP ficava em sua casa no Sumaré. Uma doce figura de imensa integridade. Artigo publicado no site Observatório da Mídia.

(1999)


LAMARCA, O SÃO SEBASTIÃO DO ESTÁCIO

Há um quarto de século comprei o Le Journal du Dimanche, numa banca perto da Bastilha, em Paris. Domingo não circulam os grandes jornais franceses e o semanário dominical é o quebra-galho dos viciados em noticia. Quase não trazia informações internacionais. Mas, ao folheá-lo, veio aquela pequena notinha terrível: Carlos Larmarca Tué (Carlos Lamarca Morto). Os dias seguintes estiveram entre os piores da minha vida, foram febrilmente consumidos entre artigos para jornais da extrema-esquerda francesa, meetings em faculdades e sombrias e enlutadas cofabulações com outros exilados. Me sentia culpado de estar vivo. Depois, quando chegaram os jornais e revistas do Brasil, a coisa piorou, publicavam coisas abjetas sobre ele. Lembro-me de uma crônica tripudeante de David Nasser. Fantasiei voltar ao Brasil para matá-lo. Acho que foi um dos raros períodos da minha vida em que realmente odiei. E sentir ódio fazia muito mal.

Um líder dos "anos de chumbo".

Minha convivência com Lamarca foi curta mas, intensa. Passamos juntos, com Hebert Daniel, Gerson Teodoro da Silva e Teresa Angelo, quarenta dias do verão 1970-71, no “aparelho” mais procurado do país, guardando o embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher, finalmente trocado por setenta presos políticos. A chamada “síndrome de Estocolmo” pegou firme e nasceu uma certa amizade entre nós, mas o personagem inesquecível, dos meus 19 anos, foi o “Paulista” que tinha sotaque carioca e que logo descobri ser o legendário comandante Cláudio, ou capitão Carlos Lamarca. Tinha o carisma do chefes cheios de confiança e determinação, que são capazes de incutir coragem e espírito de sacrifício aos seguidores. Era o nosso Che Guevara. Na casa dos trinta, tinha mais maturidade que nós, apenas chegando aos vinte, uma sensibilidade política superior aos quadros de origem estudantil-intelectualizada. Sua posição firme e minoritária impediu que se praticasse o desatino de executar o embaixador quando a ditadura negou uma primeira lista de presos. Essa e outras histórias estão descritas em detalhes no meu livro Os Carbonários.

Nos despedimos na véspera da libertação de Bucher -- Lamarca saiu um dia mais cedo -- e nunca mais o vi. Passamos meses trocando cartas e, semanas antes de fugir para o exílio, conheci Iara Iavelberg. Lamarca tinha perfeita consciência de que estavamos perdendo a guerra e que a esquerda armada amargava um impasse. Ele pensava num trabalho político de base, rural. Tentei inutilmente convencê-lo a sair do país. Iara foi sensível a essa idéia, ele não. Com naturalidade e sem bravatas, escreveu-me que aceitava serenamente a probabilidade da morte e que, enquanto tivesse um neurônio vivo, estaria pensando na revolução. Pareceria frase de efeito. Mas, ele era mesmo assim. Autenticamente. Também era um “boa praça”; um carioca cheio de humor, sincero e leal; “um livro aberto”, como dizia Iara. Inevitavelmente, distinto do seu personagem no cinema. Paulo Betti compôs um Lamarca dramaticamente convincente, no filme do Sérgio Rezende, um dos nossos melhores cineastas. Só que completamente diferente do real, que conheci ouvindo Paulinho da Viola, estudando Mao Tsé Tung e tentando entender o poder de comunicação de Abelardo Barbosa, o Chacrinha.

Passaram se vinte cinco anos, o exílio, a anistia, o fim do “socialismo real”, anos 80, 90, tanta coisa... As lembranças vão ficando distantes e o guerrilheiro Felipe, quem fui, hoje, parece-me uma outra pessoa, fora de mim. As armas automáticas, que tanto apreciava e “fetichisava”, hoje, me repugnam. Não me orgulho de ter sido um carbonário, mas também não me envergonho. A vida me fez cruzar com alguns ex-combatentes do outro lado que, até onde sei, não participaram das torturas mas, de operações anti-guerrilha urbana. A química entre nós foi sempre de respeito. Pouco conversamos a respeito “daqueles tempos”, mas nesse pouco, pairou no ar um certo consenso de que fora uma tragédia de erros, de parte a parte, ter travado aqui a guerra do Vietnam. Um confessou ter votado em mim para vereador.

