Américo – Sirkis, vamos começar então com as origens, não é? Você é carioca, não é?
Sirkis – Sou carioca, criado no Flamengo, educado na British School, depois no Anglo-Americano, no Andrews e, finalmente, no Colégio de Aplicação. Na minha infância e adolescência sempre morei no Flamengo.
Américo – Fale-nos um pouco sobre a história dos seus pais.
Sirkis – Meus pais, Eugênio e Liliana, são imigrantes poloneses, judeus, que se conheceram aqui no Brasil, em 1948. Meu pai, que faleceu em 2002, lutou na Segunda Guerra Mundial, no exército polonês, na frente oriental, como major da divisão polonesa Tadeus Kostiusko, que operava dentro do exército soviético do marechal Zukow. e chegou até Berlim. Com o fim da guerra voltou para a Polônia e, logo, fugiu do comunismo, para o Brasil. Minha mãe morava numa região oriental da Polônia, a cidade de Pinsk que hoje pertence à Bielorússia e que foi ocupada pelos soviéticos, no início da guerra, sob a égide do famoso pacto Molotov-Von Ribentropp de partilha da Polônia, entre a Alemanha nazista e a União Soviética. Meu avô materno, Alfred Binenstok, era oficial polonês e foi assassinado no massacre da floresta de Katyn, quando 13 mil oficias poloneses, prisioneiros, foram executados por ordens de Stalin e Beria. Mamãe, vovó Vera e tia Janete foram deportadas para a Sibéria, o que, na verdade, acabou salvando-lhes a vida porque, mais tarde, quando os nazistas invadiram Pinsk, onde 70% população da população era judaica, mataram todos os judeus. A deportação para a Sibéria salvou minha mãe, avó e tia. Há males que vêm para o bem...
Américo – É, exatamente.
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| Eugenio Herman e Lila, imigrantes poloneses que se conheceram no Rio. |
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Sirkis – Em 1945 voltaram à Polônia mas aí depararam-se com a persistência do anti-semitismo, apesar do socialismo. Mamãe, que era uma pessoa de esquerda mas viu que não havia lugar para elas na Polônia stalinista e emigrou junto com a mãe e a irmã. Passou pela Suécia e depois veio para o Brasil.
Américo – Ela tinha parentes no Brasil?
Sirkis – Tinha, tinha uma tia, Roma, irmã do meu avô.
Américo – E seu pai também tinha parentes aqui?
Sirkis – A minha vó paterna, Rosa Poznanska e minha tia avó Irene Perkal, já estavam no Brasil desde antes da guerra. Meus pais se conheceram aqui. Ela era costureira na Maison Colette, que pertencia a minha tia avó Irene. Meu pai, quando chegou, foi trabalhar como mecânico. Conheceram-se na Colette. Eu nasci em 1950, ano em que nós perdemos a Copa do Mundo para o Uruguai...mas isso foi antes de eu nascer, em dezembro.
Américo – Quais eram as atividades profissionais do seu pai?
Sirkis – Chegaram pobres. Meu pai trabalhou como mecânico e depois de vendedor de rolamentos de esfera na SKF, minha mãe era costureira, da minha tia-avó na Maison Colette, que hoje é dela e virou Maison Liliane. Quando nasci morávamos em um conjugado na Senador Vergueiro. Depois melhoraram de vida e nos mudamos para a Marques de Abrantes. Mas, curiosamente, naquela época, mesmo uma classe média apertada como esse casal de imigrantes tinha condições de pagar um bom colégio particular para o filho. Hoje seria impensável alguém como eu estudar no British School onde fiz jardim de infância e o primário, não é? Passei um ano no Anglo-Americano e depois fui para o Andrews, que era considerado também um bom colégio, onde fiz o admissão e o ginásio. Terminei a minha vida escolar no Colégio de Aplicação. Fiz exame para o Aplicação em 1967, passei em
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| Infancia na praia de Copacabana. |
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segundo lugar. Fui motivo de enorme orgulho para o meu pai, mas, alguns meses, mais tarde razão de um enorme arrependimento...
Américo – Ele não imaginava o que seria depois.
Sirkis – É... minha promissora vida de estudos encerrou-se, abruptamente, no dia 13 de dezembro de 1968, dia do Ato Institucional no 5, quando eu saí do movimento estudantil secundarista direto para a clandestinidade, depois de ter passado os anos de 67 e 68 em passeatas e reuniões “subversivas”.
Américo – Mas era uma família de esquerda? Sua família era uma família de esquerda?
