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Alfredo Sirkis - RJ
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Aquecimento global: entendendo o drama.
Algumas informações e análises para entender a questão globalmente. Entenda porque estamos perdendo a corrida contra o tempo e porque o fracasso em Copenhagen pode ser trágico para o planeta.

Alfredo Sirkis

1 – O quadro planetário: fim do paradigma de Kioto

Num cenário de inércia, que no jargão climático é chamado de business as usual ou BAU --bem poderíamos chamá-lo de bau-bau!--, as emissões globais de GEE, no planeta, poderão passar das 45 giga-toneladas(Gt – bilhão de toneladas) de CO2 equivalente, em 2005, para 50 Gt toneladas, em 2010 e para 70 Gt, em 2030. Atualmente (novembro de 2009), parece inevitável que o aquecimento global ultrapasse 450 ppm, cenário no qual, segundo o IPCC, haveria ainda uma chance de 50% de se manter o aumento da temperatura média do planeta nos 2 graus centígrados, que é o nível que seus dois mil cientistas consideram o limite máximo de segurança relativa acima do qual há risco de conseqüências catastróficas. Para estabilizar a concentração de GEE em 450 ppm seria necessária uma redução de emissões globais de GEE de 1.5% por ano, hoje impossível de alcançar.

O cenário mais seguro defendido pelos cientistas –levando em conta que efeitos climáticos verificados (geleiras, nível do mar, etc.…) vem sendo sistematicamente mais negativos que previstos anteriormente-- seria, para 2020, os países do Anexo 1 reduzirem suas emissões em média 40%, em relação aos níveis de 1990, e países emergentes cortarem 50% em relação à expectativa atual de crescimento de suas emissões, ou seja, chegar a metade do BAU que hoje projeta um aumento de suas emissões entre 50% e 60% ! O que significaria aumentar em apenas 25% a 30% suas emissões.

Ocorre, no entanto, que desde os tempos de Kioto, deu-se uma mudança substancial na dinâmica de emissões: os países em desenvolvimento já estão emitindo mais que os do Anexo 1. Em 2005, os paises em desenvolvimento, no seu conjunto, já eram responsáveis por 62% das emissões globais e os desenvolvidos 38%. No ano base de 1990, os países do Anexo 1 eram responsáveis por 22 Gt de um total de 36 Gt. Em 2005, os do Anexo 1 já eram responsáveis por 19 Gt e os em desenvolvimento 26 Gt do total de 45 Gt. Para 2020, no sombrio “cenário BAU”, eles seriam responsáveis por 40 Gt em comparação com 20 Gt dos paises do Anexo 1. Nada disso está assegurado e, na verdade, o cenário de estabilização em 450 ppm já é considerado difícil de sustentar.


Janela de oportunidade


Temos, segundo os cientistas mais otimistas, uma janela de oportunidade de 10 a 15 anos com alguma chance de manter o aquecimento nos 2 graus que produzirão uma situação de mudança climática grave, mas, não ainda catastrófica. Será que conseguiremos aproveitá-la? O objetivo aparentemente brutal de reduzir em 80% as emissões até 2050 já aparece como aleatório, se não houver um claro compromisso de, pelo menos, estabilizar em 2015 e reduzir vigorosamente a partir de 2020. Isso é tremendamente difícil se considerarmos que a demanda de energia, até meados do século vai exigir um aumento de 43% e que em 2050 haverá no planeta 9 bilhões de pessoas, um aumento de 3 bilhões em relação à população de hoje, mesmo considerando as taxas demográficas em forte declínio que nosso planeta crescentemente urbanizado apresenta cada vez mais.

Nesse momento as tendências dos atores decisivos em Copenhagen são:

1 - União Européia: já terá reduzido cerca de 8%, em 2012, suas emissões com base a 1990, conforme o Protocolo de Kioto e dispõe se a cortar 20%, até 2020(sobre 1990), unilateralmente, ou 30% se houver acordo e os EUA e os países em desenvolvimento participarem.