Um dia me deparei com o atual Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, general Cerqueira, o qual, como major, em setembro de 71, chefiou a operação que resultou na morte de Lamarca. Por uma dessas ironias da vida foi numa solenidade em que ele me entregou uma medalha concedida pelo Corpo de Bombeiros em reconhecimento a uma ajuda que lhes dei como Secretário de Meio Ambiente. Não senti em relação a ele nenhum ódio, raiva ou ressentimento, apenas um tremendo constrangimento, imagino, compartilhado. (...) Se pudesse dar-lhe um conselho de ex-inimigo, hoje apenas adversário de suas fobias e simplificações, sugeriria que doasse a um museu o Smith Wesson 38, cano longo, de Lamarca, que mantêm como troféu, e olhasse para frente e não, para trás.

Pessoalmente, e certamente por razões diferentes, também me incomodam algumas dessas recentes reportagens. A repetida e macabra apresentação da nudez do comandante guerrilheiro na mesa de autópsia, essa estranha compensação histórica feita de má consciência de certos órgãos de imprensa que, na época, colaboravam com o regime, e hoje se fascinam pelos “anos de chumbo”, por um viés necrófilo. A história não é rediscutida, é exumada e tem o patético simplismo das ossadas: Lamarca é um desertor-traidor, corretamente abatido, ou uma pobre vítima de uma falha da União Federal na salvaguarda da vida de um réu capturável ou capturado? Faça um “x” na resposta apropriada...

Não me sinto à vontade com nenhuma dessas duas teses. Apesar de Lamarca quase certamente, ter recebido os primeiros tiros dormindo e ter sido “rematado” logo depois, apesar de nunca ter existido aquele suposto diálogo final à la Antônio das Mortes, na época atribuido ao major Cerqueira, pessoalmente não deixo de considerar o episódio como uma situação de combate. Lamarca era um militar adestradíssimo, um atirador excepcional. Ainda que trôpego, esfomeado e armado com só com um revolver, certamente, reagiria e levaria junto um ou vários atacantes. É a verdade, nua e crua. Longe de mim contestar os propósitos civilizatórios da Comissão de Mortos e Desaparecidos. Ela parte da premissa do Estado de Direito e afirma o princípio de que o estado democrático deve zelar pela integridade daqueles sob seu domínio. Apesar de se reportar a fatos do passado, seu real objetivo é o futuro. No entanto, se formos analisar as coisas pelo ângulo do passado real, chegaremos à constatação que, de fato, a alternativa da captura de Lamarca teria sido simplesmente horripilante, pior que a morte, cosiderando-se o grau de tortura que vigia em 1971 e o imenso ódio que ele sucitava aos seus ex-colegas de farda. Capturado seu destino teria sido o de Eduardo Leite, o Bacuri, trucidado mediante sevícias medievais a cargo do delegado Fleury, num sítio clandestino.

Pode-se analisar os atos da ditadura sob a ótica das obrigações do estado de direito? A guerrilha não se deu contra governos constitucionais como Dutra, Getúlio, Juscelino ou Jango, frente aos quais a esquerda nunca se levantou em armas, ao contrário dos militares udenistas que o fizeram contra todos, excetuando o primeiro. Por mais equivocadas que fossem nossas concepções ideológicas o fato é que nos revoltamos face a um poder oriundo de um golpe de estado. Lamarca tinha um completo desapego em relação ao dinheiro ou qualquer conforto material. Duvido que ficasse satisfeito de ser legalmente reduzido ao papel de vítima, objeto de indenização. Como Che Guevara, Mario Roberto Santucho, Camilo Torres, Miguel Enriquez e toda uma geração de líderes revolucionários das décadas de 60-70, foi ao encontro da morte numa luta que, acreditava, levaria a uma sociedade mais justa. Ainda que a anos luz das nossas concepções de então, e consciente de tantos erros cometidos, hoje, também não consigo vê-lo como vítima. Até porque, continuo a venerá-lo como herói, embora não tenha a menor intenção de convencer mais ninguém disso. No mais, já é tempo de exorcisar essa obsessão com os “anos de chumbo”, enterrar os ossos e os ódios, reverenciar os mortos, extrair as melhores lições do passado, para encarar de frente os vivos com os olhos da anistia. E bola prá frente.