Sirkis – Meu pai era um homem de direita e apoiava a ditadura. Minha mãe sempre foi de esquerda moderada, social-democrata. Meu pai e eu éramos lacerdistas, antes do golpe de 64. Ela não. Com 13 anos, eu gostava do Lacerda. Depois, quando o Lacerda se voltou contra os militares, papai ficou do lado dos generais, e eu, por um tempo, do lado do Lacerda. Não me conformava que tivessem abolido as eleições previstas para 1965. Depois, no Colégio de Aplicação, me aproximei da esquerda. Acabei trocando o retrato do John Kennedy pelo do Che Guevara. Era um colégio de 350 alunos dos quais pelo menos uns 200 acabaram fichados por subversão. Era um educandário de elite, do ponto de vista intelectual, com um exame de seleção dificílimo, professores de altíssimo nível, métodos de educação moderninhos e um contato estreito dos alunos com os universitários da então Faculdade Nacional de Filosofia, da UFRJ, os quartanistas, os chamado licenciandos que se “aplicavam”, treinavam, dando-nos aulas.. Para isso existia o Colégio de Aplicação.
Imagine o coquetel explosivo, naquele contexto político: o MEC nomeou uma diretora, super autoritária, a Irene Estevão de Carvalho, que tinha como missão expressa “erradicar a subversão” do colégio. Proibiu nosso jornal A Forja, fechou o Grêmio Odilo Costa Neto. Tivemos lá uma das maiores greves estudantis do ano de 1967 no Rio de Janeiro. Foi a iniciação.
Américo – Mas você chegou a participar de alguma célula?
Sirkis – Haviam grupos de estudo. No Aplicação a gente basicamente era trabalhado por um pessoal que veio depois a constituir dois grupúsculos “foquistas” meio curiosos que eram a DDD –parece inseticida mas significava Dissidência da Dissidência do PCB, ou Dissidência de São Paulo-- o outro era o NML, um tal Núcleo Marxista-Leninista uma racha da AP(Ação Popular) Mais tarde essas duas organizações se fundiram com a COLINA(Comandos de Libertação Nacional), de Minas, e depois formaram, junto com a VPR(Vanguarda Popular Revolucionária), a Var-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares) a qual logo se dividiu em um novo racha que fez surgir a nova VPR.
Mas, nessa época do Aplicação, eu sabia, vagamente, que existiam as tais “outras instâncias” mas ignorava detalhes de que grupo era aquele. O recrutamento que havia no colégio era via os tais grupos de estudo. O primeiro livro era sempre a História da Riqueza do Homem, do Leo Huberman, depois se passava para o Manifesto Comunista, do Marx, aí depois para o Salário, preço e lucro; Trabalho assalariado e capital, e aí, logo depois, para nosso deslumbramento e excitação, Guerra de Guerrilhas do Guevara e a Revolução da Revolução de Regis Debray, o teórico do foco guerrilheiro.
Américo – O aluno já estava formado.
Sirkis – Aí estava formado.
Américo – E então, depois do AI-5, você caiu na clandestinidade.
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| Foto de Sirkis de 1969, na clandestinidade. |
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Sirkis Atuava na AMES, era coordenador do Grêmio Livre do Aplicação –uma espécie de grêmio semi-clandestino-- e tinha sido fichado pelo DOPS que tinha alcagüetes no colégio. Então, quando veio o AI-5, soube que estava sendo procurado pelo DOPS e me escondi. Em 1969, a gente trabalhou numa estrutura chamada COSEC, a Comissão Secundarista, que fazia trabalho político, de infiltração --digamos assim, para usar o jargão do outro lado-- nas escolas secundaristas. Eu fui deslocado para o França Júnior, na Penha, para fazer um trabalho lá de mobilização – eles acharam que nós tínhamos que nos “proletarizar”, e a forma de fazer isso era estudar num colégio de subúrbio (na verdade, não menos classe média...) Por outro lado nosso grupo começava a ter também uma iniciação paramilitar. A gente ia para um sítio, treinava tiro, fabricação de coquetel molotov, esse tipo de coisa. No início de 70, aí sim, aí ingressamos na Vanguarda Popular Revolucionária, VPR. Meu contato era o Carlos Minc, amigo do Aplicação, e ele me convenceu de que a linha da VPR era mais revolucionária que a da VAR Palmares. Logo depois ele foi preso e aí eu ingressei na VPR que, na época, tinha acabado de sofrer várias baixas. Nós, secundaristas, formamos um novo comando da VPR, o Severino Viana, para poder continuar, dar continuidade à organização. Em 1970, já havia muita tortura, as organizações estavam sendo desmanteladas, com crescente rapidez, a ascensão dentro das organizações era vertiginosa. Em meses, um garoto de 19 anos, podia subir na hierarquia da organização, até virar dirigente...
Américo Que ações você participou naquele momento?
