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Alfredo Sirkis - RJ
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Diálogo farpado com Chico Alencar.
Chico Alencar deu-nos uma canelada numa coluna de O Globo. Respondemos quase delicadamente. Ele enviou esse email que também retrucamos. Pode haver denominador comum entre nós?

Alfredo Sirkis

O deputado Chico Alencar, do PSOL, chamou o PV de "partido de aluguel" o que segue uma recorrente postura sua de questionar moralmente os politicamente diferentes, procurando no entanto, manter sua imagem de bom-mocismo. Limitei-me a observar para a mesma coluna que ele se rebaixava já que se haviam aliado ao PV, em Porto Alegre. Embora, claro, naquela única modalidade de aliança que concebem: serem os apoiados. Atualmente, tenho ouvido do pessoal do PV de Porto Alegre que se arrependem daquela aliança que, no entanto, permite que Chico lhes conceda a abençoada condição de "progressistas". Na realidade, o PV de Porto Alegre é fraco e tem pouca expressão.

Lendo a carta de Chico, em detalhe e nas entrelinhas, notei que afinal talvez exista ali uma certa busca ainda que desajeitada de diálogo. Para tanto, é preciso respeitar o outro e a diferença. Isso é algo que a extrema-esquerda, classicamente, têm uma dificuldade enorme em fazer. Ela se acha ungida por uma ideologia superior. Também, é preciso saber reconhecer os próprios problemas e limites. O PV não tem tanta dificuldade de fazer isso pois, diferente do PSOL, não possui essa cultura de auto-glorificação, característica da esquerda clássica que a herdou da coisa religiosa.

De qualquer maneira, dialogar é sempre bom e reproduzo aqui nossa troca de emails.


Caro Sirkis : embora reconheça que não é oportuna a divergência pública que se estabeleceu, a partir da minha menção ao PV, não considero que "difamei" o partido ao dizer que ele "tem funcionado como legenda de aluguel". É que vejo aqui, no cotidiano da Câmara dos Deputados, parlamentares que são, claramente, apenas "inquilinos" da legenda, como Gabeira bem o sabe e já disse - e alguns até o "processam" por isso. Ao convidar Marina, li que vs buscam uma "refundação" e que as candidaturas indiscriminadas, em 2006, obedeceram a uma necessidade de superar a cláusula de barreira. A coligação PSOL/PV em Porto Alegre, ano passado, aprovada pela nossa convenção local, seguiu a definição nacional do PSOL para que, no pleito municipal, fossem consideradas as realidades locais, a partir de diretrizes programáticas, claro. O PV de Porto Alegre sempre teve posições progressistas, como algumas outras sessões, no "caleidoscópio ideológico" que é o partido. No plano nacional, reitero que não nos furtamos a dialogar, até pelo enorme respeito que a trajetória de Marina, sua provável nova filiada, merece, bem como a de vários de vocês . Mas nosso debate será sempre em torno de ideias e causas, e não do "tempo de tv" e outros pragmatismos que têm degenerado a política no Brasil. Você sabe bem que por esses critérios de "sopa de letrinhas", no horário eleitoral, tempo é dinheiro e a chantagem corre solta. O pequeno PSOL, como nosso II Congresso deste fim de semana vai confirmar, é flexível na tática, firme na estratégia e intransigente com certos princípios. Espero que essa "rusga" não impeça o diálogo político, que, por sinal, Marina e HH já desenvolvem, com grandeza.
O abraço do Chico A.



Caro Chico:

Não é uma boa maneira de abrir um diálogo ir logo acusando os interlocutores de "partido de aluguel". Como presidente do PV do Rio, evidentemente me sinto difamado. Até porque jamais me "aluguei". Depois de vinte anos de política institucional, tenho hoje o mesmo padrão de vida de classe média que a vinte anos quando ambos começamos e, minha motivação continua a ser, passar por essa vida e esse planeta dando uma contribuição para o bem, localmente e globalmente. Uma das coisas que limita muito nosso diálogo é a dificuldade que vocês têm de reconhecer que podemos ter visões diferentes da política, posições diferentes sobre alianças e avaliações distintas sobre como melhorar as coisas na sociedade brasileira sem, necessariamente, padecermos de algum desvio ideológico, ético ou moral tenebroso.