* Convivi com Carlos Lamarca os memoráveis 40 dias, de dezembro 1970, janeiro 1971, em que estivemos juntos guardando o embaixador suíço no “aparelho” da rua Tacaratú, em Honório Gurgel. Aí brotou uma amizade e uma admiração imensa por ele, nosso comandante. Hoje tenho uma visão mais crítica tanto dele como e mim, na época. Mas continuo a admira-lo como a figura heróica que foi e também como um carioca muito especial, nascido no Estácio. Texto inédito. Enviado, na época, ao jornal O Globo, não foi publicado.

(1996)


HERBERT DANIEL, O ÚLTIMO EXILADO

Herbert Daniel.

Herbert Eustáquio de Carvalho, conhecido como Herbert Daniel. Estudante de medicina. Um dos fundadores da COLINA (Comandos de Libertação Nacional) de Minas Gerais. Veio ao Rio de Janeiro depois das quedas dessa organização no início de 69. Participou do racha que deu origem à segunda VPR. Depois das quedas de abril de 70 tornou-se membro do comando nacional. Já nessa época era o grande intelectual do grupo lendo e escrevendo incessantemente sobre teatro, cinema, questões filosóficas e, naturalmente, teoria revolucionária. Em diversas ocasiões esteve a um triz da queda escapando quase miraculosamente. Foi, literalmente, o último dos moicanos da VPR. Ao ser completamente aniquilada a organização, no final de 71, no Rio e em 72, no nordeste, pela repressão, com prestimosa ajuda do traidor cabo Anselmo, Daniel foi o único que sobrou. Saiu do país em 74, com a ajuda de Jonjoca e a minha, indo residir em Lisboa e, depois, em Paris, com o companheiro Cláudio Mesquita. Foi o último exilado a ser anistiado.

Regressou apenas em 81 e logo lançou alguns livros que escrevera, em Paris, e, depois, em rápida sequência, vários outros. Inseriu-se nos debates sobre a questão homossexual, temas de direitos humanos e ambientais. Foi um dos fundadores do PV e, em 86, concorreu a deputado estadual pelo Rio de Janeiro, não foi eleito, apesar de expressiva votação. Com o surgimento da epidemia de AIDS Daniel passou a dedicar enorme atenção ao tema, se transformando em uma referência nacional e internacional sobre as questões de saúde pública, culturais e de direitos humanos envolvendo a epidemia. Em 89, ele próprio descobriu estar com a doença. Nessa época foi lançado durante um período como anti-candidato à Presidência da República pelo PV, como forma de combater o preconceito. Assumiu abertamente sua condição de aidético, num momento que poucos tinham coragem de fazê-lo, e redobrou sua combatividade e garra de viver. Faleceu em 93.

(trecho do Pré-posfário, de Os Carbonários, edição de 1998, onde me refiro a Herbert Daniel)