Sirkis Minha primeira ação foi nada menos que o seqüestro do embaixador da Alemanha, Erenfreid von Holleben Fui a pessoa que ficou com ele, conversando, sendo tradutor e dando assistência direta. Foi uma ação também rápida, se resolveu tudo em quatro ou cinco dias. Foram soltos 40 presos políticos, inclusive o Minc e o Angelo Pezzuti, a Maria do Carmo Brito, uma série de amigos saíram. O Gabeira, a Vera Sílvia, que eram do MR-8, saíram. Até o início de 1971 ainda participei de várias ações, inclusive do seqüestro do embaixador da Suíça que já foi bem mais complicado: foram 40 dias que nós ficamos juntos no aparelho, junto com o Carlos Lamarca que comandou essa operação.
Depois a VPR entrou em crise tivemos fortes lutas internas, percebi que aquilo não ida dar certo e que caminhamos para a destruição. Saí do Brasil. Fui para o exílio em maio de 71, oito dias antes do desmantelamento final do nosso grupo, do Comando Juarez de Brito, aqui no Rio. Eu saí no dia 5 e os restantes , meu amigo Alex Polari e outros, foram presos no dia 13.
O único que sobrou foi o Herbert Daniel que acabou completamente sozinho, o último moicano.
Américo – Como foi a sua saída do país?
Sirkis – Eu saí com um passaporte com o meu próprio nome, porque, embora eu tivesse entrado na clandestinidade, em dezembro 68, eu era procurado como uma pessoa do movimento estudantil, não me ligavam ainda à luta armada. A repressão sabia da existência de um guerrilheiro louro, alto, chamado “Felipe”, mas eles não conseguiam fazer a associação comigo. Então, foi tão simples quanto isso: minha mãe tirou o passaporte para mim, deu uma grana para o delegado da Polícia Federal, conseguiu um passaporte e eu pude sair pelo Galeão, junto com um simpatizante nosso, o Antonio Paulo Ferraz, irmão do Hélio Ferraz e do Buza. Fomos para Buenos Aires e daí, de trem, para Mendoza. Atravessamos a cordilheira, dos Andes, conhecemos a neve, chegamos em Santiago do Chile. No Chile eu fiquei um tempo e depois fui para a Europa.
Américo – Você esteve no Chile na época do governo de Salvador Allende?
Sirkis – Durante o governo Allende eu fui duas vezes ao Chile : a primeira, essa, em 71, quando fiquei uns dois meses. Depois fui morar em Paris. Meu primeiro emprego foi no Libération, na época dirigido pelo Jean-Paul Sartre – era um jornal maoísta, ele era formalmente diretor do jornal, aparecia de vez em quando. A linha jornalística era "donner la parole au peuple" dar a palavra ao povo. Nada desse negócio do jornalista ficar escrevendo as coisas dele, tínhamos que ser um canal de expressão dos operários e camponeses, o que era um conceito curioso de aplicação problemática... O Sartre, ia de vez em quanto à redação. Aparecia por lá, já estava quase cego... e sempre cercado de mocinhas atenciosas... Nunca cheguei a conversar direito com ele, até porque ele ficava o tempo todo rodeado com aquele séqüito e eu era tímido. Mas conversei bastante com Simone de Bouvoir, mais acessível, se interessava muito pelo Brasil. Também badalava por lá o Bernard-Henri Lévy, na época filósofo da gauche prolétarienne. Eu tinha um amigo que era o diretor do Libération, o primeiro diretor, o Jean-Claude Vernier, casado com a brasileira, a Cleusa, ou Cleo. O Serge July, que tornou-se, depois, o grande diretor do jornal era, naquele momento, apenas um dos redatores. Naquele Olimpo ideológico eu me senti em êxtase...
Me lembrei agora da história do Lucio Flávio Rigueira, vulgo Tocha –Tocha Humana-- um companheiro nosso, no mictório do La Rotonde. Olhou e viu aquele senhor baixinho ao seu lado, balançando o respectivo. Ele se perfilou e solenemente disse: "É uma honra estar mijando do seu lado, senhor Sartre!" (risos)
Américo – E quando você voltou ao Chile?
Sirkis – Em 73 fui trabalhar na Suécia para ganhar dinheiro para poder voltar para o Chile, porque eu achava que ia salvar o Allende... Analisei que iríamos ter uma guerra civil e eu precisava estar no Chile para lutar nas Brigadas Internacionais, tipo aquelas da Guerra Civil espanhola, que, fatalmente, iriam se constituir. Oficialmente ia lá como enviado especial do Libération, só que eles não tinham dinheiro para pagar minha passagem. Fui trabalhar em Estocolmo como estivador. Ganhei uma boa grana, peguei um avião e fui para o Chile. Cheguei no dia 10 de agosto de 1973, um mês antes do golpe militar. No dia 11 de setembro veio o golpe. Os militares dominaram muito rapidamente a situação, foi aquele massacre e uma campanha fortíssima contra os estrangeiros, com convocatórias a todo o momento pelo rádio e pela televisão incitando à delação. Um terror.
