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Alfredo Sirkis - RJ
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Aquarelas deturpadas.
Aparentemente emboçar e pintar fachadas de edificações de tijolo aparente, em favelas do Rio, se dá sob o signo da Lei de Murphy. Nesse artigo de 1995 conto as minhas agruras na Chacara do Céu.

Alfredo Sirkis

Ma que bene trovato: secretário ecologista do prefeitura maluquinha é tão verdão que quer pintar todas as favelas do Rio de Janeiro de verde para camuflá-las, simulando florestas. Pequeno detalhe: non é vero .Mas e daí? Que importam os meros fatos diante de tão suculenta versão? Afinal não somos o Le Monde nem New York Times.Sequer a Folha de São Paulo com seu ombudsman. Habemus factóide! Um “projeto polêmico” deste que o JB ama de paixão: profusão de cartas de leitores,notas cheias de veneno de colunistas sentenciosos, tititi pela cidade, panos pras mangas. “A Versão” flutua como o balão da Pepsi no firmamento..

É que estamos fornecendo cimento para emboço e tintas para os moradores da Chácara do Céu, no morro dos Dois Irmãos, que queiram --ninguém é obrigado-- pintar suas casas de tojolo aparente na cor de sua própria escolha.Por enquanto, a idéia é promover o projeto apenas na Chacara do Céu.Mas isto evidentemente não é notícia, pois good new is no news. Trata-se de um desdobramento do projeto projeto Mutirão Reflorestamento no qual um grupo de moradores (um encarregado de obra,escolhido em assembléia geral, e doze serventes) foi treinado e é remunerado para reflorestar o vizinho morro Dois Irmãos,durante cinco anos, sob a orientação de engenheiros florestais da Secretaria de Meio Ambiente. Na mesma área a Secretaria de Habitação já promovia um mutirão saneamento para a implantação de rede de esgoto. É uma comunidade antiga,bem organizada que auto-regula o crescimento, não permitindo novas edificações, condição sine qua non para a implantação do projeto Mutirão.

A evolução positiva do trabalho de reflorestamento --já temos um hectare e meio plantado-- levou-nos a ampliar o Mutirão com dois agentes de limpeza que estão começando a recolher o lixo nas portas das casas. Para junho, está prevista uma grande operação com a COM:LURB para a retirada de algumas toneladas de lixo, depositadas, durante muito, anos num terreno particular do outro lado do muro, limite da favela.Essa área, completamente degradada, e visível da orla,será recuperada com tratamento paisagístico.Foi neste contexto,que surgiu a idéia de ampliar o mutirão para o emboço e a pintura das casas em oito tons de aquarela: azul celeste,vermelho cardeal,rosa,pêssego,amarelo claro,branco e verde amazônia.A Secretaria vai prover o cimento,as tintas e a orientação de arquitetos a comunidade entra a mão de obra.

De que maneira esse singelo “Aquarelas do Rio” se transformou no suculento factóide nonsense da camuflagem-verde-compulsória-de-todas-favelas-pela-maluca-prefeitura? O texto da matéria original reporter nem dizia isso, se fizermos leitura atenta, mas a edição da matéria naquele cacoete jornalístico do se-não-for-polêmico-não-interessa induz o leitor apressado a pensar que a Prefeitura quer pintar todas as favelas de verde para camuflar a miséria. O título,uma ilustração o “nariz de cera” e a chamada de primeira página centram na “camuflagem verde” das favelas.Ficou mais uma vez confirmado que muitos leitores,mesmo formadores de opinião, não lêem com cuidado a notícia, prevalece a manchete e a ilustração.Um prato para um ombudsman caso houvesse.(Proponho o Zuenir Ventura)

Factoide II,a missão: o Prefeito César Maia, que sequer conhecia o projeto foi perguntado sobre que achava de pinturar tudo de verde. Respondeu com uma das suas famosas boutades à la César: Prefiro branco Mediterrâneo ? Pronto. Agora já tinham um racha cromático-ideológico na Prefeitura. Foi a bola de neve da vez: os colunistas deitam e rolam criticando esta abjeta e inócua maquiagem da miséria. Por que não pintar os mendigos??? Um programa de rádio,de grande audiência repercute o, folcloriza, pautando outras rádios.Colunistas e radialistas,sem assunto naquele dia, passaram a ter.

E coisa fica francamente hilário-kafkiana quando dá no Jô Soares e depois nada menos que no Fantástico. Minha filha volta da escola e pergunta: Papai tu ficou maluco, que negocio é esse de pintar as favelas todas de verde ? Ainda não estou maluco,minha filha,respondo.Ainda não...apesar dos dementidos e retificações (JB 14/4) a Revista de Domingo promove uma “pesquisa de domingo” perguntando que as pessoas acham desse Sirkis querer obrigar os favelados a pintarem suas casas de verde! Olivia Byington,Tonia Carrero e Erasmo Carlos,são chamados a opinar.A primeira até se propoe a jogar um balde de tinta na minha cabeça. Aí acontece o mais insólito inesperado um montão de gente das favelas começa a apoiar a idéia na forma do factóide, não do fato, dizendo que claro que sim, vão todas pintar suas casas de verde, a cor da natureza e prá dar força para esse secretario Sirkis, um porreta. Dizem até o Robertinho de Lucas aproveitou para mandar pintar as de Parada de Lucas todas de verde garrafa para confundir a polícia.Acabei tendo que me empenhar para convencer a galera da Chacara do Céu que pelo amor de Deus, não era para pintar tudo de verde senão ia ficar feio prá xuxú...Aquarelas, é obvio, significa pluralidade de cores.Aí retificaram os tiros.Tá centro então se não é camuflagem verde, é uma maquiagem da miséria.

Qualquer pessoa que mora numa favela sabe que a casa com emboço e pintada representa uma melhoria não só de aparência como de higiene e conforto em relação ao tijolo nú.Fica mais protegida dos insetos,do calor e do frio.É bom para a comunidade,é bonito para a Cidade.Se der certo naquela comunidade vamos propor para outras, sempre obedecendo ao mesmo critério:favelas onde já está sendo feito todo um trabalho de saneamento,reflorestamento e coleta do lixo,onde a comunidade tem uma associação de moradores idônea e representativa e onde existe o compromisso de não desmatar autoregulando o crescimento e não construindo nenhuma casa nova sobre a área verde.Ali não há miséria ou mendigos a serem pintados, como pretende certo colunista, mas uma pobreza digna,trabalhadora, pessoas que desejam qualificar seu ambiente,melhorar de vida.O elementar (comida,água,saneamento,lixo,luz e contenção da erosão) já foi ou está sendo conquistado.As Aquarelas entrem como um complemento, um toque de bom gosto, bom para a autoestima da comunidade em cima e da Cidade embaixo.

Mas quem disse que isso lhes é permitido na cultura jornalística vigente? Apesar do aparente consenso bem pensante sobre urbanização de favelas, sua incorporação à Cidade e transformação em bairros, como única forma de promover a cidadania e ajudar a se contrapor à criminalidade, há por trás de algumas dessas críticas e alfinetadas jocosas um certo preconceito elitista, que desconhece a realidade das favelados negando-lhes qualquer aspiração estética ou cultural mais refinada. Como se a pobreza tivesse que ser sublinhada pelo feio. Como se os moradores deste tipo de comunidade não tivessem o direito à beleza,à cor, à aquarela e devessem ser condenados ao tijolo aparente, para inclusive parecerem mais pobres do que realmente são. Só que a gente não quer só comida.Quer comida,diversão e arte.


 
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