"Que destino! Em dezenas de ocasiões esteve a um triz da prisão, escapando quase miraculosamente. Tinha freqüentes problemas de saúde. No final de 70, no auge da clandestinidade, foi desenganado por um falso diagnóstico de leucemia, que recebeu com resignado fatalismo. Foi, literalmente, o último dos moicanos da VPR. Ao ser completamente aniquilada a organização, no final de 71, no Rio, e em 72, no Nordeste, pela repressão, com prestimosa ajuda do cabo Anselmo, foi o único que sobrou. Perdeu completamente o contato com quaisquer estruturas clandestinas de outras organizações. Ficou em contato somente com um simpatizante, o artista plástico Cláudio Mesquita ( não há referencias a ele no livro, pois na época não cheguei a conhecê-lo. O Cláudio que menciono, algumas vezes, é um dos codinomes de Lamarca) Daniel e Cláudio Mesquita passaram a morar juntos; viveram em diversas pequenas localidades do interior de Minas Gerais, afastados de qualquer contato político. Reimplantaram-se socialmente assumindo novas identidades e uma variada gama de ofícios. Cláudio trabalhou como cabelereiro. Nessa época Daniel assumiu sua homossexualidade, que, no período da militância, sufocara, mas seu amor com Cláudio só se realizaria muitos anos depois, em Portugal. Apesar de ser um dos homens mais procurados do país, Daniel fez contato com a família e chegou a visitar a casa dos pais, em Belo Horizonte, sem que ninguém o reconhecesse. Encontrar o desaparecido companheiro Daniel foi minha obsessão, durante muito tempo, no exílio. Em 1974, quando morava em Buenos Aires, como correspondente do Libération, consegui fazer contato. Num centro espírita uma amiga nossa foi informada de que ele estava vivo. Meu amigo João Belisário de Souza, o Jonjoca, conseguiu estabelecer o contato com sua família. Com apoio de Amílcar Santucho, do ERP (Ejército Revolucionário del Pueblo), que nos forneceu os documentos falsos, Jonjoca entrou clandestinamente no Brasil, foi até Minas e fez contato com eles, deixando-lhes dois passaportes “frios”, equatorianos. Eles saíram do país e nos reencontramos, no final do ano, em Paris, na casa de Ângelo Pezzuti. Em 75, Daniel e Cláudio foram morar em Portugal, onde eu também residia. Com a anistia Cláudio regressou, mas Daniel foi um dos pouquíssimos brasileiros a não ser incluídos na anistia de Figueiredo, que no meu caso --estava condenado duas vezes a prisão perpétua e a trinta anos na terceira encarnação, pelos tribunais militares-- se deu, de fato, por artifícios jurídicos de prescrição de pena. Entrei raspando a trave, beneficiado pela minha idade de menor de 21, na época dos fatos. Daniel, no entanto, só pôde regressar dois anos depois. Permaneceu em Paris e ficou sendo conhecido como o “ultimo exilado”, o que inspirou até um personagem do Jô Soares, o Sebá.

Enquanto esperava a solução do seu caso, Daniel lia e escrevia muito e trabalhava numa sauna gay. Finalmente de regresso, em 81, Daniel lançou alguns livros que preparara em Paris e escreveu vários outros, alguns autênticas preciosidades, mas que nunca chegaram a um grande público. Tinha um texto fantástico, muito elaborado, o melhor de todos nós, mas fazia pouco caso da estrutura narrativa e nenhuma concessão à simplicidade. Inseriu-se nos debates sobre a questão homossexual e sobre temas de direitos humanos e ambientais. Foi um dos fundadores do PV e, em 86, concorreu a deputado estadual pelo Rio de Janeiro; não foi eleito, apesar de expressiva votação. Com o surgimento da epidemia de AIDS Daniel passou a dedicar-lhe enorme atenção transformando-se em uma referência nacional e internacional sobre as questões de saúde pública, culturais e de direitos humanos envolvendo-a. Em 89 ele próprio descobriu estar com a doença, depois de pegar uma pneumonia. Nessa época foi lançado, durante um período, como anticandidato à Presidência da República pelo PV, como forma de combater o preconceito. Assumiu abertamente sua condição de aidético num momento em que poucos tinham coragem de fazê-lo e redobrou sua combatividade e garra de viver. Resistiu quatro anos durante os quais lutou, lutou, lutou, incessantemente, viajando pelo mundo, dando palestras, escrevendo artigos, negociando articulações internacionais. Herbert Daniel mudou a história da AIDS no Brasil. A partir dele os aidéticos e o soropositivos saíram do gueto, posicionaram-se à luz do dia. Em 93 aquele que havia escapado de dezenas de situações críticas, na época da luta armada, que fora o último moicano da VPR, o derradeiro a sair para o exílio e a regressar ao país, sucumbiu, em casa, em Copacabana, ao lado do seu amado Cláudio Alves Mesquita. Numa subsequente crueldade do destino este artista, ainda não descoberto, também se foi, no ano seguinte, com 45 anos. Não do vírus, mas do imenso coração, partido.

