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Alfredo Sirkis - RJ
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Enchentes, clima e prevenção
As causas globais e as específicas do aumento de enchentes e inundações em São Paulo e Rio de Janeiro, verificado esse ano.

Alfredo Sirkis

Área de risco na Rocinha.
Área de risco na Rocinha.

Um fator importante, segundo todos os meteorologistas consultados, no agravamento das chuvas que atingiram o Rio foi o aumento da temperatura do mar. Isso claramente reflete o que os estudos de mudanças climáticas vinham apontando para o Brasil, e que não é nada animador. A temperatura aqui irá ficar 20% acima da média global e seus efeitos mais diretos serão a “savanização” da Amazônia, a desertificação do semi-árido nordestino e um forte aumento das enchentes na região centro-sul, exatamente como vimos acontecer este ano em São Paulo e no Rio. Só perfeitos imbecis ou gente subsidiada por interesses ligados ao carvão, petróleo ou desmatamento podem ainda questionar a existência do aquecimento global e seus efeitos potencialmente catastróficos em escala planetária.

Inundações como a que sofremos nos levam a refletir não apenas sobre as mudanças climáticas como também sobre os efeitos dos impactos ambientais e urbanísticos locais: desmatamentos e erosão e sobre a urbanização mal concebida: enormes extensões de solo totalmente pavimentadas e impermeabilizadas, sem deixar suficientes pontos de contato da água da chuva com o solo; a herança das intervenções imprevidentes sobre regiões no passado alagadiças, com pântanos, mangues, brejos ou várzeas, que foram aterradas, impermeabilizadas e edificadas; a sina dos rios e córregos assoreados, desviados abusivamente ou canalizados, com suas margens ocupadas, suas matas ciliares e áreas de acumulação suprimidas e substituídas pelo concreto. Ralos, galerias pluviais e canais entupidos por milhões de garrafas e sacos plásticos.

Durante as chuvas de verão, a natureza dá o troco. As encostas desmatadas, erodidas desmoronam sobre as construções em área de risco. A ocupação irregular das margens dos rios, canais e lagoas não só expõe os moradores aos riscos dos efeitos diretos e indiretos das enchentes, como inviabiliza o trabalho de dragagem. O solo totalmente impermeabilizado pelo asfalto e pelo concreto não absorve a água que corre sobre as ruas a grande velocidade, arrastando casas, automóveis e pessoas. Uma drenagem feita exclusivamente para transportar rapidamente as águas para mais adiante agrava a situação pois apenas acelera seu movimento sem prever os gargalos que elas fatalmente encontrão mais adiante com efeitos devastadores.

A concepção moderna (embora antiquíssima) e sustentável de drenagem pluvial valoriza as várzeas dos rios, as áreas de baixada periféricas, livres de aterros e de edificações como indispensáveis bacias de acumulação. O planejamento urbano precisa prever essas bacias naturais ou tanques artificiais para os períodos de chuvas e enchentes ao longo dos rios e canais, para poder absorver a subida das águas.

A impermeabilização do solo precisa ser reduzida ao mínimo necessário. Calçadas com muitos canteiros, praças só parcialmente pavimentadas, estacionamentos de terra batida ou com um uma teia de concreto tipo grade, que permita o contato da água com o solo são algumas boas providências. Outras ações essenciais são: recuperar as margens dos rios; recompor a profundidade original dos rios através de dragagens criteriosas; reflorestar as matas ciliares, os mangues, as várzeas e as encostas erodidas; reassentar as comunidades de áreas de risco; fazer uma drenagem mais inteligente, com uma visão de conjunto da região; multiplicar nas cidades o maior número possível de áreas verdes destinadas a acumular a precipitação; construir reservatórios nos telhados para absorver parte da água e liberá-la gradualmente depois da chuva. Outras áreas de acumulação podem ser criadas em praças, estacionamentos, parques e, quase sempre, ter algum tipo de uso recreativo ou de paisagismo nos dias normais. Cada novo edifício, área de estacionamento ou parque deve ser desenhado com a preocupação de contribuir para prevenir ou mitigar inundações e conservar e restaurar recursos hídricos e combinar isso com algum tipo de uso recreativo ou outro para dias normais. Quem não se prepara para as águas cheias, delas padece.



 
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