Há entre nossos dois pequenos partidos uma diferença fundamental de postura diante da política. Ela expressa dois caminhos que, de fato, se oferecem a forças minoritárias como as nossas. Vocês cultivam um isolamento altivo, acreditam ser os únicos que de fato sabem defender consequentemente o intesse público, os trabalhadores, a cidadania. A base de sua atuação é o protesto, a crítica, a mobilização de energias do "não". Adoram vaiar, gritar palavras de ordem hostis, e eventualmente, ocupar algum espaço na midia falando mal de alguém ou de alguma coisa. Não participam de nenhum governo e pouco transformam a realidade concreta, com raras e honradas exceções. Nos últimos anos, a única contribuição positiva que me recordo de alguém do PSOL, no Rio, --posso estar sendo injusto-- é a do deputado Marcelo Freixo, que, de fato, fez um belo trabalho em relação à segurança.

Não penso que esse papel de vocês seja inútil na sociedade brasileira. Há uma imensidão de coisas a serem criticadas. Mas, a gente tem que poder também transformar a vida real. Em relação à transformação do real essa política tende à soma zero. O PT soube praticá-la durante muito tempo para acumular forças até chegar ao poder. Depois passou ao total pragmatismo colocando os mecanismos tradicionais da política brasileira para trabalhar a seu favor. Nisso, reproduziu a triste trajetória histórica internacional da esquerda quando no poder. Vocês romperam com esse processo mas, simplesmente, recriaram, na essência, o PT pré-delubiano.

Nós temos uma visão política diferente. Em primeiro lugar, cultivamos um campo de hostilidade e de crítica menor. Nosso elenco de vilões é mais restrito e nosso campo de diálogo consideravelmente mais amplo. Por exemplo, não satanizamos o mundo empresarial. Para nós, empresário não é estruralmente mau na sua essência. Avaliamos as empresas pela qualidade ambiental e social de seus produtos, serviços e relações com a sociedade, não como padecendo de um pecado original de classe. Não fazemos essa dicotomia entre o estatal bom, e o privado ruim. Por outro lado, não temos vedações em relação a dialogar, ou até realizar acordos programáticos locais, com o que voces chamariam de "direita", ou seja, setores que acreditam mais que nós na auto regulação do mercado, ou defendem valores culturais conservadores. Se assumirmos que a democracia pressupõe pluralismo e alternância de poder, direita e esquerda, são ambas legítimas na sociedade. Não trabalhamos com a idéia de "eliminar", de algum modo, a direita mas de superá-la culturalmente, como recentemente nos EUA, com o fenômeno Obama.

Esse postura diferente do maniqueísmo ideológico que vocês cultivam possibilita estabelecer diálogos e até acordos programáticos que nos permitem ir, como força minoritária, emplacando, na realidade do dia a dia, muitas realizações concretas que podem melhorar a vida de cidades e de pessoas, fazer avançar nossas agendas ambiental, social ou cultural. Foi o que fiz, para horror de muitos de vocês, que me atacaram incessantemente, negando-me um mínimo sequer de boa fé, quando fui secretário municipal. É o que faz Eduardo Jorge, hoje em SP. Foi, para mim uma experiência de alto risco e, nos dois anos finais, de terrível convivência e angústia, mas ando pelo Rio e posso me orgulhar de muitas realizações. Tenho a sincera convicção de ter ajudado a melhorar diversas coisas na nossa cidade. É uma opção diferente daquela de privilegiar sempre o espaço crítico. Contêm riscos consideráveis quando se depende, como é o nosso caso, do sempre minguante voto de opinião. Mas, não é uma opção moralmente menos respeitável que a sua.