Vi Herbert Daniel pela última vez a duas semanas do desenlace, que se deu quando eu estava em Amsterdã, visitando as ciclovias, em viagem oficial. Durante sua doença tivemos conversas maravilhosas, profundas, livramo-nos das questiúnculas, rivalidades, vaidades que nos tinham separado em diferentes momentos. Eu constantemente lhe dizia --dizia me-- que ele ia resistir, que em poucos anos iriam surgir novos tratamentos, que o negócio era durar até lá, e ninguém mais talhado para isso do que um especialista em sobrevivência como ele. Não deu tempo. Três anos antes do surgimento dos inibidores da protease e dos coctéis, percebi, pelo telefone, que sua voz ficava trêmula e sumia, suas fases “más” iam se prolongando. Vi-o aquela última vez. Segundo Cláudio, tinha poucos momentos de lucidez, mas cheguei durante um deles. Seu cabelo ficara totalmente branco; em poucas semanas transformara-se num ancião precoce. Fumava muito. Deitado naquela cama, trêmulo, parecia um peixe fora d’água, ofegante. Mas seu sorriso era doce e seu olhar cheio de serenidade e amor por tudo, por todos. Lembramo-nos das coisas que tínhamos feito juntos. Prometi voltar uns dias depois. Viajei. Naquele dia ambos sentíamos que era a despedida."

* extraído de “notas” e “pós-prefácio” da décima quarta edição de Os Carbonários, 1998.



CHICO MENDES, NOSSO HEROI AMAZÔNICO

O assassinato do líder seringueiro e ecologista Chico Mendes,em dezembro de 1988,chamou a atenção do mundo para a resistência dos chamados povos da floresta -os índios,os seringueiros,os castanheiros,os ribeirinhos, etc...- contra o processo de devastação da Amazônia.Entidades ambientalistas e milhões de pessoas em todo mundo,preocupadas com a sobrevivêncida maior floresta tropical do mundo, descobriu que no coração da Amazônia havia trabalhadores dispostos a dar sua vida para preserva-la. Antes da sua morte Chico Mendes era, paradoxalmente, um homem mais conhecido fora de seu pa¡s do que no interior do mesmo.Havia recebido diversos prêmios internacionais, participado de conferências, nos Estados Unidos e na Europa, circulado no ONU,no Senado norte-americano,mas no estado do Acre,onde residia,era um homem implacavelmente atacado pela imprensa local,controlada pelos latifundiários devastadores,e marcado para morrer, como o personagem de Gabriel Garcia Márquez em sua "Crônica de Uma Morte Anunciada".

Desde 1974 quando começou a liderar a luta dos seringueiro de Xapuri,Chico já sofrera sete atentados e fora julgado duas vezes por tribunais militares.O profundo ódio contra ele nutrido pelos fazendeiros da região tinha como razão fundamental a prática dos chamados "empates": antes de resistência não violenta que impediam os desmatamentos. A partir do momento em que tomavam conhecimento da eminência de uma ato de derrubada da floresta , por algum dos latifundiários ansiosos para expandirem seus pastos ou, simplesmente, "valorizar" suas terras, fazendo-as assim parecerem “produtivas", os seringueiros e suas famílias se reuniam em grupos de algumas dezenas, por vezes centenas, e se postavam diante das motoserras e dos tratores.Muitas vezes haviam fracassado,reprimidos pela pol¡cia militar, chamada em defesa da propriedade privada e da ordem pública, mas, a partir de meados dos anos 80, esses "empates" passaram a ser freqüentemente vitoriosos e permitiram impedir a devastação de mais de um milhão de hectares de floresta amazônica

Com Chico, no Rio, em novembro de 1988, um mês antes do seu assassinato.

Acostumados a resolver a tiros seus conflitos de terra, à maneira do velho oeste norte-americano, os criadores de gado do Acre encontrou em Chico Mendes um inimigo desconcertante:um homem de fala macia, moderado,capaz de enreda -los politicamente através da sua capacidade de mobilização pacifica, de seus contatos políticos a nível nacional e internacional e de sua capacidade de atingi-los lá onde doía mais:no bolso. Através de sua ação Chico Mendes conseguiu sensibilizar o Banco Mundial e suspender temporariamente financiamentos para o asfaltamento da estrada BR-364,entre Porto Velho e Rio Branco e conseguiu demonstrar claramente o absurdo econômico do ciclo do gado na Amazônia realizado basicamente com créditos subsidiados e incentivos fiscais pagos pelo contribuinte brasileiro, ao longo dos anos 70 e 80.

