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Alfredo Sirkis - RJ
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A cidade como um ecossistema.
O trecho inicial do meu livro Ecologia Urbana e Poder Local com conceito importante: a cidade vista como um complexo ecossistema. Para ver as fotos ampliadas clique sobre elas.

Alfredo Sirkis.

Alfredo Sirkis
Alfredo Sirkis
Para muitos a cidade aparece como uma criação humana fora da natureza.

Nos acostumamos a pensar na cidade como criação humana totalmente separada do ambiente natural e a ele imposta. Nossa cultura carrega o mito de um confronto permanente do ser humano com uma natureza hostil: ameaças de tempestades ou estiagens, calor escaldante ou frio de rachar, maremotos, terremotos ou simplesmente mosquitos, forças da natureza contra as quais a civilização se defende com suas armas de concreto, asfalto e eletricidade.

Domar a natureza é o primeiro entendimento que temos de um processo de urbanização. O próprio visual de uma ocupação urbanística do ambiente natural lembra metáforas guerreiras: os tratores, as britadeiras e a dinamite são os tanques, morteiros e metralhadoras dos exércitos da construção civil. Essa relação de conflito e submissão entre a cidade e seu berço natural povoa o senso comum. No entanto, se conserguimos refletir melhor, percebemos que a cidade não constitui algo tão separado da natureza. A criação do homem interage incessantemente, para o bem ou para o mal, com o ambiente natural que a rodeia e a envolve.

No ambiente construído, a natureza não chega a desaparecer; permanece à vista e não está apenas nas árvores e áreas verdes das ruas, das praças, dos parques, dos jardins e até mesmo dos terrenos baldios. Está no ar, nas águas dos rios, canais e lagoas; está na fauna, nos insetos e nos microrganismos que convivem conosco no ambiente urbano. As nossas construções são assentadas sobre uma geologia específica, que tem influência sobre tudo o que vai acontecer com elas e os seres humanos que as habitam. Os materiais utilizados nelas (areia, terra, rocha, pedras, mármore, concreto, asfalto) pertenceram ao entorno natural.

Na verdade, a cidade é uma criação humana sobre e dentro da natureza. Foto de Hong Kong.

Sua extração tem certas conseqüências, da mesma forma que o modo como o homem os utiliza, dando forma aos projetos arquitetônicos. A impermeabilização do solo, as concentrações de edifícios, os desmatamentos em encostas ou margens de rios, o assoreamento e a retificação ou canalização de rios são ações que afetam o ambiente natural de uma determinada maneira. Se a ação do homem tende ao desequilíbrio, o ambiente natural certamente reage, trazendo efeitos inesperados para o ambiente construído e seus ocupantes: inundações, secas, microclimas adversos, erosão, desabamentos, enchentes, voçorocas, ambientes internos insalubres.

A urbanização é um fato irreversível em praticamente todo o planeta. No início do século XX apenas 10% da humanidade residiam em áreas urbanas; hoje, metade, mais de três bilhões, vive em cidades. Existem 19 megacidades, das quais 15 localizadas nos países ditos em desenvolvimento, com uma população acima de 10 milhões de habitantes. Essa evolução, por si só, já faz da ecologia urbana um tema fundamental. Nos primórdios do movimento ambientalista havia correntes que levantavam a tese de uma inviabilidade estrutural das cidades tidas como irreparavelmente ingovernáveis. Atualmente, poucos ecologistas vislumbram seu próprio futuro e o da humanidade fora de um contexto urbano. Os ambientalistas cuja ação, desde meados dos anos 1970, privilegiara questões globais, como as florestas, a camada de ozônio ou as mudanças climáticas, envolvem-se, cada vez mais, de forma prática e teórica, com os variados desafios que abrangem as cidades e sua sustentabilidade.

Interagindo constantemente com ela. Foto do Bronx, na borda de NYC.

Jane Jacobs, veterana jornalista, urbanista e militante comunitária americana, que escreveu o extraordinário Death and Life of Great American Cities (aqui Morte e Vida das Grandes Cidades, ed. Martins Fontes), tem uma outra obra, menos conhecida, The Economy of Cities, onde desenvolve uma tese revolucionária: ao contrário do que aprendemos na escola, os assentamentos humanos precederam e não sucederam o surgimento das primeiras culturas agrícolas. Segundo ela, os primórdios da urbanização se relacionam com o processamento de produtos da caça e do extrativismo.

Assentamentos humanos precederam tanto a agricultura como a pecuária. Ela identifica cidades primordiais, com cerca de 2.000 habitantes, 8.500 anos antes de Cristo.


“[…]não foi a agricultura, em que pese toda a sua importância que foi a mais relevante invenção ou ocorrência da era neolítica. Foi o advento de uma economia citadina, sustentável, interdependente e criativa que tornou possível novas formas de trabalho, entre elas a agricultura.”