Américo – Você se exilou em alguma embaixada?
Sirkis – Não, eu não fui para embaixada. Como eu tinha chegado fazia pouco tempo e ainda tinha um visto de turista resolvi me arriscar e não ir para a embaixada. Vários amigos foram para embaixadas mas eu resolvi tentar a minha sorte no aeroporto. Primeiro, fiquei num hotel no centro, depois escondido na casa de uma mulher de direita, do Partido Nacional, mas que era amiga de um amigo que achou que eu era um pobre coitado, turista, não tinha idéia de quem eu era. Então eu consegui esperar até que abrissem as fronteiras. No dia 21 abriram as fronteiras e no dia 22 eu fui, na “cara de pau”, para o aeroporto de Pudahuel com um passaporte no meu nome – apesar de ser procuradíssimo no Brasil e saber que vinha gente do Cenimar e do SNI lá para prender os brasileiros. Mas na época não existia computador, eram listas de papel. Fui para o aeroporto apostando na desorganização deles e realmente passei. Peguei um avião da Suissair para Buenos Aires. Cheguei em Buenos Aires junto com o João Belizário de Souza, o Janjão, ele tinha contatos em Buenos Aires. Conto essa história no meu livro Roleta Chilena.
Nós chegamos, os carregadores do aeroporto de Ezeiza eram montoneros levaram a gente para um “aparelho” em Ciudad de Evita. No mesmo dia, os montoneros mataram o secretário-geral da CGT, o José Ignacio Rucci. Foi uma comoção na Argentina, uma dessas brigas internas, sangrentas, do movimento peronista. Ainda tive oportunidade de assistir a eleição do Perón, a posse do Perón, o governo do Perón, a morte do Perón e os primeiros meses do governo da Isabelita. Depois a coisa ficou indigesta demais. A chamada Triple A e outros grupos para-policiais começaram a seqüestrar e assassinar também brasileiros e uruguaios. Naquele momento, tinha acabado de estourar a Revolução dos Cravos em Portugal, aí pensei: "Opa! É para lá!" Peguei um avião pela rota do Pacífico – porque a gente não podia pegar o avião pela rota do Atlântico porque senão, imagina, se o avião tivesse uma pane técnica e fizesse escala no Galeão, ia ser complicado –, peguei um avião via Lima, Caracas e fui lá para Lisboa.
Américo Quer dizer que você também pôde acompanhar os desdobramentos da Revolução dos Cravos em Portugal?
Sirkis Exatamente. Em Lisboa logo me liguei o Movimento de Esquerda Socialista(MES) e ficamos lá, os brasileiros ensinando revolução para os portugueses, tentando ver se em algum lugar essa nossa revolução iria finalmente emplacar. Lá parecia que ia acontecer, porque a esquerda tinha base militar, o Movimento das Forças Armadas(MFA). Houve aquele período de delirante radicalização, uma confusão descomunal: um quartel controlado por essa facção, de ultra-esquerda, aquele pela outra, armas prá cacete circulando fora de controle. Em qualquer outro país do mundo que tivesse rolado um décimo do caos armado de Portugal, naquela época, daria uma guerra civil de uns 10 mil mortos, no mínimo. Mas, em Portugal, terrinha de brandos costumes, traumatizada pela guerra colonial, eles conseguiram, de alguma forma, que aquilo não degenerasse numa matança hedionda. Acabou que o setor mais moderado do MFA, -- que, nós, idiotamente, considerávamos de direita-- o Melo Antunes e o Ramalho Eanes, dominaram a situação e abriram caminho para a consolidação democrática, para as eleições livres, descartando a “ditadura do proletariado” que nós e nossos amigo radicais portugueses, propugnávamos. O Mário Soares venceu as eleições. Foi uma grande campanha eleitoral. O slogan deles era: "A Europa conosco", lembro bem...
Depois de todas aquelas tragédias Portugal foi a nossa farsa, não é? Depois do Brasil, do Chile, da Argentina, essa farsa, rocambolesca, bufa, que foi a atuação da extrema-esquerda, em Portugal. No 25 de novembro, de 1975, o pessoal do Melo Antunes e do Ramalho Eanes conseguiu controlar a situação militar, mobilizando uma unidade de elite, os Comandos da Amadora, do coronel Jaime Neves, que sem dar um tiro, só na moral, foram neutralizando e desarmando, uma a uma, aquelas unidades militares mais ligadas à extrema esquerda. Fiquei absolutamente convencido de que eu ia ser preso, torturado e assassinado mas fiquei tão deprimido, depois de tantas derrotas, que, simplesmente, permaneci em casa, recusei-me a fugir.