2 - EUA: Estão amarrados pela não votação no Senado do projeto aprovado na Câmara que reduz, até 2020, entre 17% e 20% as emissões em relação a 2005 o que significaria "grosso modo" voltar a 1990. O resto do mundo vê nisso um avanço em relação a Bush-BAU mas também uma consolidação da sua não adesão ao Protocolo de Kioto pelo qual os EUA teriam que estar reduzindo emissão até 8% em 2012, em relação a 1990. Já os americanos afirmam que no período 2012 --ano para entrada em vigor do pós-Kioto-- e 2002, estarão reduzindo mais do que a Europa, nesse mesmo período. É uma forma de ver o assunto...

3 - Brasil: Está entre não levar nenhum compromisso de redução pactuado e verificável e dois cenários de redução (Miguez/Dilma): 20% em relação ao seu BAU que representaria, grosso modo, ficar no nível de 2005, em 2020 e entre 30% e 40% em relação ao BAU (Minc) o que nos deixaria um pouco além de 1990. (Os verdes defendem redução, em relação a 1990, de 50% da média entre Europa, Japão e EUA)

4 - China e Índia: admitem cortes ainda não claramente revelados em relação ao cenário BAU mas muito aquém dos cogitados pelo Brasil.

Todos têm boas justificações: União Européia: "ninguém cortou mais que nós, no mínimo 20% em relação a 1990, até 2020". EUA: "Superamos a inércia de Bush e vamos cortar mais que todos na primeira fase do pós-Kioto, 2012-2020". Brasil: "somos um país emergente e estamos próximos dos cortes do Obama(não referendados ainda apelo Senado). China e Índia: "Nossas emissões per capita são sete vezes menores que as dos EUA, vamos reduzir alguma coisa em relação ao BAU mas precisamos de financiamento e tecnologia".

Todo mundo têm razão mas nesse cenário de razões razoáveis vamos ultrapassar folgadamente os 450 ppm e o limite dos 2 graus claramente estipulado pelos cientistas do IPCC como fatal para um aquecimento global fora de controle. E aí???

A inércia é fácil de praticar e de justificar

Quais os maiores obstáculos? O primeiro é justamente o imobilismo e a falta de sentido de urgência. Nesse sentido a crise global do clima não é diferente de milhares de situações envolvendo políticas públicas onde exista um conflito agudo entre o interesse coletivo difuso, disperso, e o interesse particular concentrado. Mobilizar-se pelo clima implica numa certa capacidade de abstração e num mínimo sentimento de responsabilidade pelas gerações futuras e de amor por nossos filhos, netos e bisnetos, nascidos ou não. O que significam esses nobres sentimentos diante da dor aguda e imediata no bolso do principal acionista ou do executivo de uma termoelétrica a carvão? Ou de um funcionário dessa empresa ou do mineiro ameaçado de perder o emprego? Do automobilista que pode ver subir o preço da gasolina se tiver que pagar uma taxa sobre o carbono? Ou do político cujos votos provêm desse eleitorado?

Há farto estoque de racionalizações disponíveis para nada fazer que vão do cinismo ao fatalismo. “A longo prazo estaremos todos mortos” , ponderava Lord John Maynard Keynes. É fácil aplicar-se isso à situação do clima. Ou dizer como Su Wen, o então czar da política climática chinesa, num workshop em Bali do qual participei: “o que a China pode garantir, cabalmente, neste momento, senhores, é que nunca chegaremos perto das emissões per capita dos Estados Unidos, que hoje são mais de sete vezes maiores que as nossas”. Ou responder como ouvi uma das representantes do governo Bush, presentes, murmurar: “dizem isso, mas já estão emitindo muito mais que nós. Os chineses já são os campeões do mundo em CO2”. Ambos estavam certos dentro da respectiva linha de raciocínio. Mas suas posições defensivas levaram o processo a o jogo de soma zero que tivemos em Bali e no qual continuamos, dois anos mais tarde.