Outra coisa: vejo em vocês uma singular dificuldade em respeitar e tentar compreender a posição dos outros. Em geral, tendem a simplificá-la grosseiramente e reduzir problemas complexos a um simplismo assustador. Não procuram discutir as visões diferentes pelo que, de fato, são mas, distorcê-las para que caibam dentro de um universo muito primário, essencialmente paranóico, onde qualquer visão diferente é uma monstruosa conspiração contra o povo por parte dos seus traidores. Por exemplo: nós de fato aceditamos que a gestão pública, em algumas esferas, e dentro de certos limites, pode se dar via Organizaões Sociais, sem que por isso estejamos participando de nenhuma tentativa tenebrosa de destruir o serviço público. A postura extremamente sectária da junção de visões ideológicas de ultra-esquerda com interesses corporativos, esses no fundo, extemamente conservadores, acaba balizando limites de transformação do real muito estreitos e condicionando uma agenda negativa: podem eventualmente paralizar alguma coisa, não deixar fazer outra mas, raramente, trazem alguma solução para melhorar a vida de quem quer que seja.

Finalmente, em relação a composição do PV. Entendo perfeitamente o que você sente quando olha para boa parte de nossa bancada federal. Sinto o mesmo. Não concordo com você quando afirma que é um "partido de aluguel", pois sua direção e sua maioria se move por propósticos programáticos --nem tanto "idelógicos", mas isso é uma outra discussão: o que resta das ideológias-- e sua motivação central é idealista. Há no PV um componente da política tradicional brasileira: políticos que vieram se "abrigar" na "legenda" porque é "simpática" ou porque, frequentemente, é possível eleger-se no PV com menos votos que por partidos grandes. Esse problema se agravou tremendamente em 2006, sobretudo em SP e MG, e derivou, em grande medida, do pânico diante da "espada de Dâmocles" da cláusula de barreira, que, depois, caiu no STF. Isso, no entanto, não é o fator principal. O "x" do problema é o próprio sistema eleitoral que temos, do voto personalizado. É muito difícil, ao se passar do estágio grupuscular e começar a trabalhar a sociedade como ela é, numa escala maior, evitar sistematicamente essas pessoas que vêem na política uma carreira individual, uma profissão. Filtros podem ser criados, exclusões podem ser promovidas --é penoso fazê-las-- mas a verdade é que atuamos numa cultura política clientelista, engendrada por um sistema eleitoral que a reproduz incessantemente. É um problema que temos e que qualquer partido, a partir de uma certa escala, terá. Vide o PT! Por isso defendemos a reforma eleitoral com o voto por lista ou o distrital misto. Imagino que estejamos de acordo em relação a isso. De qualquer maneira, essas figuras não dão o tom do partido nem definem suas decisões. Não podem ser confundidas com o todo como voce fez.

É isso, Chico. Se você buscou, a sua maneira, o diálogo é como podemos fazer. De forma absolutamente sincera. De fato, por um lado gostaríamos de tê-los no processo histórico que estamos iniciando com a Marina --e que vai servir inclusive para alterar as coisas internamente no PV-- por outro lado, temos diferenças bastante importantes no campo programático e daquilo que classicamente chamaríamos de "ideológico". Temos diferenças de cultura e postura diante da política, da diferença, da tolerância, daquilo que pensamos ser o processo democrático. Por outro lado, se olharmos para o espectro político a nossa volta, para essa hegemonia persistente das oligarquias, do clientelismo, do assistencialismo, do patrimonialismo, das diferentes formas de atraso cultural, econômico e social, para a agressão sistemática ao meio ambiente, o grau de violência que existe na sociedade, percebemos também que temos, pelo menos, importantes preocupações e alguns elementos programáticos em comum que justificam um diálogo.

Para tanto, o primeiro passo é nos respeitarmos mutuamente e reconhecermos o outro como diferente, não pior. Também, não sei se caneladas na grande mídia são a melhor forma de iniciar esse diálogo. Mas, não deixa de ser um início.


abraço

Sirkis


 
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