Passaram-se dois dias, uma semana, nada. Ninguém veio nos prender. Simplesmente não se interessaram por nós... O vexame foi melhor conselheiro que as tragédias anteriores. Fomos curados do ultraesquerdismo pelo ridículo...
Américo – Depois de tudo isso, você continuou em Portugal?
Sirkis – Eu continuei lá e comecei a trabalhar na imprensa portuguesa, escrevi em praticamente todos os jornais e revistas portuguesas: o Expresso, Jornal Novo, Diário de Lisboa, Diário Poular, A Gazeta da Semana. Fui editor internacional do Página Um e diretor de redação da edição portuguesa dos Cadernos do Terceiro Mundo.
Américo – Como foram seus contatos com o Brizola, em Portugal?
Sirkis – O Brizola chegou lá em fins de 1977. Ele congregou uma boa parte dos exilados em torno da proposta de se criar um PTB socialista, ligado à Internacional Socialista. Nessa época já tínhamos boas relações com o Partido Socialista Português do Mário Soares. Tinham perdoado a gente por todas bobagens fizemos por lá no início do processo, que não foram poucas. Foram de uma generosidade muito grande, o Mário e a turma do PS. E nós fizemos a ponte inicial entre o Brizola e o pessoal do Partido Socialista e a própria Internacional Socialista. O engraçado é que o Brizola, muito rapidamente, se enturmou com a social-democracia européia, apesar de só falar português e espanhol. Conseguiu seduzir o Willy Brandt, que se apaixonou, à primeira vista, por ele, e, a partir dali, François Mitterand, o Olaf Palme, o Felipe Gonzáles...
Foi uma fase em que nós realmente estivemos muito próximos.
Américo – Naquele momento, o projeto era formar um eixo político em torno da criação de um PS no Brasil.
Sirkis – Era a hipótese de um partido socialista no Brasil, sob a sigla do novo PTB. Mas aí aconteceram três coisas que inviabilizaram esse processo: em primeiro lugar, o Brizola, quando chegou no Brasil, mudou de comportamento ao apostar na relação direta entre o líder popular, o caudilho, e as massas. Foi cercado pela chamada "turma da maçaneta", os bajuladores, os puxa-sacos. Além disso, ele perdeu a sigla para a Ivete Vargas, criou o PDT e o partido se constituiu numa estrutura muito tradicional. Era muito difícil alguém da geração de 68 se enquadrar naquele esquema populista.
Américo – A hegemonia do antigo PTB, de membros do antigo PTB.
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| Com Carlos Minc e Brizola no Encontro de Lisboa. |
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Sirkis – Havia uma diferença comportamental, de modo de ser, entre “nós” e “eles”. Aquela questão do verticalismo que se estabelecia, a relação tradicional, do caudilho com as massas. Então eu me afastei, em 1980, embora sempre tenha mantido uma relação muito cordial com o Brizola. Eu acho que devo ter sido um dos poucos que se afastou do velho Briza sem um conflito maior, sem ressentimentos. Fiquei assim: a meia distância...
Américo – Você voltou em 1979 com a anistia?
Sirkis Voltei com a anistia, no dia 14 de dezembro de 1979.
Américo – E quanto à criação de um Partido Verde. Nesse momento, você já pensava nisso?
Sirkis – Não. Quer dizer, nos aproximamos dos movimentos ambientalistas pacifistas e antinucleares na Europa. Lá pelo ano de 78, viramos ecologistas. Mas, na época, havia só um Partido Verde, que eram Die Grünen, os verdes alemães. No Brasil, entre 79 a 85, as pessoas que mais tarde vieram a fundar o Partido Verde: eu, o Fernando Gabeira, o Minc, o Liszt Vieira passaram um bom tempo pensando que era mais importante o verde em vários partidos do que o Partido Verde. Só lá para 85, quando se percebeu que dentro dos vários partidos não havia espaço suficiente, optamos por fundar o PV. Mas essa dicotomia entre Partido Verde ou o verde em vários partidos, continua atual até hoje.
Américo – E você chegou a se aproximar do PT nessa época? O pessoal de 68 estava lá...
Sirkis – Não todos. Sempre tive reservas, era o menos entusiasmado com o PT de todo nosso grupo de amigos. Até esbocei uma aproximação, mas, comecei a pensar, em 84, 85, que o melhor era criar logo um Partido Verde...