Chico Mendes ofereceu ao Brasil e ao mundo uma alternativa clara e economicamente viável ao ciclo do gado e da exploração irracional da madeira:o projeto das reservas extrativistas. Uma forma simples, barata e viável de promover o desenvolvimento econômico da regão, preservando a floresta,conciliando progresso e ecologia. Os apologistas da "colonização" da Amazônia,dos anos 70 e 80,sempre tiveram como leitmotiv a afirmação de que a enorme floresta não podia ser mantida intacta. Que os ecologistas invariavelmente estrangeiros ou intelectuais do sul do Brasil nada sabiam a respeito do problemas do "homem amaz“nico" da sua pobreza e do seu abandono e da necessidade de se promover o "progresso" da região. Por outro lado esse progresso também era apresentado como uma solução para multidões de imigrantes pobres, sem terra,que fugiam de uma vida miserável no nordeste e no sudeste do pa¡s,vivendo uma epopéia de colonização daquilo que muitas vezes era denominado "o inferno verde". Durante os anos 70, a propaganda oficial do regime militar martelava essa imagem dos colonos heróicos em luta contra a natureza adversa que estavam transformando a Amazônia num lugar decente de se viver.

Vinte anos depois são raros os ex-responsáveis pelos projetos de colonização estimulados pelo regime militar que n„o admitam aberta ou implicitamente o desastre por eles patrocinado.O ciclo do gado na Amazônia devastou mais de 30 milhões de hectares de floresta,para assentar certa de 20 milhões de cabeças de gado,em terras particularmente inapropriadas para o pasto. Em menos de dez ano muitas pastagens plantadas no lugar da floresta começaram a se degradar e em muitos lugares a se desertificar irreversivelmente. Mesmo lá onde o pasto se mantém a produtividade
é baixíssima. Na verdade o ciclo do gado na Amazônia foi mais um surto de especulação financeira e fundiária que consumiu, em vinte anos,mais de 10 bilhões de dólares de cr‚ditos subsidiados e incentivos fiscais.Como disse Chico Mendes certa ocasião: "Nós anos setenta bastava um sujeito calçar botas e chapéu de vaqueiro e entrar no Banco do Brasil para conseguir financiamento para queimar a floresta.Depois da queimada vendia a terra e embolsava o financiamento".

As empresas madeireiras acompanharam esse ciclo do gado comercializando as madeiras da floresta derrubada,em tora,a preços aviltados,no mercado nacional e internacional,sem se preocupar sequer em estabelecer um sistema de manejo sustentado e plantio de espécies para exploração madeireira, muito menos uma indústria de artefatos de madeira. A exploração madeireira na Amazônia seguia a pol¡tica da terra arrasada.

No êxodo amazônico dos anos 70,sobretudo em direção … Rondônia, onde mais de 35% da floresta foi derrubada,predominaram multidões iludidas pela perspectiva da posse da terra e da agricultura. Salvo raras exceções esse imigrantes fracassaram completamente, pois das terras da Amazônia pouco mais de 5% são aproveitáveis do ponto de vista agrícola. Na imensa maioria das regiões a derrubada da floresta e o sacrifício de estreita camada de riquíssimo humus tropical recobre um solo pouco fértil com tendência a desertificar. A maioria dos sem-terra, que na d‚cada se 70 sonharam ser pequenos agricultores desse pretenso Eldorado, acabaram na miséria, sub-proletários das diversas atividades predatórias que se desenvolveram na região.

Mais sério do que o ciclo do gado cuja viabilidade econômica está condenada , a médio prazo, pela suspensão das facilidades financeiras concedidas pelo governo, o atual ciclo da mineração. Teoricamente a atividade de mineração pode ser desenvolvida com dano reduzido ao meio-ambiente, desde que adotadas determinadas técnicas e cuidados. Na pr tica a maior parte das atividades de mineração têm sido desordenadas, praticadas por enxames de garimpeiros em busca de ouro, com técnicas primitivas e com o uso intensivo do mercúrio,sem nenhum tipo de precaução, envenenando os rios e condenando… morte,a médio prazo,os próprios catadores de ouro incautos e ignorantes,explorados por verdadeiras m fias semelhantes aos
cartéis das drogas.

O quadro de devastação da Amazônia ‚ completado pelos grandes projetos hidroelétricos,que inundam vastas áreas de floresta para, muitas vezes, abastecer de energia elétrica com tarifas subsidiadas indústrias altamente consumidoras de energia e perniciosas ao meio ambiente, como a de alumínio, no nordeste, e as famosas guserias do Pará que usam carvão vegetal de florestas nativas para processar o min‚rio de ferro de Carajás, vendido, quase todo, a um preço internacionalmente aviltado para paises da Comunidade Econômica Européia.

