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Alfredo Sirkis - RJ
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Cuba e Costa Rica: duas revoluções, dois destinos.
É pouco conhecida a revolução da Costa Rica, em 1948, liderada por Pepe Figueres. Ela produziu um país de primeiro mundo na América Central. É o que a revolução cubana poderia ter sido.

Alfredo Sirkis

Pepe Figueres, na revolução 1948.

É comum ouvirmos em defesa do regime cubano que a estatização quase total da economia, o alinhamento com a URSS na Guerra Fria, a implantação de um regime comunista ortodoxo de partido único, as restrições drásticas à liberdade de expressão e imprensa, a prisão de dissidentes, a ausência de eleições livres e pluralismo político, se justificam diante das conquistas dos sistemas de educação e saúde e da superação da miséria absoluta existente em vários paises latino americanos. A comparação, cada dia mais questionável, nunca se sustentou em relação à Costa Rica que também conseguiu notáveis avanços em educação e saúde e apresenta um padrão de vida incomparavelmente mais elevado, sem ter sacrificado as liberdades, o pluralismo e os direitos humanos. O seu salário mínimo é 15 vezes maior que o de Cuba e o seu PIB per capita o triplo. Mas há três vezes menos suicídios na Costa Rica do que na ilha.

A revolução da Costa Rica, em1948, e seu líder, Pepe Figueres, não figuram no rol dos mais consagrados pela História da América Central e Caribe. Ressaltam mais nos livros de história e no jornalismo os martírios ou fracassos de Augusto Sandino, Jacobo Arbenz, Antonio Caamano Deno e as figuras de histriônicos dos tiranos: Rafael Lonidas Trujillo; Tacho Somoza, pai e filho; Papa Doc Duvalier e seus tanton macoute e por aí vai. E a revolução, “de verdade” ficou sendo a cubana.

Os heróis trágicos, os mártires e os tiranos sanguinários deixaram marcas mais profundas.As revoluções que notabilizam a guilhotina ou o paredón viraram as favoritas da História. “Mate um homem, você será um assassino, mate mil, será um herói nacional” reza do dito popular que nos remete a Robespierre, Bonaparte, Stalin, Mao Ze Dong, Khomeiny e outros que não correram o menor risco de esquecimento, da mesma forma que os mártires ou os guerreiros caídos, não importa o quão patéticos ou desavisados: Che Guevara, Trotsky, Tiradentes ou Rosa Luxemburgo.

Aqueles que tomaram o poder, a custa de muito sangue e nele se mantiveram, a custa de mais ainda, ou aqueles que derramaram o seu próprio, em holocausto, passando “da vida para a História”, fazendo de sua derrota saga heróica, não correm o risco da irrelevância mas uma revolução, como a de 1948, na Costa Rica, com relativamente pouco sangue e um happy end negociado; um país que “cai numa democracia” para não mais dela sair até hoje, um líder que abre mão do poder, uma vez terminada a transição, dificilmente ressaltarão no Panteão de eventos e personagens históricos marcantes do Século XX.

A Costa Rica e Don Pepe Figueres, não chegaram a ser anônimos mas não chamam muita atenção. E, no entanto, trata-se de uma experiência histórica formidável. Há quase 60 anos, a Costa Rica vem procedendo eleições e alternâncias democráticas, sem hiato, sua imprensa é livre e seu judiciário independente. Seu PIB e renda per capita são os mais altos da região. Seus miseráveis constituem minoria da população e não se vêem --pelo menos nas variadas áreas que visitei-- favelas.

A revolução de 1948 foi de certa forma uma prévia do que poderia ter sido a revolução cubana, onze anos mais tarde. É provável que o levante popular de Don Pepe Figueres inspirasse Fidel, em Sierra Maestra, quando daquela sua famosa entrevista ao jornalista Herbert Mathews, do New York Times, em 1959. No caso cubano fizeram a grande diferença histórica a quase imediata hostilidade norte-americana, a dinâmica implacavelmente polarizadora da guerra fria --em 48, ainda nos primórdios, em 60, no apogeu-- e a personalidade de Fidel Castro. Há quem atribua a diferença entre Fidel e Pepe à idade e origem social: Pepe, filho de um modesto médico catalão, era um pequeno fazendeiro e tinha 42 anos quando liderou a revolução. Fidel, filho de um grande latifundiário de origem galega, era estudante quando chefiou o assalto ao quartel de Moncada. Depois conheceu apenas a prisão, o exílio e Sierra Maestra. Pepe era acostumado a ouvir, negociar, comerciar, regatear. Fidel, nascera para mandar e ser obedecido.

Pepe apoiou a revolução cubana, em 59, com dinheiro e armas, da mesma forma com que, duas décadas mais tarde, ajudaria os sandinistas, a ponto de seu próprio filho ter participado dos combates nas fileiras da FSLN. Em ambos os casos Pepe acabou rompendo com os revolucionários uma vez consolidados no poder. Pepe colocava-se como arauto de uma “esquerda democrática”, adepto da social-democracia de estilo europeu, ou, como gostava de se classificar, um “socialista utópico”.

