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Alfredo Sirkis - RJ
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Quando as cidades são o Meio Ambiente
Entrevista para o site Ambiente Urbano

Sirkis: olhar sobre a sua cidade.

Alfredo Sirkis iniciou sua trajetória na política participando do movimento estudantil nos anos 60. Ingressou na luta armada contra a ditadura militar, foi exilado, viveu na Argentina, Chile e em Paris e trabalhou em jornais internacionais. Só retornou ao Brasil em 1979, com a anistia. Pode-se dizer que Sirkis retornou no tempo certo, já que nos anos 80 o movimento ambientalista começava a dar os primeiros passos em nosso País. Ele já havia se aproximado de movimentos ecologistas, pacifistas e antinucleares enquanto esteve na Europa e, com o regresso ao Brasil, engajou-se no ambientalismo. Em 1986, ajudou a fundar o Partido Verde e, dois anos depois, foi eleito como o vereador mais votado do Rio de Janeiro, com 43 mil votos. Foi reeleito em 1992. Como parlamentar, aprovou os capítulos de meio ambiente da Lei Orgânica Municipal e do Plano Diretor Decenal, as leis de sanções administrativas para estabelecimentos poluidores e de sinalização ecológica e criou Áreas de Proteção Ambiental, entre as quais a da Prainha, do Bosque da Freguesia e da Lagoa de Marapendi. Em 1994, tornouse secretário de Meio Ambiente do governo César Maia, onde permaneceu até 1996. Nesse período, foi responsável por diversas ações, como mutirões de reflorestamento, o projeto das ciclovias cariocas, além de realizar obras que contribuíram para o saneamento básico do Rio de Janeiro. Em 1998, lançou-se como candidato à presidência da República. Em 2001 assumiu a Secretaria de Urbanismo e a presidência do Instituto Pereira Passos (IPP). Em 2006 deixou a Secretaria de Urbanismo, candidatou-se a Senador e recebeu 500 mil votos, 7% no Estado (11% na cidade do Rio), chegando em terceiro lugar. É a maior votação individual já obtida, até então, por um verde no Brasil. Em 2008 Sirkis foi eleito vereador pelo Rio de Janeiro pela quarta vez.

Ambiente Urbano: O senhor acredita que as pessoas que vivem nas áreas urbanas já estão conscientes de seu papel na melhoria desse meio ambiente?

Sirkis: Essa noção começa a existir. Há uma consciência maior que antes, mas ainda não se traduziu em uma mudança massiva de comportamentos.

Ambiente Urbano: Quais os principais problemas que as cidades enfrentam hoje em dia?

Sirkis: Depende da cidade. Penso que o abastecimento d’água na maioria delas. No Rio é, sem dúvida, a violência e a desordem urbana.

Ambiente Urbano: O senhor poderia explicar melhor sobre o conceito de não-cidades?

Sirkis: Penso que o modelo urbanístico modernista na escala do automóvel, não do pedestre, com torres isoladas, vias expressas, shoppings só acessíveis com o uso de automóvel, com separação de usos e resultante segregação social - a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, é um bom exemplo -, constituem uma não-cidade.

Ambiente Urbano: Hoje os centros urbanos enfrentam grandes problemas com a questão dos transportes. Qual a sua opinião sobre o uso de transportes alternativos como, por exemplo, a bicicleta? Medidas como esta seriam suficientes?

Sirkis: Fui responsável pelas ciclovias cariocas, que hoje representam a maior rede cicloviária do Brasil. Mas a bicicleta é um componente de um “mix” de modais; não é por si só a solução. É importante termos transporte de massa sobre trilhos - trem, metrô -, transportes hidroviários, corredores expressos para ônibus articulados e bairros de usos mistos que permitam às pessoas prescindir de deslocamentos ao encontrar perto de casa o que precisam. O aperfeiçoamento do trabalho pela internet também ajuda a diminuir a demanda sobre os transportes.

Ambiente Urbano: A cada ano, vemos muitos prédios serem construídos nas cidades. Essa edificação exagerada é prejudicial ao ambiente urbano?

Sirkis: Há limites de saturação a serem observados, embora isso comporte um forte componente cultural. Aqui é uma coisa, numa cidade asiática pode ser diferente. De qualquer jeito, ao contrário do que muita gente pensa, uma boa densidade é positiva para manter um ecossistema urbano saudável. É preciso observar a relação entre essa densidade e os serviços - águas, esgotos, transportes. É preciso também equilibrar os usos. Finalmente, é preciso entender tanto o peso da população residente quanto da flutuante. Na Zona Sul carioca, por exemplo, a população residente cai constantemente, mas há uma sensação de saturação provocada por um aumento da flutuante.

Ambiente Urbano: O que o senhor pensa sobre a crescente ocupação e expansão de atividades nos ambientes urbanos? As grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, estão preparadas para crescer ainda mais?

Sirkis: Há uma tendência à estabilização demográfica para o final da década e, dentro de mais uns dez anos, há umcrescimento negativo no futuro. Vamos ter, além dos problemas que já temos, outros problemas típicos de Primeiro Mundo - sem as vantagens - no que diz respeito a uma pirâmide etária em envelhecimento com conseqüências sobre o sistema de previdência.

Ambiente Urbano: A pobreza e a exclusão são desequilíbrios que comprometem o bom desenvolvimento das cidades, no entanto, trata-se de um problema econômico- social. As pessoas estão ali porque não tiveram condições de se fixarem na cidade formal. Qual a melhor saída para um tema tão complexo?

Sirkis: A cidade informal precisa ser integrada à formal dotando-a de infraestrutura básica e criando normas para a construção legal em circunstâncias peculiares e regularizando as propriedades do ponto de vista tanto urbanístico quanto fundiário.

Ambiente Urbano: Como seria a cidade do futuro, no seu ponto de vista?

Sirkis: Não seria futurista no sentido que a expressão pinta no nosso imaginário. Seria uma cidade densa, com bairros de usos mistos - moradia, comércio, equipamentos culturais, lazer, escritórios e atividades de produção não poluentes, coexistindo -, feita na escala do pedestre, com calçadas generosas bem povoadas e um bom transporte público e de massas, com um uso restrito do automóvel - que seria utilizado apenas para deslocamentos mais longos, à noite e nos finais de semana. Uma cidade intensamente arborizada e ajardinada - inclusive com telhados verdes -, com prédios e veículos movidos a célula combustível a hidrogênio, contribuindo para produzir energia elétrica para a rede fora dos seus horários de uso; fachadas com células fotovoltaicas captando energia solar. Uma cidade onde coexistam construções de épocas diferentes, onde se preserve o patrimônio mas se permita a renovação, onde haja um “mix” social e não uma segregação espacial e, sobretudo, uma cidade segura, onde as crianças e os idosos voltem a se apropriar do espaço público. (Fonte: Revista Ambiente Urbano)


Publicado em: 16/7/2009


 
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