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| Alfredo Sirkis |
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| A foz do Rio Carioca. |
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Localizado em um cenário de cartão-postal, Baía de Guanabara com o Pão de Açúcar ao fundo, o rio Carioca traz em suas águas uma parte da história da cidade. Conhecido há séculos atrás como primeira fonte de abastecimento, o curso d´agua não mais sacia a sede do Rio por conta da poluição. Para remediar este problema foi construída em sua foz uma estação de tratamento para contribuir na despoluição da praia do Flamengo. No entanto o trabalho de recuperação das águas esbarra em limitações, a estação só opera em tempo seco e ainda recebe esgoto oriundo de ligações clandestinas.
Construída pelo Governo do Estado do Rio com os recursos da Petrobras - indenização do acidente na Baía de Guanabara no ano 2000 - a estação de tratamento – ETE - Rio Carioca custou 3,5 milhões de reais e o valor de sua operação é de 60 mil reais. A estação recolhe o afluente promovendo o tratamento da carga oriunda do rio e dos esgotos clandestinos. Segundo o biólogo Paulo Roberto dos Santos, da Fundação Superintendência Estadual de Rios e Lagoas – SERLA, órgão estadual que gerencia a estação, o sistema é automatizado e tem capacidade para tratar 300 litros de esgoto por segundo e funciona em um regime de 24 horas.
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| Alfredo Sirkis |
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| A tonalidade indica esgoto, nesse dia não havia refluxo provocado por maré alta... |
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Com as obras concluídas em 2002 e posta em operação no ano seguinte, 2003, a ETE está há 3 anos funcionamento. A estação é terceirizada. A DT Engenharia, empresa de São Paulo foi contratada pelo estado para operar o sistema. Paulo Roberto fiscaliza a operação da ETE. Ele explicou quais são os parâmetros técnicos do efluente. “Nós temos o pH, temos a turbidez, DBO, temos os coliformes totais que são aferidos diariamente”. “Recentemente inauguramos a NOC - Núcleo de Operação e Controle - e vamos fazer semanalmente, a partir de dezembro, o controle por monitoramento das estações do Rio Carioca e de São Conrado”, revelou o biólogo. O técnico da SERLA esclareceu também qual é padrão da água tratada pela estação. Segundo o órgão estadual a água tem que estar com oxigênio dissolvido em torno de 4 pontos, a turgidez girando em torno de 1, e o pH variando de 6,8 a 7. Esses foram os padrões estipulados no edital de implantação que devem ser obedecidos e mantidos.
O técnico da SERLA explica que a estação faz um tipo de filtragem de tudo que vem pelo rio. Isso faz com que a Baía de Guanabara seja guarnecida, protegida. Ele afirma que sem a ETE o grau de poluição na baía seria muito maior. O biólogo diz, “do que depende do tratamento do Carioca para atenuar a poluição da baía é feito com exatidão.” O representante estadual informou que a ETE faz um tratamento especificamente químico, por coagulação, aonde só pode trabalhar em tempo seco. “Se chover há o aumento da vazão e em determinado volume nós temos que interromper o funcionamento”, explicou Paulo.
Tempo de Chuva
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| Alfredo Sirkis |
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| Embaixo do deck, a jusante da ETE, há uma galeria pluvial que recebe esgoto. |
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Como cuidar do tratamento em tempo de chuva? Segundo os técnicos existe uma limitação quanto à capacidade, pois com a chuva há o aumento da vazão. Em tempo de chuva a estação pára de filtrar e o efluente do rio é liberado diretamente no mar, sem nenhum tipo de tratamento. Qual é razão desta limitação? Por que não construir uma estação com uma capacidade maior? Uma resposta para esta pergunta é dada pela questão custo/benefício. Para os técnicos do estado a cidade tem uma condição climática na qual vigora mais tempo seco do que chuva. No entanto quando chove persiste uma situação adversa. O escoamento da água de chuva traz muita sujeira e poluição e é preciso haver alguma solução.
Uma proposta aventada por alguns técnicos da DT Engenharia seria a duplicação ou triplicação da estação. Para isso seria necessário reprojetar um outro canal em paralelo para tratamento com vazão muito maior, com um volume em torno de 1000 ou 1400 l/seg. Este canal seria tipo “U” interligado ao canal já existente. Uma rápida projeção pega como exemplo a estação do rio Pinheiros na cidade de São Paulo, que tem capacidade de 10,000 l/seg. onde foram investidos aproximadamente 70 milhões de reais. Um outro exemplo é a ETE de São Conrado que custou 14 milhões reais para ser implantada.