Uma grande diferença de Pepe em relação a Fidel e toda a geração revolucionária, dos anos 60, inspirada por ele e por Che Guevara, foi a atitude perante os Estados Unidos. Irremediavelmente hostil, no caso de Fidel e seus seguidores, em todo o continente. Ambígua, complexa, sutil, feita de conflitos e negociação, amor e ódio, tapas e beijos, por parte de Pepe. Um dos pontos de atrito entre eles foi a questão de Porto Rico. Numa visita a Cuba, no auge de uma campanha de Fidel pela independência de Porto Rico, cuja população nunca a quis, Pepe praticou o “sincericídio” de observar, num programa da TV cubana, que submetida a um plebiscito a proposta de independência de Porto Rico tenderia a ser fragorosamente derrotada.

Ao analisar a diferença de trajetória daquela revolução na origem tão parecida --inclusive no papel dos comunistas que, também em Cuba, no começo, apoiavam o ditador Fulgencio Batista-- Pepe Figueres muitos anos depois observou: “Eu esperava de Fidel um regime social-democrata, éramos amigos e isso era o combinado. Aconteceram duas coisas: a intelectualidade comunista compreendeu seu erro, abandonou Batista e foi para o lado da revolução e os comunistas quando entram numa causa são eficientes; em segundo lugar os Estados Unidos tiveram dois embaixadores junto ao governo de Batista, que eram o cúmulo da imbecilidade (...) a revolução já veio envenenada contra os EUA (...)

Pepe cultivava contatos em Washington que lhe permitiram desarticular a invasão de Anastácio Somoza, apoiada pela CIA, em 55. Somoza também tinha bons amigos governo americano e entre os militares, alguns deles seus antigos colegas da academia militar de West Point. A seu respeito Allen Dulles, o todo-poderoso diretor da CIA, pronunciara aquela frase que ficou famosa: “Anastácio Somoza é um son-of-a-bitch (fdp) mas é o nosso son-of-a-bitch”. A Somoza revoltava e enciumava essa capacidade de Pepe de fazer dos ianquis aquilo que na terminologia de da guerra fria chamavam de “inocentes úteis”.

Tendo vivido um bom período nos Estados Unidos, em Boston, casado, nos anos 40, com uma norte-americana do sul, Henrietta Boggs, sua primeira mulher(7), Pepe conhecia bem “as entranhas do monstro” nas célebres palavras de José Marti. A política dele passava por trabalhar as fissuras, as “contradições internas” da metrópole, em geral mediante uma forte relação pessoal e política com a ala esquerda do Partido Democrata, formada por aqueles que no jargão político americano sãos chamados liberals. Desdobrada no tempo a relação Pepe com os americanos teve variadas fases feitas de conflitos e encantamentos. No saldo geral, do ponto de vista da população e da economia da Costa Rica, comparando com as de Cuba, não foi, nem de longe, mau negócio. O limite de Pepe na relação com os americanos foi, à diferença de Fidel, jamais ter recorrido nem se aliado à União Soviética. Pepe nunca aceitou o Muro de Berlim.

A Costa Rica está distante anos-luz dessa paixão nacionalista e anti-americana, tão intensa em Cuba, dada a proximidade dos EUA e a promiscuidade anterior com seus cassinos, bordeis, e capos mafiosos... Cuba tem esse imperativo de afirmação de sua soberania de pequeno pais a escassos 80 km da superpotência chegada a bloqueios econômicos e intervenções como a da Baia dos Porcos. Com seus aposentados californianos comprando chácaras e gastando dólares, seus eco-turistas voando pelas copas das árvores nos cabos de canopy, seus surfistas, de todo o mundo, buscando suas praias paradisíacas e morando em localidades onde se ouve o inglês, o francês, o alemão e o hebraico, quase tanto quanto o espanhol, a Costa Rica vive em outro paradigma mental. Preocupa-se com projetos de preservação de florestas tropicais e créditos de carbono. Seu atual presidente, Oscar Arias, foi Premio Nobel da Paz pela mediação que levou ao fim das guerras civis em El Salvador e Guatemala, nos anos 90.

Os ticos (os costariquenhos) nunca fizeram do “ianqui go home” elemento de afirmação de sua identidade nacional. Preferem cultivar um discreto e confiante orgulho da sua forma de ser na qual Don Pepe Figueres continua sendo referência. Mais pacíficos e cosmopolitas, são, com toda probabilidade, mais felizes. Mas, a felicidade, essa coisa tão subjetiva --gota de orvalho numa pétala de flor-- está longe de ser reconhecida como indicador relevante na cultura política e jornalística do nosso tempo, mais interessada nas bravatas de Hugo Chaves ou nos recorrentes brados retumbantes gênero Pátria o Muerte! Venceremos! Uma antiga revolução de final feliz parece um contra-senso, uma veterana democracia estável, ainda que em terra de tantos vulcões, torna-se enfadonha. Good news is no news. Boas notícias decididamente não fazem notícia.


 
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