topo
 
 
Blog de Alfredo Sirkis - RJ
Tamanho da Letra:  -A  +A

Lembrando o encontro de Lisboa e Leonel Brizola.
Há 30 anos, participei de uma evento histórico: O Encontro de Lisboa, que teve a sua frente um titã da história latino-americana, desses que não se fabricam mais: Leonel Brizola.

Alfredo Sirkis

Leonel Brizola, Alfredo Sirkis e Carlos Minc no Encontro de Lisboa

Fazem 30 anos do Encontro de Lisboa, convocado por Leonel Brizola, no final do exílio para lançar as bases de relançamento do PTB como um partido socialista moderno, alinhado com a Internacional Socialista. Eram tempos de grandes esperanças na anistia por vir, na volta dos exilados, na redemocratização e no fim do regime militar. Em flashes de memória, já mastigados pelo tempo, lembro-me dele, de Darcy Ribeiro, de Waldir Pires, Nadir Rosseti, Pedro Celso, Neiva Moreira, do velho e fiel Conturssi e, naturalmente no nosso grupo de ex-guerrilheiros que já estavam em Lisboa quando Brizola chegou em 78 e, que na época se aliavam a ele, para recriar a partir da raiz trabalhista, um novo partido socialista: Flávio Tavares, Moema Santiago, Carlos Minc, Carlos Fayal, Almir Duton e vários outros.

Foram dias febris de discursos e catarses, depois de um tão longo silêncio. Logo depois, na volta ao Brasil, por uma manobra do general Golberi do Couto e Silva, Brizola perderia o registro do renovado PTB para Ivete Vargas e teria que criar o PDT, o que lhe custou muita dor. Seu estilo de liderança de Lisboa, conversar muito, ouvir muito, buscar o consenso naquilo que denominava um "cabildo aberto", acabou mudando para uma postura mais verticalista, aqui o líder popular reencontrou uma massa incondicional e mudou seu estilo de liderança.

Brizola, o duelista de titãs, em tempos em que não há mais titãs! A biografia política de Brizola foi vítima de um timing histórico adverso. Fabricado para ser presidente, com a têmpera dos grande líderes populistas latino-americanos, jamais o foi embora, por muito tempo, se acreditasse predestinado. Para quase todo mundo também o pareceu, em algum momento, mas, a presidência da república não o culminar de uma carreira política, mas, precisamente, do destino. E o dele, afinal não foi esse. Ironias da história: quem diria, à partida que Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique ou Lula seriam presidentes, não Brizola?

Como muitas figuras históricas, Brizola era uma coleção de paradoxos. Pouco dado a leituras --as más línguas garantiam que só havia lido a biografia de Julio de Castilhos-- tinha uma cultura histórica oral impressionante, e tinha um conhecimento invejável da nossa história. Apesar de falar apenas o espanhol conseguiu comunicar-se às mil maravilhas e seduzir instantanea e permanente homens como Willy Brandt, François Mitterand, Olaf Palme e, o amigo de sempre, Mario Soares. Não gostava do legislativo, tinha preferência por cargos executivos, mas, uma vez lá, sofria de forte inapetência em relação a gestão do dia a dia. No primeiro governo com a presença de auxiliares como César Maia, Jaime Lerner, Darcy Ribeiro conseguiu sair-se tão bem quanto o governo de um estado artificial como o Rio de Janeiro, permitiria. No segundo, essa inapetência tornou-se um fardo, bem como seu proverbial apetite para brigas de cachorro grande: TV Globo, todos os presidentes, praticamente todas as principais lideranças políticas do país.

Na política, praticamente só cultivava três tipos de relação: os subordinados, necessariamente fieis; os adversários e os aliados táticos. As duas últimas categorias alternava-se rapidamente. Brizola não era homem de alianças duradouras. Não havia aliado que não pudesse, num piscar de olhos, cair na alça de mira de suas diatribes demolidoras. Poucos adversários, no entanto, não poderiam eventualmente passar por uma (momentânea) reabilitação. Pouco sensível a sutilezas e detalhes, Brizola tinha, no entanto, uma visão precisa do big picture(o grande quadro). Seus diagnósticos eram ferozmente precisos, embora suas soluções muitas vezes impossíveis ou portadores de problemas maiores. Tinha, no entanto a capacidade que apenas uns poucos tem de antecipar o curso da história.