Américo – Mas reservas em que sentido, Sirkis? O caráter obreirista do PT naquele momento?
Sirkis – Sempre me incomodou um certo o sectarismo, uma certa arrogância, aquela noção herdada da esquerda tradicional de que eram “o” partido do proletariado e quem não estivesse com eles tinha algu tipo de “desvio”. Eram pouco sensíveis à questão ecológica e às questões comportamentais que discutíamos. Não me identificava com os sindicalistas, nem com o pessoal de Igreja, nem com a extrema esquerda. Esses eram os componentes formadores do PT.
Américo – Nessa época os verdes já governavam algumas cidades na Alemanha?
Sirkis – Não, ainda. Os verdes não tinham chegado nem na cláusula de barreira da Alemanha, ainda estavam abaixo de 5% do total dos votos. E a curiosidade é que o que os fez fortes na Alemanha é que os verdes da Alemanha são o PT e o PV juntos. Então, na Alemanha eles foram, sobretudo nessa primeira fase, uma unificação entre a esquerda alemã propriamente dita e os ambientalistas.
Américo – E sobre a criação do PV no Brasil?
Sirkis Durante muito tempo, só existia o PV alemão. Aqui no Brasil a gente formou a partir do dia 17 de janeiro de 86, no Teatro Clara Nunes. Foi primeiro ato do PV enquanto tal, estávamos na mesa do palco do teatro o Gabeira, eu, o Minc, o Guido Gelli, John Neschling, Lucélia Santos, Liszt Vieira, Luiz Alberto Py e o Herbert Daniel.
Américo – Que momentos marcaram o início do PV?
Sirkis – Bom, tivemos a campanha Gabeira Governador pela coligação PT-PV em 86, que foi uma campanha memorável...
Américo – Foi naquele momento que a sigla começou a ganhar expressão?
Sirkis – Na verdade, que ganhou mais com aquele processo foi o PT. Foi o início da reciclagem e a abertura de um espaço de crescimento para o PT que aproveitou aquilo muito melhor do que o PV. O PT começou a crescer, e vertiginosamente, a partir de 89, enquanto que o PV não cresceu tanto assim como partido. Suas idéias vem ganhando muito espaço, parte delas acabou assimilada pela grande mídia, por boa parte da classe média e do empresariado. Mas o partido enquanto tal não cresceu na proporção da consagração de parte das suas idéias. Depois, tivemos a campanha de 88, em que eu fui candidato pela primeira vez, a vereador. Fui o vereador mais votado do Rio de Janeiro.
Américo – Como foi a campanha?
Sirkis Criou-se a Frente Rio, a frente PV, PSB e PCB, e sem candidato a prefeito – eu, naquela eleição votei no Bittar, do PT. Fui muito bem votado, com 43 mil votos, fora os que foram roubados, porque era papel, era cédulas de papel, e a gente não tinha um bom esquema de fiscalização. A eleição foi uma loucura mas um grupo bom se elegeu naquela Frente Rio: o Milani, a Russa e o Sérgio Cabral, pai. A Frente Rio teve mais votos do que o PT para vereador naquela eleição.
Américo – Como foi ser um vereador verde na Câmara Municipal? Quais eram os seus projetos? Você ficou muito isolado?
Sirkis – A legislatura de 88 a 92 foi interessante, coincidia com um processo constituinte local, a Lei Orgânica Municipal e o Plano Diretor Decenal. Se compararmos com as legislaturas posteriores podemos concluir que da lá para cá a Câmara piorou muitíssimo.
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| Bosque da Freguesia, Jacarepaguá, resistência e depois resolução de conflito. |
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Fui o relator do capítulo de meio ambiente, tanto da Lei Orgânica Municipal quanto do Plano Diretor, e consegui estabelecer as grandes linhas da legislação ambiental do município do Rio de Janeiro, criar diversas áreas de proteção ambiental (APAs), salvar determinadas áreas preciosas. O caso mais famoso foi o da Prainha. Na Prainha, fizemos um movimento, com os surfistas, contra a possibilidade de construção de três edifícios e consegui aprovar um projeto de Lei, que foi promulgado pelo Marcello Alencar. Consegui criar a APA da Prainha, a APA de Marapendi --por decreto do Marcello-- também impedindo que a especulação imobiliária ocupasse pesadamente a restinga – imagina que eles queriam construir prédios de até 30 andares na restinga. Depois, a criação do parque municipal no Bosque da Freguesia, em Jacarepaguá, foi uma luta super interessante, elaborei o projeto que preservou o bosque, e depois algumas outras APAs em outras áreas, como a das Brisas, em Guaratiba.