Salve a Amazônia...

Esse modelo econômico,altamente predatório e concentrador de renda, já foi responsável pela devastação de quase 10 % da maior floresta tropical do mundo e ,em pouco mais dez anos,pode fazercom que a situação da Amazônia chegue a um ponto irreversível. Suas consequências sociais e políticas também são perversas.Se a Amazônia sempre foi pobre essa pobreza de suas populações tradicionais era vivida com dignidade. Os últimos vinte anosde devastação trouxeram a miséria: mais de 30 mil seringueiros expulsos de suas terras, migrando para a Bolívia,ou para a periferia das pequenas cidades onde, junto com os imigrantes fracassados na agricultura ,se tornaram um sub-proletariado marginalizado e disponível para os senhores da devastação. Nas cidades amazônicas como a capital do Acre, Rio Branco,a parte mais favorecida veio a se transformar numa classe média funcionária pública, totalmente dependente da administração estadual e clientela fácil da casta pol¡tica comprometida com a hegemonia dos pecuaristas e dos madeireiros. Esta situaçãoo favorece as oligarquias locais que eleitoralmente, até agora, pelo menos, não foram seriamente ameaçadas.

Pode se afirmar que a maior parte da população da Amazônia, sobretudo a urbana e, principalmente, a imigrante, ainda se deixa encantar pelas quimeras do "progresso" que chega montado na devastação da floresta. Apenas recentemente a preocupação começou
a se generalizar com a evidência de mutações climáticas, inundações, pragas e doenças novas, assoreamento dos rios navegáveis e interdição dos aeroportos da região por causa da fumaça das queimadas.

Nesse contexto as políticas preservacionistas clássicas, promovidas por entidades ambientalistas internacionais como a demarcação de áreas de preservação, de parques nacionais e o financiamento de sua conservação intocada, não prometem surtir o mesmo efeito que estratégias semelhantes, nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa, em contextos sociais e culturais muito diferentes. O dado primordial a respeito da possibilidade de sobrevivência da floresta Amazônia‚ a sua vinculação com a problemática econômica e social mais geral do Brasil. Neste sentido qualquer preocupação com os destinos da maior floresta tropical do mundo ‚ inócua e/ou hipócrita se não incorporar os dados maiores do drama social e econômico brasileiro.

(1989)

Dez anos...o que ficou de Chico Mendes

A dez anos do assassinato de Chico Mendes e do escândalo internacional decorrente, nada é capaz de afastar essa horrenda sensação de que talvez ele tenha morrido em vão. O número de seringueiros na floresta é cada vez menor, agravado pela recusa do governo de criar um subsídio para a borracha amazônica considerando seu valor ecológico agregado. Sem isso ela se torna comercialmente inviável, incapaz de competir com a de plantações artificias, mais próximas dos centros urbanos e do litoral. Cada vez mais seringueiros transformam-se em favelados e em alguns casos aderem às atividades madeireiras. A pecuária, nos anos 70 e 80, a extração de madeira predatória e os assentamentos e “colonização”, cinicamente apresentados como “reforma agrária” na região amazônica, vêm agravando o quadro sem tréguas. Os ganho econômico e os avanços sociais vinculados a esses tipos de atividade são efêmeros e perversos: a péssima qualidade do pasto, o baixo preço e o enorme desperdício da madeira extraída, as dificuldades para a exploração agrícola, os ganhos econômicos e sociais predatórios, de curtíssimo prazo, sem sustentabilidade, que vaticinam uma catástrofe de implicações planetárias, ainda no horizonte de vida de nossos filhos e netos. Isso sem falar do drama atual, das cidades infestadas de fumaça, dos aeroportos fechados, das culturas tradicionais destruídas, da biodiversidade exterminada.