Nunca vou me esquecer de uma viagem que fizemos a Sesimbra, na costa portuguesa. Brizola buscava um hotel para ficar com a família e, levei-o no meu Peugeot verde para procurá-lo. Passamos o dia juntos, demos um mergulho na praia. Falávamos da guerra fria e, repentinamente, Brizola disse duas coisas, com total convicção, que, naquele momento, me pareceram –e lhe disse, de forma educada-- completamente absurdas e delirantes. Corria o ano de 1978, quando ele prognosticou, com inabalável certeza, o desmoronamento da URSS e a reunificação da Alemanha, que só ocorreram mais de uma década mais tarde. Naquela época, pos-Vietnam, estávamos no auge do poderio militar soviético, com os movimentos de libertação avançando na África, e a revolução sandinista em, marcha, a estagflação, nos Estados Unidos e a hegemonia econômica do Japão tida como certa. Não passava pela cabeça de nenhum analista internacional a possibilidade de uma reunificação da Alemanha ou do colapso da URSS. Antes de qualquer outro líder político, Brizola diagnosticou a sinuca de bico que seria para o Brasil a globalização e a hegemonia dita neo-liberal. Referia-se às “nossas perdas internacionais”. Identificou a problemática, mas não tinha a solucionática. Ninguém tem, ainda. Corretamente definiu a educação como “x” do nosso problema social, construiu muitos CIEPS, mas, a educação estadual, secundária, hoje, continua sem render os frutos então esperados.

O papel mais digno que a história poder-lhe-ia reservar teria sido a Presidência da República em regime parlamentarista --logo ele, tão fortemente presidencialista. Certamente, encarnaria o papel de chefe de Estado e pai da Pátria, no cenário internacional, com uma maestria inigualável. Mas perigava infernizar a vida dos pobres primeiro-ministros...A fase final de sua carreira política não foi muito feliz pois, a força de romper com todos seus seguidores, a medida em que iam criando vôo próprio, para o bem ou para o mal, terminou um tanto solitário.

Mas, jamais abatido, jamais derrotado, sempre firme como o penhasco, o velho Briza. Irredutível.

Poucos dias antes, o reencontro de Brizola com Arraes, em Lisboa.
Encontro de Brizola com François Mitterand, em Paris. Sirkis ao fundo.














Comício pró-anistia, em Lisboa: Jean Marc, Artur Poerner, entre outros.
No mesmo comício, Augusto Boal e Thiago de Mello.


 
Total: 51   | 1 a 10 |   «   »
08/08/2012 - 13:41
Negacionismo climático: o desmoronamento.
Blog de Alfredo Sirkis - RJ
09/10/2009 - 10:13
Minhas aventuras no dia mundial sem carro.
Blog de Alfredo Sirkis - RJ
21/08/2009 - 00:10
Savings potential scales new heights
Blog de Alfredo Sirkis - RJ
02/07/2009 - 14:44
Pequeno produtor tem apoio para exportar para a Europa
Blog de Alfredo Sirkis - RJ
15/02/2009 - 10:38
Um perigo iminente: cerveja com garrafas PET.
Blog de Alfredo Sirkis - RJ
26/01/2009 - 17:35
De olho nas árvores.
Blog de Alfredo Sirkis - RJ
05/12/2008 - 18:34
Vinte anos sem Chico Mendes
Blog de Alfredo Sirkis - RJ
12/09/2008 - 00:52
Jenin a paz de baixo para cima (do New York Times)
Blog de Alfredo Sirkis - RJ
20/04/2008 - 10:28
Marek Edelman: O último herói do levante do Gueto de Varsóvia (do Le Monde de 19/4)
Blog de Alfredo Sirkis - RJ
03/03/2008 - 18:50
INGRID LIVRE, FORA FARC FASCISTAS!
Blog de Alfredo Sirkis - RJ