O drama do carvão abundante e barato

Em termos práticos a China, os Estados Unidos e a Índia são os países decisivos se considerarmos que as emissões de gases de efeito estufa constituem mais que nada um fenômeno físico perfeitamente mensurável. São os maiores emissores de gases de efeito estufa. A China e os EUA respondem por 40% das emissões globais de GEE com aproximadamente 20% cada. Estão até hoje, fora de qualquer acordo internacional de redução de emissões. Os EUA porque não ratificaram o Protocolo de Kioto, a China e Índia porque estavam isentos de cumprir suas metas na sua condição de países em desenvolvimento no paradigma consagrado por Kioto. China, EUA e India têm um traço em comum: sua produção de energia elétrica é fortemente dependente do carvão, isoladamente, ao maior vilão do aquecimento global, seguindo de perto pelo petróleo. Em 2005, o carvão foi responsável pela emissão de 1,9 Gt e o petróleo veio logo atrás com 1,7 Gt.

Diferentemente do petróleo as jazidas de carvão são abundantes, baratas, e não estão diante de nenhuma perspectiva de esgotamento. Há carvão de sobra para toda a geração elétrica que o mundo necessitaria, nos próximos 150 anos. Poder-se-ia usá-lo, de lambuja, como combustível nos transportes e nas indústrias como já o foi no passado. O único problema – mas exige uma certa capacidade de abstração para entendê-lo-- é que estaríamos fazendo-o literalmente no inferno. A China é responsável por 38% do uso global de carvão como fonte de energia elétrica, em termos absolutos usa mais carvão que os EUA, a Europa e o Japão juntos. Nos EUA o carvão responde por 50% da produção de energia elétrica e na administração Bush foram elaborados planos para aumentar em 60% seu uso até 2050. Hoje já existe tecnologia para reduzir em 80% as suas emissões de CO2, mas isso demanda novos tipos de instalações, é dificilmente adaptável às velhas. Naturalmente a discussão mais em voga é a do seqüestro do CO2 em depósitos subterrâneos, poços de petróleo e gás, etc.… objeto ainda de muitas incertezas e ruidosas controvérsias técnico-científicas mas que seguramente terá aplicação no futuro. Atualmente são capturadas experimentalmente apenas quatro milhões de toneladas/ano, em todo o planeta. Verificar de fato a viabilidade disso demandará um investimento de US$ 100 bilhões em 30 usinas. Com um colossal investimento a capacidade de captura de CO2, na melhor das hipóteses, poderia atingir a 1 Gt em 2020.

EUA e China: o avanço para aquém...

Os EUA estão para o consumo de petróleo assim como a China para o carvão. A intervenção de Barack Obama na indústria automobilística, os subsídios para mutações tecnológicas em prol de carros mais econômicos, híbridos ou elétricos e para mecanismos de corte e/ou taxação de emissões poluentes indicam que as coisas começam a se mover embora, provavelmente, não na velocidade necessária. Mas a se a tendência dos EUA e da Europa é de ver reduzida sua demanda por petróleo a da China é de aumentá-la fortemente. No momento em que esse capítulo está sendo escrito e em que se prepara a COP-15 a décima quinta Conferência das Partes,da ONU, em Copenhagen, há um impasse. Os Estados Unidos avançaram, mas a redução com a qual acenam: voltar aos níveis de 1990, em 2020, fica muito aquém do necessário e permite à China confortavelmente eximir-se de fixar metas de redução de emissões absolutas restringindo-se a acenar com metas de redução relativas em relação a sua atual curva de aumento das emissões, ou seja um corte apenas em relação ao business as usual.

Há no entanto indícios de que a China começa levar mais a sério os riscos do aquecimento global afetá-la tremendamente. Anuncia planos de produção de veículos elétricos numa escala gigantesca e uma nova geração de termoelétricas a carvão menos poluentes, também faz parcerias com os EUA no desenvolvimento das técnicas de “captura” do CO2 dessas usinas térmicas. Tem reservas internacionais de UR$ 3 trilhões (boa parte em bônus do tesouro americano). As características autoritárias do regime, nesse particular, permitem, em tese, uma ação mais drástica num assunto que até agora vinha sendo deixado muito ao sabor de decisões locais e regionais com uma grande capacidade de obstrução por parte de interesses locais nas regiões de imenso dinamismo econômico. A batalha decisiva do clima possivelmente se jogará no despertar ou não da China para uma economia de baixo carbono a tempo de evitar que asse emissões globais subam acima das 45Gt ano no horizonte 2020.