Até hoje a economia vem jogando constantemente contra a ecologia, na região amazônica. A única chance de reverter esse processo de devastação., de conseqüências planetárias é viabilizar um ciclo econômico sustentável de extrativismo não predatório, ecoturismo e exploração inteligente das imensas possibilidades vinculadas à biodiversidade Implementar o zoneamento ecológico e econômico da região e, sobretudo, estimular outras alternativas econômicas, inclusive nas cidades amazônicas. Existe, em tese, a possibilidade de exploração sustentável da madeira, como também da mineração, mas é preciso que se diga, alto e em bom tom, que ela é totalmente inviável no atual contexto político local, no presente estado de coisas institucional, psicossocial, cultural e técnico da região. Sem fiscalização eficaz, sem empresas minimamente responsáveis, sem instituições locais confiáveis, sem conscientização, sem organização social, num contexto totalmente dominado pelo coronelismo truculento e a corrupção, qualquer idéia de manejo sustentável, quer em áreas particulares, quer em concessões, no interior de florestas nacionais é empulhação e propaganda enganosa. Atualmente o IBAMA não tem, nem de longe, os meios e, muito raramente, a vontade política necessária para fazer frente à situação. Como poucas e honradas exceções, as suas superintendências regionais se encontram loteadas com a base de sustentação local do governo, quase sempre vinculada aos interesses devastadores.

O que cabe neste momento, na Amazônia, é um bom “freio de arrumação”. Uma moratória por cinco anos da extração nas áreas consideradas críticas, a expulsão das madeireiras asiáticas e uma estratégia de repressão combinada com uma assistência direta do poder público aos socialmente atingidos, com a criação de um subsídio para a emigração ou mudança de atividade. Podem ser criadas frentes de trabalho onde os atuais cortadores de árvores sejam remunerados para recuperar áreas degradadas. É necessário quantificar essa ação e definir as zonas prioritárias. Salvar a Amazônia, permitindo ganhar tempo para um futuro desenvolvimento sustentável, certamente não sairá mais caro do que salvar um punhado de bancos falidos. Recursos internacionais seriam mais facilmente captados e melhor gastos nesse contexto.

É dever constitucional do Presidente solicitar o concurso das Forças Armadas para deter a destruição desta parte ameaçada da Pátria que é o ecossistema amazônico. Das instituições nacionais apenas elas têm a capacidade operacional para monitorar e controlar uma região tão vasta. Embora enfraquecidos pela medida provisória que concedeu mais dez anos de prazo às empresas para se adequarem à Lei de Crimes Ambientais, ainda há instrumentos legais suficientes para uma ação desse tipo que precisa estar vinculada à justiça federal. Esses operações devem abranger a proteção à fiscalização do IBAMA, reforçada por outros órgãos, a dissuasão à eventual resistência das máfias locais, a destruição, no próprio local, de todos equipamentos usados na devastação ilegal, a prisão dos responsáveis. Há dez anos da morte do herói Chico Mendes essa é a única homenagem digna que se lhe pode fazer.

(1998)

Conheci Chico Mendes em 1987, em Xapuri. Ficamos instantaneamente amigos. Ele aproximou-se do Partido Verde e discutia seriamente a hipótese de ingresso quando foi assassinado. Esteve consoco, na manifestação Salve a Amazônia, uma caminhada com tochas do jardim Botânico ao Monumento a Estácio de Sá, em novembro de 1988, pouco antes de ser assassinado a dois dias do Natal.


 
Total: 52   | 1 a 10 |   «   »
29/01/2015 - 08:06
Censura e privacidade
Alfredo Sirkis - RJ
24/12/2014 - 11:52
Em defesa do Croc
Alfredo Sirkis - RJ
03/09/2009 - 21:38
Salvando o gambá
Alfredo Sirkis - RJ
22/08/2009 - 17:22
O nosso Obama de saias.
Alfredo Sirkis - RJ
20/08/2009 - 09:37
Diálogo farpado com Chico Alencar.
Alfredo Sirkis - RJ
09/08/2009 - 17:44
Ela é do planeta! Marina Silva é nosso nome natural.
Alfredo Sirkis - RJ
03/05/2009 - 11:32
Documento da Fundação Ondazul ao IBAMA.
Alfredo Sirkis - RJ
02/05/2009 - 21:35
Rememorando o Silicone XXI
Alfredo Sirkis - RJ
27/04/2009 - 19:33
Integra do depoimento do ex-chefe da Policia, delegado Gilberto Ribeiro - continuação.
Alfredo Sirkis - RJ
27/04/2009 - 19:22
A integra do depoimento do delegado Gilberto Ribeiro à Comissão Especial de Segurança.
Alfredo Sirkis - RJ
 
 
Table has no partition for value 1553270215