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Alfredo Sirkis - RJ
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Rememorando o Silicone XXI
Silicone XXI, romance policial futurista publicado por Sirkis, em 1986, suscita o interesse de uma pesquisadora que prepara uma tese. Eis a entrevista em que Sirkis rememora seu roman noir futurista.

entrevista a Sandra Cardoso.

1. Como surgiu a idéia de se criar um romance envolvendo a cidade do Rio de Janeiro?

Foi um pouco depois de ter visto pela primeira vez o Blade Runner. Um cult dos anos 80, dirigido por Ridley Scott, baseado em uma novela futrista de Phillip Dick. Tentei imaginar o Rio em 2019, o ano em que está ambientado o filme que se passa em Los Angeles.

2. Seu romance teve alguma influência de outro autor?

Não li o romance de Dick. Fui influenciado pelo filme, certamente. E por muito outros. Na época um crítico paulista escreveu que o livro era cheio de clichês. Justamente, isso foi proposital. Pensei num roman noir futurista (não uma ficção científica), com humor e ironia, algumas alusões políticas em cima de clichês do gênero. Uma leitura fácil, rápida. Era a proposta deliberada. A critica paulista me crucificou por não ter tentado escrever o grande romance brasileiro... Em relação ao vilão ter uma prótese peniana inflável me basei em um artigo do Gabriel Garcia Marques, reproduzido no Pasquim, sobre elas. Corria o ano de 85 e estavamos ainda muito longe do Viagra...

3. Percebe-se que não é um romance apenas voltado para os problemas do Rio de Janeiro no decorrer do ano de 1980, mas que se abre para vários outros campos como a questão da identidade, da sexualidade vista como poder e o entrelaçamento de várias culturas. Então, qual seria a proposta teórica do romance?

Desculpe, não havia proposta teórica propriamente dita, há certas alusões políticas (o personagem Estroncio Luz é baseado no general Newton Cruz), um pouco de futurologia político institucional e futurologia urbanística. Nesse sentido pensei no Rio, sim.

4. Compreendemos na interpretação de seu livro uma aproximação da literarura com a ciência e a tecnologia. Poderia nos falar sobre essa aproximação?

Como disse, não foi uma proposta de ficção científica mas um livro policial (meio sátira, meio ação) ambientado no futuro. Não é a mesma coisa!

5. Seu romance se adequa ao gênero de ficção científica. Quando o senhor ecreveu, foi proposital a adequação ao gênero?

Insisto, não é ficção científica mas roman noir futurista. Há uma diferença sutil porem consistente entre estes dois gêneros literários.

6. Qual a função do título ao qual o senhor chamou de 'Silicone XXI'?

Silicone era uma alusão à protese peniana do vilão. XXI ao século XXI ainda por vir. Soava bizarro, era o efeito que eu buscava.

7. Ao ler, na abertura de seu livro o poema "O fim das coisas", de Augusto dos Anjos, eu lhe pediria que falasse um pouco sobre esse poema, que me parece estar relacionado ao romance.

Olha, essas coisas são menos reflexivas do que parecem, Me deparei com o poema achei que poderia servir de epígrafe, tão simples quanto isso.

8. Como o senhor justifica o uso da expressão"érobo" localizado no capítulo 8, página 33?

É um robô erótico.

9. Segundo o romance, o personagem Estrôncio Luz relaciona o implante de silicone com o poder. Para o senhor, qual é a relação estabelecida?

Bem aí é uma óbvia alusão ao machismo fascistóide do vilão, um homófobo com claras tendências homoeróticas aprisionadas no armário e transmutadas em violência homófoba. Um paranóico que por medo de ficar impotente preventivamente instalou a protese peniana. Passou a ter controle total, mecânico, sobre sua sexualidade.

10. A pesquisadora Maria Elizabeth Ginway em "Ficção Científica Brasileira" (2005), fez algumas manifestações sobre seu livro, que o considerou um exemplo de ficção científica "tupinipunk". o senhor poderia comentar sobre essa consideração entre o livro e o subgênero tupinipunk?

Não faço idéia... Já expliquei por que não acho que seja ficção científica embora contenha certas alusões a engenhocas tecnógicas do futuro. Repito que era um roman noir futurista, despretecioso e que queria conscientemente trabalhar sobre clichês.

11. Como o senhor foi interpretado pela crítica ao publicar "Silicone XXI"?

O José Calife, ele sim um ecritor sério de ficção científica --o que eu não era-- fez uma resenha correta, acho que foi no JB. Entendeu minha proposta, sobretudo no tocante ao humor. Dois críticos da imprensa paulista, o Leminski, na Folha de ßão Paulo, e o Luis Felipe Moisés, no Estadão, esculhambaram o livro de forma extremamente agressiva, o segundo, inclusive, me atacando pessoalmente.

No caso do Lemiski, por despeito, penso. Tinha acabado de publicar um livro de ficção científica que fora um rotundo fracaso. Era ruim porque não tinha história alguma, não tinha tensão dramática nem fluencia narrativa, era um exercício de estilo muito bem escrito de um grande poeta mas não tinha história. O meu não tinha nem de longe o virtuosismo do seu texto mas era uma historia gostosa de ler, descompromissadamente, o que era minha proposta. Fique p... de vida com ele e recusei seu cumprimento tempos depois quando nos encontramos, por acaso, num bar, no Rio. Me arrependi muito do meu comportamento por que logo depois ele morreu.

O Mosés foi mais pessoal não consigo entender porque pois nem me conhecia. Sua resenha é foi muito mais uma desqualificação minha como escritor (e ex-guerrilheiro) do que uma resenha. Foi ele que ressaltou em tom indignado os clichês. Simplesmente não entendeu que isso era exatamente a proposta.

O chato foi que essas resenhas sairam antes do livro chegar nas livrarias, uns 15 dias antes, e inibiram sua distribuição em SP. A Rede Siciliano cancelou uma compra grande que exporia bem o livro nas vitrines e a Record desistiu de fazer a chamada "promoção carro chefe".

O livro vendeu uma edição e foi republicado pelo Circulo do Livro, mas ficou aquém do que eu esperava e isso interrompeu minha carreira como escritor naquele momento em que vinha escrevendo um livro por ano. Passei a escrever roteiros de TV e cinema e, em 88, ingresse em política institucional, não tive mais tempo para parar 6 meses para escrever um livro a não ser ensaios como Ecologia Urbana e Poder Local.


12. O senhor considera que o século XX tenha sido o século das maiores.catástrofes da humanidade? E o refúgio seria na literatura para se esquecer do que se passou?

Até agora foi, com certeza. Espero que o XXI não o supere. Quando à segunda pergunta, de forma alguma! A literatura nunca é feita para esquecer. Pelo contrário, ela existe para lembrar.


Algumas ilustrações do Silicone XXI , feitas por Al Voss.


























 
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