Outra lei, mais prosaica que fiz, mas que me fez muito feliz foi ter dado a Medalha Pedro Ernesto para o Dalai Lama, durante a conferência Rio 92.
Américo – Você chegou a participar da elaboração, na Lei Orgânica, de questões relativas à questão urbanística?
Sirkis – Eu tinha uma participação ativa nas questões urbanísticas, mas, na época, era mais de tipo defensivo, não tinha muito conhecimento sobre o assunto, não tinha uma reflexão, um pensamento sobre a questão urbanística, naquele momento. Atuava no âmbito estritamente ambiental e o urbanismo me interessava apenas na medida da proteção de áreas verdes contra as investidas da construção civil. Não via ainda a cidade, em si, como esse ecossistema complexo que é. Não via ainda a Cidade nem como natureza transformada. Isso veio depois.
Américo – E sobre a questão dos transportes na Lei Orgânica?
Sirkis – A questão dos transportes foi a única na qual não se conseguimos avançar. Naquela legislatura nós aprovamos muita coisa que, eventualmente, pudesse contrariar interesses de setores da construção civil, mas as empresas de ônibus eram invulneráveis porque o lobby deles lá dentro era fortíssimo. Tem aquela caixinha dentro da Câmara, aquele mensalão, a muito tempo. Na época, éramos 18 vereadores que não entravam nesse jogo. Já havia uma predominância numérica da turma dos “negócios” mas nada comparado com o que veio a acontecer nas legislaturas seguintes. Entre 89-92, éramos uma minoria forte que conseguia vitórias em todos os campos, menos esse das empresas de ônibus.
Discutimos muitas coisas muito substanciais, legislávamos muito. Havia vereadores de expressão, inclusive intelectual, grandes conhecedores da cidade. Mestres. Foi um privilégio, por exemplo, ter convivido com o Maurício Azedo que é meio maluco, brigávamos muito, mas que mestre da cidade! Um tribuno, com posições freqüentemente divergentes das minhas, mas, ao mesmo tempo, uma figura fundamental lá dentro. O Sérgio Cabral, o pai, com aquela dimensão humana fantástica, um grande amigo lá dentro, um carioca cordial, com a cultura profunda da cidade. E havia outros vereadores, interessantes o Francisco Milani...
Américo – Hoje em dia, predomina o vereador voltado para uma área da cidade – o vereador “distrital”. Na sua época, isso já era comum?
Sirkis – Você já tinha os “distritais” e, entre eles, aqueles mais heavy metal e alguns que apenas comunitários, assistencialistas, mas não faziam parte dos “esquemões”. Por outro lado você tinha um setor “ideológico” ou “programático”, significativo. Quase todos eram de esquerda mas havia um de extrema-direita, o Wilson Leite Passos, ideologicamente, assumido como de direita e havia, debate, polêmica, conteúdo. Na tribuna debatíamos também questões nacionais e internacionais. Houve aquele fenômeno curioso, a Regina Gordilho, uma farsa política, na qual todos nós embarcamos.
Américo – Salvo engano, a Regina Gordilho chegou inclusive à presidência da Casa.
Sirkis – É, alcançou à presidência, com aquele discurso muito moralista, de fazer da anticorrupção uma bandeira – uma coisa tipo o Collor – na verdade se praticaram certos excessos em nome daquilo, no fundo um jogo de cena, pois ela não tinha aqueles valores. Eu tendo a não apreciar muito políticos que fazem carreira em cima de “fulano lava mais branco". Desconfio dos paladinos da anti-corrupção. Ao longo do tempo nunca vi nenhum deles chegar a um saldo final de realizações positivo. Muita onda na mídia, mas depois, com o distanciamento histórico, percebe-se que aquilo não deu em nada, não deixou nada. A questão da honestidade é inata à pessoa. Também é uma obrigação do homem público, não um atrativo, um chamariz eleitoral. A pessoa tende a ser honesta se ela tem uma certa concepção de vida e valores que não colocam o dinheiro, o consumismo, a posse de bens materiais, como o objetivo maior da existência, quando ela possui um espírito de solidariedade, respeito pela coisa pública, pelo setor público, pelo o que se pode fazer a partir da representação, se ela tem idealismo, projetos realizações, sonhos. São características existenciais, intelectuais, culturais e de dignidade interior que fazem que a pessoa simplesmente não se interesse pelas sacanagens que rolam ali.
Mas isso é um modo de ser, espontâneo, não é um atributo notável a ser explorado, nem um programa político, em si, nem uma bandeira de luta. Os paladinos anti-corrupção tem vôo curto, e tendem a virar alvo de revelações, escândalos. E não conseguem ter uma ação real, eficaz, no sentido de sanar essas mazelas da política brasileira, que têm que ser superadas pelo avanço das instituições, pelo aprimoramento do serviço público, pela transparência, pela participação mais consciente das pessoas.