Redução de emissões e financiamento da reconversão para baixo carbono

Para efeito de estabilização do clima o que contará, daqui para diante, não serão as emissões per capita ou o histórico de emissões, mas obviamente, as emissões em números absolutos. Mas as responsabilidades históricas no acúmulo de GEE na atmosfera devem se refletir no princípio do financiamento global rumo a uma economia de baixo carbono. Se formos considerar o acúmulo histórico de GPP na passagem dos entre 200 e 300 ppm, da era pré-industrial, para os atuais 387 ppm, os paises desenvolvidos foram responsáveis por 64%. A isso deveria, em tese, corresponder sua participação no financiamento de uma economia mundial de baixo carbono. Os países do Anexo 1 acenam com dificuldades econômicas para assumir o papel de arcar com essa parte do leão da despesa. Uma dificuldade é que sua quantificação varia enormemente. No mencionado estudo do Banco Mundial estima-se um investimento anual em aproximadamente US$ 475 bilhões (400 para mitigação e 75 para adaptação). Os países em desenvolvimento necessitariam receber anualmente US$ 80 bilhões. Hoje os recursos existentes estão muito distantes disso chegaria, quando muito, a nove bilhões. De fato disponíveis estariam US$ do Global Environmental Facility (GEF) da ONU e mais cinco bilhões do Clean Technology Fund.

Não obstante as mudanças em relação ao tema trazidas por Barack Obama, ao concluirmos essa edição, o governo norte-americano não parecia disposto a investir mais de US$ 10 bilhões, por ano, no esforço global de financiamento das mutações tecnológicas necessárias. Se considerarmos que a guerra do Iraque custou mais de um trilhão de dólares percebemos a distancia entre intenção e gesto diante dessa emergência global. Os EUA parecem confiar mais nos efeitos de mercado do chamado Cap-and-Trade o desenvolvimento acentuado do mercado de carbono relacionado a limites de emissões que já vem do Protocolo de Kioto, na forma do MDL(Mecanismo de Desenvolvimento Limpo) e das bolsas de carbono tende a se potencializar no pós-Copenhagen com novos mecanismos, entre eles o REDD. A Environment Protection Agency norte-americana calcula que seria possível mobilizar US$ 60 bilhões anuais, já em 2012, e chegar a US$ 113 bilhões, anuais, em 2025, através desses mecanismos de mercado. Mas como sabê-lo ao certo? E mesmo considerando-se esses cenários otimistas os mecanismos de mercado não parecem ser suficientes.

Geoengenharia, arma de derradeiro recurso?

Começa a se falar cada vez mais em soluções de “geoengenharia” prevendo tipos intervenções na atmosfera que possam esfriá-la artificialmente. Quase todas as idéias baseiam-se na constatação de que o material particulado proveniente da erupção de vulcões teve o efeito de filtrar e reduzir o calor dos raios de sol. Imaginam-se várias formas artificiais replicar esse efeito artificialmente. Uma delas prevê injetar nuvens de SO2, dióxido de enxofre, na alta atmosfera. Também se especula em torno da aplicação numa escala gigantesca, no mar e em terras vazias, de dispositivos que reflitam de volta a luz solar. Ainda não há uma base cientifica segura para nenhuma dessas e várias outras técnicas nem são conhecidos os eventuais efeitos imprevistos, que provavelmente terão, como qualquer intervenção humana de enorme escala em ciclos naturais. Assim como não se pode descartá-las, a priori, para o futuro, não se pode apostar nelas como tábua de salvação para compensar o imobilismo climático. No caso de serem cientificamente validadas, constituirão a arma de derradeiro recurso.


 
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