A tese é, naturalmente, polêmica. De qualquer forma, se as origens remotas da urbe são ainda discutidas, o futuro não deixa margem a muitas dúvidas: a grande maioria da humanidade residirá nas cidades. Precisaremos mais que simplesmente “esverdeá-las”, torná-las sustentáveis do ponto de vista ecológico, econômico, social e energético.
Por muito tempo as relações entre o ambiente natural e o construído foram vistas sob o prisma do conflito. Mundos separados, até certo ponto contrapostos, um servindo de pano de fundo ou jardim ao outro. A idéia da separação, do confronto, da subjugação do ambiente natural diante da vontade criadora e construtora foi uma constante. Na ótica marxista, que influenciou tantos urbanistas no século XX, “a contradição entre o homem e a natureza” precedia e sucederia aquela entre as “classes sociais”. Mesmo as correntes de arquitetos que aparentemente valorizavam os espaços verdes não conseguiam perceber que a cidade de concreto, asfalto e vidro, na verdade, não constituía um ente separado da natureza, mas natureza transformada, um novo ecossistema integrado, modificado, diferente do ambiente natural, mas não fora dele, não imune aos seus ciclos, dinâmicas e reações. A planificadora ambiental americana Anne Whiston Spirn assim descreve essa relação sutil e delicada entre o ambiente natural e o construído:

“A natureza é um todo contínuo, com o ambiente selvagem num pólo e a cidade no outro. Um mesmo processo natural opera tanto no ambiente selvagem como na cidade. O ar, por mais poluído que esteja, é sempre uma mistura de gases e partículas em suspensão. Pavimentação e construção de pedra são sempre compostas por rocha e afetam a transmissão de calor ou o curso das águas exatamente como as superfícies de rocha expostas em qualquer lugar. As plantas, nativas ou exóticas, invariavelmente buscam a combinação de luz, água e ar para sobreviver. A cidade não é totalmente natural nem totalmente construída. Ela não é “desnatural”, mas a transformação da natureza “selvagem” pela humanidade para servir as suas próprias necessidades. […] A cidade precisa ser reconhecida como parte da natureza e desenhada de acordo com isso. A cidade, os subúrbios e a periferia rural precisam ser vistos como um único sistema evolutivo dentro da natureza, da mesma forma que, individualmente, todo parque ou edifício dentro do todo mais amplo. A natureza na cidade tem que ser cultivada, como um jardim, e não ignorada ou subjugada.”

As cidades são redes de contato humano e realização de desejos. Foto do Times Square, NYC.

Assimilar este conceito básico, de que a cidade faz parte da natureza, é o primeiro passo necessário ao gestor ambiental municipal, pois aí está o ponto de partida da sua atividade relacionada com a ecologia urbana. Uma edificação, ou o conjunto de edificações, precisa se moldar de forma harmônica e interagir convenientemente com seu entorno natural. Diversos aspectos devem ser analisados: local, materiais e formas apropriadas, ventilação, mínimo desperdício de energia, águas limpas e saneamento, gestão dos resíduos.

Desde cedo, na história da humanidade, algumas pessoas mais atentas ou estudiosas perceberam que certo tipo de intervenção é compatível com o meio ambiente e produz soluções apropriadas, fazendo com que a relação entre ambiente natural e ambiente construído tenda ao equilíbrio, enquanto outros tipos trazem conseqüências adversas. Em certas épocas e culturas, esta noção chegou a ser incorporada ao ambiente construído. Em outras, foi perdida. O exemplo mais extremado de adaptabilidade de uma construção à natureza é o iglu. Uma casa de gelo que protege o ser humano do frio parece totalmente inverossímil. No entanto, a casa dos esquimós é uma grande solução ecológica. As construções mouras e gregas no Mediterrâneo, a arquitetura tradicional do norte da Europa e a tenda nômade no deserto são outros exemplos.

A arquitetura colonial portuguesa também se adaptava bem às nossas condições climáticas. Era ao mesmo tempo simples e engenhosa, sobretudo quando comparada a certo lixo arquitetônico “modernoso”, que não consegue funcionar sem climatização e iluminação artificial, e que depende totalmente de um gasto desmedido de energia elétrica, criando ambientes internos insalubres, desagradáveis e depressivos

A cidade é também um ecossistema econômico, social, cultural e existencial que se expressa numa incessante teia de relações humanas e de trocas comerciais, culturais, funcionais e afetivas. É o palco de uma busca coletiva de satisfação, de felicidade.
Segundo o autor australiano David Engwicht, que citamos na epígrafe, as cidades

A mistura de usos e a vida da calçada são elementos urbanos fundamentais. Foto de Buenos Aires.

"foram inventadas para facilitar a troca de informação, amizade, bens materiais, cultura, conhecimentos, instituições, técnicas e apoio emocional, psicológico e espiritual. Essa troca é mais difícil se as pessoas ficam espalhadas pela área rural e não têm acesso a essa troca de oportunidades. É por isso que construímos cidades. Cidades são a concentração de gente e estruturas que possibilita a mútua troca minimizando a demanda de viagem. As pessoas desejam acesso a essa rica diversidade de trocas de oportunidades para sua sobrevivência e crescimento como seres humanos. As cidades são o reconhecimento de que para desenvolver nossas plenas potencialidades necessitamos daquilo que outras pessoas nos podem dar. Cidade é um ecossistema criado pelas pessoas para sua mútua realização[…] As cidades são, ainda, o reconhecimento de que, se estamos destinados a crescer para realizar nosso potencial pleno, precisamos daquilo que os outros podem nos dar. A cidade é, conseqüentemente, um ecossistema, tal qual uma floresta tropical: tudo está relacionado e é interdependente”.

A resposta ecológica aos problemas das cidades não está em escapar delas, mas em “esverdeá-las”, encarando-as como ecossistemas doentes, que precisam ser reequilibrados. Para tanto é necessário estabelecer uma relação de respeito entre o espaço construído e seu berço natural, desenvolver a urbanização ou a reurbanização de modo a eliminar conflitos com a natureza e fazer da cidade um espaço democrático, ecumênico, plural, de rica diversidade humana, onde possam se realizar ao máximo os anseios e os sonhos de seus habitantes e um desenvolvimento sustentável que traga benefícios para todos.


A atividade humana interage com a natureza transformada das cidades. Foto de Buenos Aires.
A cidade é uma combinação única do ambiente natural e do construído. Foto do Rio de Janeiro.


 
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