Finalmente, tem uma outra coisa que aprendi: os fisiológicos, os corruptos, não enganam seus eleitores, ao contrário do que nós, ingênuos de esquerda, na época, pensávamos. Eles são eleitos por pessoas que sabem exatamente quem eles são e o que eles fazem e que partem do princípio de que todos os políticos são ladrões, tudo é igual, que qualquer um que estiver lá vai fazer a mesma coisa, e então votam naquela pessoa pensam poder aportar alguma coisa para o seu bairro ou para sua família ou para si próprio etc... Aquela idéia de que: "eles enganam o povo" é tola. Enganam nada, as pessoas votam conscientemente , porque descrêem que a representação possa ser diferente e porque são fisiológicas também, no fundo, compartilham desses valores. Usam o centro assistencial do vereador, querem a dentadura, percebem que foi ele que trouxe o tapa buraco ou a luminária, tem esperança de conseguir emprego, um “pistolão”...
Bem, voltando à Câmara, nas eleições de 92, de 96, de 2000 e 2004 esse processo se aprofundou, reduziu-se drasticamente o número de vereadores programáticos, temáticos ou ideológicos...
Américo – De opinião pública, não é?
Sirkis – De opinião pública. Praticamente desapareceram. Passaram a predominar os vereadores ou com base num voto assistencial, distrital-territorial, corporativo, religioso.
Américo – A que você atribui isso?
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| Alfredo Sirkis |
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| Entregando a Medalha Pedro Ernesto ao Dalai Lama, no Maracananzinho, em 1992. |
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Sirkis – A democracia, como diz o Churchill, é o pior dos sistemas, com exceção de todos os outros. Então, não é anômalo esse processo. O país sai de um período autoritário, logo nas primeiras eleições existe um grande entusiasmo, uma sede de participação, depois a democracia vai se tornando banal, corriqueira, vai se normalizando, vai se mediocrizando, e pouco a pouco a qualidade da representação cai e os interesses mais corporativos e imediatos começam a predominar. O que eu noto, em termos da representação, especificamente da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, é uma tremenda queda na qualidade, sob todos os ângulos: ético, intelectual etc.
Américo – Tudo leva a crer que a Câmara Municipal não se interessa em participar do debate público.
Sirkis – O que acontece é que a função do vereador passou a ser a de um agenciador de obras, ou de favores, ou de trâmites, junto ao Executivo. Um pouco a idéia de que você renuncia a ter um papel nos grandes debates da cidade, renuncia à elaboração legislativa de olho no bem público, a passa a legislar em benefício de clientelas específicas, não é? Então, vamos votar autonomia para todos os taxistas auxiliares, mesmo que a cidade fique super saturada; vamos votar para liberar as barraquinhas de cachorro-quente; ou vamos votar para liberar os ônibus de alguma coisa que sejam obrigados. E acontece um outro mecanismo que é muito sensível que é o seguinte: é como se dá a questão da continuidade do mandato. Então, a continuidade do mandato, ela depende, cada vez mais, de um trabalho assistencial direto que o vereador faça com a sua clientela. O vereador de opinião é extremamente vulnerável, o de clientela, não.
Américo – Seu centro social...
Sirkis – É, o seu centro social. A maioria dos vereadores têm esses centros sociais que garantem um reduto, uma clientela para a auto-reprodução do mandato. Pode sair o diabo no jornal ou na TV a respeito do sujeito, de suas falcatruas, mas os beneficiados continuarão votando nele. É tão simples quanto isso. Sua única preocupação é poder manter logisticamente essa estrutura que não é nada barata, daí a dependência em relação à corrupção. Votar coisas de interesse de clientelas econômicas específicas...
Américo – E a respeito das relações do Legislativo com o Executivo? .
Sirkis – A relação do Legislativo com o Executivo têm dois problemas: o da subserviência por um lado e, por outro lado, o da oposição sistemática para marcar posição, por outro. São dois extremos negativos na postura da Câmara. No executivo existem também dois tipos de postura que me parecem ruins: o de querer montar o “rolo compressor” com base concessão de posições vitais aos fisiologistas dentro do executivo --isso é fortíssimo no governo do Estado onde deputados nomeiam para as inspetorias de fazenda, comandos de batalhão da PM e delegacias de polícia-- ou uma postura totalmente distante, olímpica, que não se preocupa com o processo legislativo, apenas com a aprovação do orçamento...
continuação: II Parte: a experiência na prefeitura 93-96 e 2001-2006