De acordo com o estado, a poluição do Rio Carioca é causada por ligações clandestinas, já que o esgoto da região é jogado no emissário de Ipanema. Neste sentido questiona-se oque é mais eficaz durante o tempo de chuva o combate ao esgoto clandestino e/ou a expansão da ETE? Para Fátima Soares, chefe da divisão de qualidade da água da FEEMA, a condição de todas as praias piora quando chove. Nesta situação ela explica que há o carreamento de tudo para a área costeira. “É muito difícil tratar as praias em tempo de chuva”, observou Fátima. Para a representante da FEEMA a dificuldade se dá por conta do grande aumento da vazão dos rios. Para ela é preciso haver um trabalho nas galerias pluviais. Além disso, Fátima Soares lembra o valor da ação preventiva, que segundo ela a CEDAE já vem fazendo. Fátima também concorda que é fundamental incrementar o combate ao esgoto clandestino, “é mais eficaz do que a triplicação da ETE”, afirmou a técnica.
Esgoto Clandestino
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| Alfredo Sirkis |
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| Saída da ETE do rio Carioca. |
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Na avaliação dos técnicos, o Carioca deixou de um ser rio e virou na prática um depositário de esgoto. Um exemplo gritante de agressão ambiental foi a recente descoberta de uma ligação clandestina na foz do rio. No inicio da operação da estação a qualidade da água tratada foi avaliada pela FEEMA. Os técnicos se surpreenderam ao verificar a água tratada recolhida no mar se encontrava contaminada. Após exaustiva investigação descobriram que havia uma ligação na desembocadura do rio que sujava toda que acabava de ser limpa. Hoje, a ligação foi fechada pela CEDAE. No entanto o combate às ligações clandestinas carece de um amplo levantamento e de uma política de repressão efetiva.
Não há um mapeamento das ligações clandestinas. A Companhia de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro - CEDAE informa que atua no combate aos esgotos clandestinos de acordo o recebimento de denuncias e vistorias. Vale ressaltar que a empresa informou que recebe um número pequeno de denúncias.
A CEDAE alega que normalmente as ligações são feitas na rede pluvial e que esta é de responsabilidade da prefeitura do Rio. Segundo a empresa o município é quem deveria tomar as providências para reprimir estas irregularidades, pois elas acontecem na sua rede.
Neste ponto reside o conflito e falta de articulação entre as duas esferas de poder. A prefeitura, através da Secretaria Municipal de Obras - SMO, rebate a questão. A SMO alega que a rede da CEDAE está sucateada, é insuficiente e não dá vazão a demanda. Ao verificar que em tempo seco uma galeria pluvial está em deságüe com esgoto, a prefeitura comunica a CEDAE a procedência da irregularidade para que a empresa proceda com a regularização. O município afirma que não tem atribuição de operar a rede de esgoto e que esta é do estado. Temos aí um impasse no qual quem perde é o carioca, o rio e o povo.
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| Alfredo Sirkis |
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| Um dos prédios da ETE do Rio Carioca. |
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Os engenheiros da estação avaliam que é preciso fazer um levantamento que identifique de onde vem às ligações que se aproveitam das galerias pluviais. Os técnicos observam que também é necessário que sejam construídos canais próprios para o esgotamento diferentes das redes pluviais. Esta solução exigiria a interligação com a rede de esgota atual.
Segundo Fátima Soares da FEEMA o combate ao esgoto clandestino deve levar em conta a favelização e a ocupação desordenada da cidade. No caso do rio Carioca a nascente já sofre por conta de ligações oriundas de comunidades em áreas favelizadas. No caso das comunidades contempladas pelo programa Favela-Bairro, o município faz a implantação da rede esgoto e da rede pluvial. Hoje é possível vislumbrar uma melhoria nesta situação, pois a Prefeitura assinou com o futuro Governador um acordo que prevê o repasse da gestão de esgoto nas favelas para a administração municipal.
Reaproveitamento da Água
A estação do Rio Carioca produz água doce tratada. Esta água é balneável e pode ser reutilizada como forma de economia para serviços em que se utiliza água potável, como irrigação, limpeza, entre outras opções. Um exemplo é o projeto Pomar na capital paulista que nas pequenas estações dos rios Tietê e Pinheiros faz o reaproveitamento da água tratada com a criação de Carpas.
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| Alfredo Sirkis |
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| Estará funcionando a contento? |
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Um outro uso também pode ser dado ao lodo - sujeira retirada da água durante o processo de tratamento. Este material pode ser utilizado como biomassa na produção de combustíveis renováveis. É preciso articular o quanto antes uma política de sustentabilidade para as ETE´s. Para Fátima Soares a reutilização da água é muito importante. Ela relata que é uma política ambiental desenvolvida em muitos países, no entanto, ressalva que é um processo caro de investimento alto.